CÂNCER EM MAMA

Comandantes de instituições religiosas criam interdições (muitas vezes, incompreensíveis), que colocam névoas intelectuais entre as pessoas, dificultando a comunicação e criando o obscurantismo. Somos vítimas, “… seres humanos sacrificados a uma divindade ou em algum rito sagrado.”¹ Vivemos sob os constrangimentos morais dos “bons costumes” decorrentes de estratégias de dominação dos humildes por líderes ‘bondosos’, espertos e prepotentes.

Os dogmas e os mitos descrevem eventos metafísicos, criados por discursos da classe dominante e perpetuados pela oralidade plebeia ágrafa e subservil. As elites governantes inventam categorias sobrenaturais para justificar as transgressões às regras morais usadas para subjugar os súditos. Ou seja, controlam o povo com normas que se permitem burlar para dar plena vazão à corrupção, à devassidão, à libertinagem, à perversão e à exploração de seus semelhantes, como escravos ou fregueses de “determinada paróquia ou freguesia”¹.

Os semideuses da mitologia grega (satiros) e romana (faunos), como os demais semideuses em todos os impérios, leigos ou religiosos, permitiam a si o que proibiam aos comandados. Homens com cabeça de bode (que pensavam como um bode de alta potência sexual) que se permitiam a si mesmos (apenas a si mesmos…) dispensar o bom senso e, sem escrúpulos, liberar os instintos animalescos para praticar vícios e abusos.

A dominação masculina começa ao anexar as mulheres pela linguagem: a palavra ‘homens’ designando mulheres e homens, as fêmeas e os machos da espécie Homo Sapiens. Mitos e regras impostas por homens (masculinos, não-femininos) que, em casos extremos, transformam meninas, moças e mulheres em animais domésticos. O machismo permeia a cultura colonial europeia. (Desconheço os comportamentos de gênero nas demais culturas. E, como não conheci e nem convivi com sociedades matriarcais, fico curioso sobre os comportamentos do femealismo.)

Os tabus influenciam os costumes e, consequentemente, a linguagem.  O uso de eufemismos e de jargões camufla a realidade objetiva (camuflar = disfarçar, enganar), gerando escrúpulos infundados, inquietação mental, subserviência, constrangimento e interdição cultural ou religiosa. A hipocrisia imposta pela língua condena, por tabuísmo, palavras comuns, triviais e vulgares. Ou seja, demonializa objetos naturais e ações corriqueiras do nosso cotidiano.

Podemos tomar como exemplo o generalizado uso da expressão “câncer de mama”.

O tabu exige que, ao falarmos de mamas, usemos o ‘bom senso’, eufemismos, palavras não interditadas pela MORAL: ‘peito’ ou ‘seio’. “Deu o peito ao bebê.” “Tem o peito pequeno.” “Estava com o seio à mostra.” “Machucou o seio.”

Em anatomia, identificamos ‘peito’ como “porção anterior ou ventral do tórax”¹. Daí decorre o absurdo de afirmar que a mulher tem dois peitos. (E as porcas, então, teriam entre doze e dezesseis peitos???) Os rapazes também têm um único peito e duas mamas, em geral, pouco desenvolvidas.

No mesmo dicionário, podemos encontrar que ‘seio’ significa “parte do pescoço e do peito feminino que pode ficar descoberto”¹. (Os humanos machos e machos ‘humanos’ permitem essa sedução…) Ou “parte interna”¹, “cavidade”¹. Nas aulas de Anatomia, aprendi que o ‘seio’ de qualquer pessoa estava localizado sobre o osso esterno, entre as duas mamas. De homens e de mulheres.

Por outro lado, deslembro de ter ouvido expressões como ‘espinho de pé’, ‘câncer de cabeça’, ‘câimbra de perna’, ‘dor de coluna’, ‘cólica de rim’, ‘cólica de útero’, ‘afta de boca’, … Em geral, ouço falar ‘espinho no pé’, ‘câncer na cabeça’, ‘câimbra na perna’, ‘dor na coluna’, ‘cólica nos rins’, ‘cólica no útero’, ‘afta na boca’.

