Eu tenho opinião diferente das opiniões do Richard Dawkins e do Gilvas.
https://mail.google.com/mail/u/0/h/1k1ikw0z3w40a/?&th=16787f1e759d0133&v=c
Deus existe. Sempre um deus coletivo; nunca ouvi falar em deuses individuais; um deus para si mesmo.
Existem muitos ‘de eus’; milhares ‘de eus’. Cada vez que algumas dezenas de pessoas se congregam e se concretam numa ‘verdade’, cada vez que algumas dezenas de eus se sentem irresistivelmente atraídos por uma ideia, esse pensamento se torna ‘ideia fixa’ sobre espiritualidade, etnia, identidade de gênero, medo da morte, martírio, futebol, política, penitência, finanças, economia, estrelas, animais, nacionalismo ou liberdade utópica.
A comunidade adepta constrói um coletivo ‘de eus’ que passa a comandar as subjetividades; pessoas que acreditam em horóscopos, superstições, magias, bruxarias, simpatias, benzeduras, mau-olhado, sucesso, destino, riqueza e compensação celestial.
Para que uma ideia fixa ou uma crença se torne religião, basta que sejam eleitos guardiões. “Muitos são os chamados; poucos, os escolhidos.” O guardião tem a missão de guardar a verdade que foi divinizada, de proteger os crentes que, ao acreditarem cegamente, perdem o senso de realidade, de fiscalizar o cumprimento integral das obrigações dos fieis seguidores e de administrar os tabernáculos que guardam almas e segredos. Daí a existência de confessionários...
Tudo o que for sagrado deve estar protegido em sacrários. Surgem os templos para abrigar as ‘riquezas espirituais’ e um guardião dos guardiões para organizar a estrutura da igreja; uma hierarquia de guardiões.
Assim, nascem as religiões: na contínua e cada vez mais intensa convicção da verdade tornada absoluta para pessoas que se prendem indissoluvelmente a um agregado ‘de eus’; pessoas que, guiadas por um salvador, se ligam, se religam e se sustentam em procissão rumo ao paraíso e/ou ao lucro