Então, talvez, o mais correto (e menos dissimulado) seria dizer ‘câncer em uma mama’, ‘câncer nas mamas’ ou ‘câncer nas duas mamas’.

Mesmo assim, lamentável que as mamas só possam vir a público quando a mulher já está doente.

¹ Dicionário Eletrônico Houaiss

Recontagem de ÚLTIMA TRAVESSIA

Ouvi como anedota. Entretanto, o cenário, o tema e a insolência para com o homem humilde provocaram em mim uma reação ética e uma reflexão filosófica.

Um barqueiro ganhava seu sustento transportando pessoas para a outra margem do imenso rio. Não havia pontes. Era o único meio de transporte disponível. Em geral, transportava pessoas conhecidas, moradores das redondezas ou alguém que queria visitar algum familiar que morava além da outra margem.

Porém, num final de tarde, um homem com aspecto muito diferente dos ribeirinhos contratou uma travessia. As roupas e a pasta demonstravam ser uma pessoa da cidade. Mais que isso, cheio de si, parecia orgulhoso, cheio de si, semostrador.

Logo que a canoa saiu do embarcadouro, perguntou:

– Você conhece a Grécia?

– Grécia? Ela mora por aqui?

– Não, não. Não é uma mulher. A Grécia é um país distante e muito importante, porque foi lá que nasceu a Filosofia. Você deveria conhecer. Você não sabe o que está perdendo…

O humilde barqueiro baixou a cabeça. O objetivo dele era bem simples: levar pessoas de uma margem à outra.

– Você sabe Filosofia?

O barqueiro continuou remando, desinteressado dessa outra… possível … Seria outra nação? Seria uma mulher? Uma cidade?

Mesmo entendendo o silêncio e percebendo a inutilidade de lições, o homem explicou:

– A Filosofia investiga os princípios, os fundamentos e as essências da realidade imanente. Você não sabe o que está perdendo…

O barqueiro nem deu ouvidos; permaneceu atento à força da correnteza e aos movimentos arriscados do passageiro que podiam jogar água pra dentro da embarcação.

– Você sabe por que o avião consegue voar?

Pobre homem!!! Nem sabia da existência de aviões… Via muitos pássaros voarem… Até as folhas secas voam levadas pelo vento… Mas… avião… nem imaginava…

– Não. Não sei, não.

– Você não sabe o que está perdendo…

O barqueiro se sentiu mais pobre ainda… Nada possuía e ainda estava perdendo muita coisa…

– Você já leu Lucas Visentini?

– Lucas, eu conheço. Mas, ler o Lucas… Lá isso eu não sei.

– Você não sabe o que está perdendo…

O homem estava mesmo espezinhando o seu transportador.

– Qual a voltagem da energia elétrica por aqui?

O barqueiro ficou ainda mais confuso. Energia, ele até sabia o que era… Voltagem? Seria a volta de alguém? De dona Elétrica, talvez… Tem cada nome por aí…

– Nunca ouvi falar…

– Você não sabe o que está perdendo…

E assim, enquanto o barquinho singrava as turbulentas e agressivas águas do imenso rio, seguiu o desdenhoso interrogatório.

Além dos perigos naturais de se navegar a imensidão do rio em uma minúscula canoa, um iminente naufrágio ameaçava a vida de ambos, por causa da imprudência do passageiro.

No limite de sua paciência, o barqueiro perguntou agressivamente:

– O senhor sabe nadar?

– Nunca precisei aprender… – ironizou.

– Se continuar enchendo a igara de sabença e saracoteando sem parar, a canoa vai virar e o senhor vai perder tudo o que sabe. Até a própria vida…

PENSAR NO IMPENSAR

Nada lembramos do que vivemos

– inconscientemente –

nos primeiros anos de vida.

.

Da infância à adolescência,

agimos mais por impulso

que por raciocínio lógico.

.

Aos poucos, vamos tomando consciência

de nossos acertos e de nossos erros

e passamos a refletir antes de fazer,

acreditando que construímos o destino

com nossas escolhas, sem responsabilizar

o azar ou a sorte por fracassos ou sucessos.

.

Se planejarmos o que iremos fazer

e analisarmos o que fizemos,

poderemos reduzir o volume de erros

e viver sem tantas decepções.

.

À medida que envelhecemos,

passamos a pensar mais sobre

o cada vez menos que podemos fazer.

Substituímos espontaneidade e ingenuidade

por responsabilidade crítica.

IDEIAS COLETIVAS

Por incrível que pareça, os problemas e as soluções didáticas continuam sendo os mesmos.

A maioria dos instrutores, treinadores, professores e facilitadores ainda continua “dando aula” para si mesma. Doam ou vendem, sem entregar, o ‘saber deles’, a sabedoria particular. Ou seja, a maioria se coloca como centro do processo. Mais que isso: se coloca como quem sabe.

Óbvio, as tecnologias estão cada vez mais diversificadas e mais aprimoradas. Todavia, a didática (pedagogia ou competência oratória) é muito mais um modo como os profissionais buscam, organizam e aplicam as tecnologias, os conteúdos, os fazeres, as pesquisas ou experiências do que a soma de genialidade, tecnologia disponível e sabedoria acumulada.

Existe um número estatístico que aponta para 16% de alunos ou professores realmente conscientes de suas funções e de suas responsabilidades. Dias atrás, troquei mensagens com o autor de um artigo publicado em Profissão Mestre, nas quais eu afirmo que essa era a parcela de pessoas (alunos e professores) que estavam na escola antes de 1967, ano da reforma do ensino que passou a considerar obrigatória a matrícula de todos os jovens de 7 a 14 anos. (Hoje, é dos 6 aos 17 anos) Atualmente, 16% dos alunos e dos professores continuam na escola por opção; os demais, por obrigação.

O som da própria voz é sedutor, encantador. Isto dificulta imensamente a ação do
pedagogo ou de qualquer um que se propõe a ensinar algo pelo canal da fala.
Penso que nossos movimentos também nos encantem; somos vaidosos e acometidos de narcisismos, permanentes ou temporários. Como vencer nosso umbigo e chegar aos outros? Como dosar nossa necessidade de expressão para que ela sirva ao intuito de ensinar?

O poder sempre é sedutor. Políticos, professores e sacerdotes recebem muito poder e – no mais das vezes – confundem a importância da atividade com a importância pessoal, provavelmente, bem menor. Por exemplo, um locutor de rádio ou de televisão acaba envolvido pelo poder da palavra … que nem é dele, é alheia, escrita pelos redatores, lida e logo esquecida. O poder é da média (mídia). Entretanto, muitos se iludem pensando que eles ‘são O Poder’.

Eu mesmo, ao escrever, preciso ter consciência de que as ideias são sempre obras coletivas, geradas no embate intelectual, e não individuais, como que espontâneas. Não. Nunca. Sem o desafio, nós dois – e todos os demais humanos – não pensaríamos, falaríamos e escreveríamos textos edificantes. Você é provocação. Eu sou provocação. Os fatos nos provocam e … no confronto das opiniões, construímos ‘grandes’ ideias. Por isso, os que não aceitam contradições nada criam. Para germinar, a criatividade precisa do diferente, do oposto, do inusitado, do ridículo, do incompleto… O inédito nasce da diversidade e da discordância.

PRIMEIRO DIA DE UM ANO

Pode ser que, distraídos pelos fogos de artifício ou pelas alegrias artificiais, tenhamos esquecido que hoje é Dia de Ação de Graça, dia de agir sem cobrar, de ajudar os outros sem pensar em si.

E, principalmente, dia de agradecer.

Agradecer a nós mesmos pelo que fizemos bem e agradecer a todos que nos ajudaram a acertar e/ou nos indicaram os perigos de errar.

Agradecer pelas dádivas que a Vida disponibilizou gratuitamente e pelas recompensas por termos trabalhado com planejamento, responsabilidade, persistência e abnegação.

Em especial, dia de agradecer que podemos iniciar mais um ano de boas ações.

05.09 / 01.01.2021

MUDAR NA MUDANÇA

Podemos mudar de apartamento, casa, bairro, cidade, região, país, … Talvez, … de planeta…

Impulsionados por insatisfações, saturamentos, esgotamentos, tragédias, expulsões, aversões ou oportunidades.

Podemos deixar o indesejado, algo do que fomos, apelidos, relações, humilhações, perseguições, limitações espaciais ou emocionais.

Em busca de horizontes amplos, harmonia interna, familiar, social ou comunitária: melhores condições de vida.

Podemos mudar de residência e aproveitar para mudar de vida.

Ou, ingenuamente, carregar conosco idiossincrasias, ilusões, manias, comportamentos, …

Assumindo os mesmos papeis, repetindo hábitos prejudiciais, reconstruindo o desagradável…

Ou podemos aproveitar a mudança para mudar a nós mesmos, abandonando ‘verdades’, replantando esperanças e concretizando sonhos.

COLONIALISMO DIDÁTICO

Aproveito o título da Deutsche Welle¹, a entrevista de Michael J. Sandel² para Pablo Guimón e minhas conversas com Cecília Kotzias e com Maria Elisa Ghisi para eu expor ideias sobre a função das escolas na reprodução das classes sociais. Agradeço as contribuições.

***

As pessoas podem aprender sozinhas, por incentivo e orientação da família, na parceria com outros aprendizes ou recebendo as informações científicas ministradas por professores em instituições de ensino. Podem aprender, espontaneamente, por curiosidade e podem, intencionalmente, pesquisar, experimentar e/ou tentar aprender por necessidade, para resolver um problema. Podem ser obrigadas a aprender por pressão dos familiares ou por determinação legal. Podem aprender práticas e desenvolver habilidades; podem descobrir e inventar. Podem aprender teorias proveitosas ou … inúteis.

Aprender faz parte do estar-no-mundo, do estar vivo. Todos os seres vivos aprendem. O ser humano aprende durante toda a sua vida, mesmo que inexistam governos, ideologias e instituições escolares.  O aprender é inerente à natureza humana.

Sendo natural (ou, exatamente, por ser natural), o aprender pode ser usado para influenciar pessoas e/ou exercer dominação social. Seja nas famílias, nas comunidades ou nas nações, os indivíduos dominantes (ou os que pretendem dominar) utilizam o aprender para disciplinar os submissos, para submetê-los ao seu controle. A intensidade e o volume de controle exercidos determinam o grau de liderança e o grau de autoridade.

Podemos considerar que a aprendizagem conduzida receba o nome de ENSINO (transmissão de princípios que regulam a conduta humana e a vida em sociedade; educação [Houaiss]).

Ensino familiar (pelos pais e avós), ensino tribal, ensino empresarial e ensino religioso podem ser exemplos de ensino informal, tácito, ‘privado’, restrito, facultativo. Cada clã, comunidade ou sociedade exerce o direito de promover e de aperfeiçoar sua cultura (conjunto de padrões de comportamento, crenças, conhecimentos, costumes, … que distinguem um grupo social [Houaiss]).

Por outro lado, o ensino oficial obrigatório é ferramenta governamental para ‘uniformizar’ a população, com o objetivo de controlar as índoles e de orientar a formação técnica, moral e cívica das futuras gerações. Educar, disciplinar, treinar, submeter, premiar e/ou subjugar para transformar crianças livres e alegres em cidadãos obedientes, sérios e produtivos.

O ensino informal e o ensino oficial são fundamentais para a convivência harmônica das pessoas em busca de melhores condições de vida. Nenhuma delas ocorre isoladamente; uma não exclui a outra; sempre se espera que se complementem. E, se houver sincronia entre essas duas ações educativas e se todas as crianças forem educadas em igualdade de condições, cada geração gozará de avanços técnicos e sociais.

No entanto, sempre houve, há e haverá luta pelo poder. E, quanto maior o conjunto de indivíduos sob o mesmo comando, maior a manipulação dos sistemas de ensino, seja no direcionamento estratégico, na exploração do trabalho, na coação por ameaças, na coerção de movimentos sociais ou na extorsão de contribuições e de impostos.

Ainda dentro da liberdade de analisar, podemos comparar a educação informal a uma oficina de artesanato em que o mestre-artesão permite que os discípulos opinem, inventem e modifiquem os processos e os produtos. Em oposição ao ensino ‘industrial’ que esmerilha cada criança para produzir ‘cidadãos em série’, meras peças da engrenagem política ou da lógica capitalista.

Em uma ‘escola artesanal’, a imaginação e os sentimentos das crianças podem criar obras inéditas, imprevisíveis, raras, até. Porém, esses artesões podem fugir do controle militar e/ou policial dos governantes e podem ‘contaminar’ o mercado com produtos irregulares, incomuns ou extraordinários, até.

Por outro lado, a produção em série, padronizada e com o descarte de ‘peças anormais’, facilita a ‘comercialização’ de ideias e de mercadorias. A palavra ‘padrão’ vem de ‘pedrão’, medida rígida estabelecida como modelo de medida. Na Idade Média, os padrões de peso e de comprimento eram pedras ‘oficiais’ que serviam de referência para aferir balanças e instrumentos de medição. Como se as pedras fossem imutáveis e, por isso, garantissem a regularidade das medidas.

A indústria alimentícia deve respeitar padrões em todos os aspectos, para fornecer alimentos idênticos. Com mesmo peso, mesmo gosto, mesma cor, mesmas substâncias, …   Ou seja, comida sempre igual, repetida, sabor invariável, sem surpresas.

Por outro lado, os cozinheiros amadores, inconstantes ou indisciplinados, desrespeitam as medidas, manipulam e/ou substituem os ingredientes, alteram o ‘modo de fazer’ e adulteram as receitas. Cada bolo será inédito e surpreendente. Assim como os demais assados, cozidos e crus que mastigamos e engolimos.

Paradoxalmente, queremos que nenhuma ‘iguaria’ seja ‘igual’. Por que haveríamos de querer que todos os adultos sejam semelhantes, uniformes, insossos, padronizados?

Só existe Ciência nas clausuras do ensino oficial?

Com as abelhas-sem-ferrão e na culinária, nós praticamos e desenvolvemos “conhecimento científico”. O método científico pode ser usado por qualquer pessoa; o cientista não é o dono do método. E o ‘método científico’ não é de ‘uso privativo do cientista’.  O “conhecimento científico” não é privilégio para diplomados por ‘universidades’. “A realidade está grávida de seu contrário.” A “Universidade” não é universal. Ao contrário, é elitista, privilégio de poucos. Tampouco, contém o saber universal. “Didaticamente”, seleciona as informações que melhor escondem o enigma do poder. Polinômios, por exemplo. Ou a lista de presidentes de uma república. Informações sem serventia… que, entretanto, mantêm as mentes ocupadas e alienadas.

Ah! O objetivo é a socialização das crianças. Será que o grau e a qualidade da socialização dependem diretamente do tamanho do rebanho? Digo, do tamanho das turmas e/ou da escola?

A socialização da criança ocorre no contato com os educadores e educandos.  Estejam eles ligados pela Internet ou presos em salas de aula. As crianças (os jovens, os adultos e todos os seres vivos) aprendem envoltas em uma determinada realidade. Se as escolas forem depósitos de crianças, as crianças aprenderão a ser depósitos dos códigos de quem os deposita: autoridades, pedagogos ou pais. As crianças serão depositárias da cultura depositada.

Estudar numa ‘escola grande’ não garante um grande número de amigos. Viajar no ônibus escolar e participar da baderna coletiva parece não contribuir para a convivência cooperativa e harmônica dos futuros adultos. Ao contrário, a competição, o bando, o bullying, o individualismo, a solidão, a timidez, a vergonha, as críticas, a gozação, … a necessidade de acompanhar o rebanho arrasa (torna rasas, nivela) as individualidades. As multidões nos anulam. Quanto maior a multidão, mais oprimido me sinto.

Os limitados de contatos com poucos colegas e com os orientadores podem suprir nossas necessidades de afeto, de estímulo e de segurança bem mais que as intensas e ilimitadas gritarias das manadas escolares e dos discursos das complexas equipes pedagógicas dos grandes educandários. Quanto maior o exército, mais forte seu comandante, mais insignificante a importância do soldado.

Penso que a escola sonhada pela Cecília seja espaço propício ao desenvolvimento de relações limitadas, porém, reais, verdadeiras, respeitosas, interessadas, cooperativas e suficientes para construirmos “uma sociedade mais justa”.

Desde tempos imemoriais, as elites detêm os segredos intelectuais: feiticeiros, sacerdotes, … doutores, juízes, … A casta dominante recebe a ‘senha’ e a autorização (o diploma), mediante o ‘sacrifício’ de – muitas vezes – passar aulas ouvindo o ‘professor’ ler, durante um semestre escolar, sua tese de mestrado ou de doutorado.

Onde se concentram os títulos de doutorado? Nos hospitais (quarteis das doenças)? Não. No Fórum da Comarca (quartel das arbitrariedades)? Não. Se concentram nas ‘universidades’ (quarteis das diplomações acadêmicas). Cartórios da Ciência.

O título da terra, o título do conhecimento científico; a escritura pública, o diploma. Títulos oficiais, não testes de proficiência. Quem tem amplo conhecimento de mecânica… se prestar exames de proficiência, será aprovado… sem ganhar título de Engenheiro… que gera status e dinheiro. Muitos são eficientes nas funções que exercem. Entre dois coordenadores de equipe com equivalente desempenho, o que tiver título de capacidade será melhor remunerado.

Só podem filosofar os que frequentaram o Curso de Filosofia e receberam o diploma? Um biólogo, como Mia Couto, ou quem aprendeu escrever por conta própria podem escrever livros? Se eu tivesse o Curso de Letras com diploma conseguiria escrever esse texto? Os alunos aprendem melhor com quem tem Curso de Doutorado?

Terreno de posse vale menos. Terreno com escritura pública registrada vale muito mais. A utilidade do espaço permanece a mesma… Conhecimento científico COM DIPLOMA, título de sabedoria, rende mais… Todo conhecimento é muito útil.

As hortas comunitárias podem ser exemplos de campos experimentais com sucesso… por usarem conhecimento científico… não titulado… Quem certifica a Ciência do horticultor? Do caminhoneiro, do cozinheiro, do mecânico, do cabeleireiro, … A trupe do Circo Torricceli é genial e … não certificada… Não receberam diplomas.

Somos colônia norte-americana e podemos ser agentes, instrumentos de colonização.  Temos que decidir entre seguir Donald Trump ou ouvir José Pacheco. Perigoso estar com um pé em cada continente. Mais que isso: com um pé em cada conteúdo ou com um neurônio em cada ideologia. E sobre o abismo social. Trump recolonizando e Pacheco tentando descolonizar.

As leituras de Marguerite Duras e de Mia Couto, além de surpresas literárias, revelam as tragédias do colonialismo francês na Cochinchina (Vietnã) e do colonialismo português em Moçambique. Leio as verdades históricas e não os estilos contundentes. Os dois “escrevem poesia”; eu leio o sofrimento humano causado pelo poder humano: as elites cultas explorando os escravos da ‘ignorância’… do ponto de vista dos colonizadores. Os vencedores que pouparam a vida dos derrotados se tornaram – moralmente – donos da vida deles.

Enfim, sonho que a pandemia do Covid-19 condene a escola tradicional ao passado e que consigamos evitar a reprodução comportamental da sociedade de consumo através da “linha de produção” dita “científica”, da formatação em série de pessoas ‘produtivas’, competitivas e vencedoras. A escola aceita e defendida pelos políticos são verdadeiras ‘fábricas de papel’, que fabricam e acumulam livros didáticos, monografias, teorias e diplomas (documento oficial que concede um direito, um cargo, um privilégio [Houaiss]), verdadeiras cargas mortas que carregamos para obter sucesso. Espero que a pandemia do Covid-19 acabe com esse modelo industrial. QUE AS CRIANÇAS SE EDUQUEM SEM SEREM EDUCADAS.

Enfim, sou um louco com uma lanterna e com uma lupa… Um antropólogo de mim mesmo… procurando uma sociedade igualitária, sem sacerdotes e sem analfabetos.

1 – Deutsche Welle, em 11 out 2020

https://www.terra.com.br/noticias/colonialismo-nos-livros-didaticos-a-historia-dos-vencedores,22050d5b0002c3b6995db2401949cff4vv7r8jvl.html

2 – Jornalista Pablo Guimón, do jornal El País, entrevista Michael J. Sandel

Brasil.elpais.com, em 12 de setembro de 2020

<p style="line-height:0.4" value="<amp-fit-text layout="fixed-height" min-font-size="6" max-font-size="14" height="80">Brasil.elpais.com, em 12 de setembro de 2020Brasil.elpais.com, em 12 de setembro de 2020

ADMIRAÇÃO

Eu admiro o voo dos pássaros. Posso passar horas, no templo da floresta, con-templando os pássaros em suas ousadias e em suas habilidades voláteis, que representam a real liberdade. Admiro, apenas… não quero estar com eles no ar, não pretendo imitar.

Admiro os heróis; fujo de heroísmos. Prefiro ser normal, passageiro, substituível e livre de idolatrias. Jamais eterno. Meu corpo e minha mente são finitos. Talvez, minhas ideias se propaguem e sobrevivam ao meu sopro vital…

Admiro o circo que está (des)armado aqui em frente. Admiro apenas. Por enquanto, sou plateia e auditoria. Logo, o circo seguirá seu espetáculo e eu permanecerei silvestre, parte da Natureza, convivendo com os bichos, plantando sementes.

Admiro a Primavera. Todavia, o encanto dela está – exatamente – na impermanência, na fugidade das estações e dos ciclos cósmicos. Se, o tempo todo, fosse primavera, já estaríamos cansados do eterno florir. A beleza das flores começa na esperança, no saber esperar, que inclui semear, plantar, regar, cuidar e imaginar. E as esperanças vegetam durante os invernos.

Procuro saber o que admiro; prefiro ter consciência do que vivo, do que quero continuar vendo de longe, do que quero viver integralmente no dia-a-dia. A beleza e a funcionalidade da vida estão na diversidade, na compreensão dos ciclos… semelhantes, porém, sempre modificados, diferentes em detalhes que fogem ao nosso entendimento. Depois de séculos, identificamos mudanças significativas.

Se chovesse o tempo todo ou se nunca chovesse, as plantas seriam extintas. A monotonia mata. A monocultura se autodestrói. Inclusive, a monocultura literária.

Viver para sempre seria a ‘morte de novas vidas’. A soberba humana pode pretender ser eterna; há quem acredite que sua estupidez seja insubstituível.

O inverno e o morrer são tão importantes quanto a primavera e o nascimento. A ressurreição, então, seria a arrogância de renascer em detrimento de outras vidas, de se intrometer nas gerações futuras. O Planeta Terra já está superlotado de homo-deuses; para sobreviver, precisa que ocorram muitas mortes definitivas, para dar espaço a novas existências. Quero viver plenamente o meu agora com o máximo senso de realidade: essa consciência de que sou único, limitado e efêmero.

VÍTIMA DA HOSPITALIDADE

Quando menino, minha mãe me mandou levar alguma coisa para a casa de uma família de descendentes de alemães. Como minha mãe ganhava dinheiro costurando, deve ter sido para entregar algum vestido, camisa ou calça encomendada. Fui um pouco antes do meio-dia.

Eu conhecia ‘de longe’ a família de tons meio dourados, na pele e nos cabelos. As sardas – ilhas de pigmento mais adensado que, agora, o dicionário me conta que são ‘efélides’ ou lentigos’ – cobriam parte dos rostos, com maior concentração nas áreas mais expostas à luz solar, e cabelos entre louros e ruivos cobriam as cabeças. Os sotaques pronunciadamente germânicos completavam as nossas disparidades.

Ah! E eles costumavam almoçar cedo. E estavam almoçando. E minha timidez não encontrou palavras para me livrar do convite quase autoritário.

Mais uma diferença cultural. Os meninos De Negri se serviam do que escolhessem à mesa e nas quantidades desejadas; a mamãe loura serviu o prato de cada menino. Inclusive, o meu.

A bondosa mulher colocou diante de mim um pouco de arroz e diversas bolas de sangue brilhante, que ia tingindo o prato, o garfo e o arroz. Me senti encurralado. Meus pais nos disciplinaram a sermos muito corteses, afáveis, até. Entretanto, aquele sangue vermelho vivo trancava de náuseas a minha garganta.

Depois de um longo exercício mental – que eles tomaram como tempo em que eu rezava em silêncio… – garfei a primeira bola rubra, me concentrei, fechei os olhos e enchi a boca… com um gosto desconhecido, mais desconhecido ainda que o sabor que eu imaginava ser o de sangue cru. Ainda bem que era macia e meio adocicada… Mastiguei com os olhos fixos num retrato de família pendurado na parede em minha frente.

Não doeu. Mais uma, mais uma, mais uma, … Ufa!!! Sobrou o arroz com as beiradas ‘ensanguentadas’. Porém, nem deu tempo de avançar nos grãos; a mulher, contente ‘por eu ter gostado tanto das beterrabas’, depositou no meu prato mais uma farta remessa…

O GOSTO DO MAR

Antônio nasceu na serra, numa casa construída pela família, com a ajuda de outras pessoas dali. Logo que cresceu um pouco, ele também passou a ajudar as pessoas construírem suas casas. Fazia isso com prazer, porque seu corpo e seu espírito gostavam de atividade e de coisas novas, de coisas por aprender.

Da primeira vez, viu a casa como um todo e a construção como um trabalho só. Depois, percebeu que a casa está dividida em partes, que são construídas numa determinada sequência, durante determinado tempo. Assim, começou a pensar nas dimensões, na qualidade e no custo.

Antônio aprendia tudo sem esforço, porque entendia a razão de se construírem casas, porque sabia da necessidade de portas e de janelas e porque estava consciente da importância do alicerce. Mas, não aprendia apenas o que via.

Maria, moradora do lugar, teve oportunidade de viajar para o litoral e conheceu o mar. De volta, contou: O MAR É SALGADO. E todos, crianças e adultos, puseram-se a pensar: Porque o mar é salgado? Quem teria jogado sal no mar? Quanto sal foi necessário? Há quanto tempo isso ocorreu?

Ao ver Maria, todos se lembravam do mar e dessas questões todas. Ela se tornou um SÍMBOLO de O MAR É SALGADO. Não foi preciso decorar, aprenderam isso naturalmente. Mas, havia muita curiosidade e nasceram muitas dúvidas. Planejavam ir até a praia, procurar respostas para suas perguntas. Passaram ainda a provar as coisas para ver se havia mais coisas SALGADAS ou, até mesmo, com outros sabores.

Porém, passou-se muito tempo – gerações inteiras – e o conjunto de casas tornou-se uma cidade grande, onde as pessoas não se conheciam e as casas eram construídas por empresas e não mais por pessoas. As crianças não mais ajudavam construir casas e, delas, não mais sabiam distinguir as partes, o início e o tempo de construção. Também, não pensavam mais por que eram construídas, de onde veio o material e quem o produziu.

Na escola, ensinavam outra lição invariável: O MAR É SALGADO. E, nas provas, perguntavam sempre: “Que gosto tem o mar?” e “Quem é salgado?” E, como ninguém conheceu Maria, a escola também ensinava que foi ela quem descobriu, em determinada data, que O MAR É SALGADO. Por isso, essas informações também faziam parte do estudo; parte da História do Lugar, que era preciso decorar e saber de cor.

As demais perguntas estavam proibidas e seria um sacrilégio alguém tentar separar o sal da água. Os conhecimentos do Livro Didático eram considerados suficientes. Para se estudar mais, bastava repetir várias vezes a mesma lição.

Foi então que, cansadas de decorebas, as crianças perderam o gosto pela escola e, não tendo interesse no sabor de um mar que não conheciam, não conseguiam aprovação, repetindo, além das lições, o ano letivo. A maioria desistia da escola, porque ela não tinha vida, tratando apenas de coisas sem uso no dia-a-dia.

Nessa escola, as crianças só aprendiam a verdade dos outros; ficavam alienadas.

Esse texto nasceu após a leitura da “SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO”, de SONIA M. P. KRUPPA. FPOLIS25SET95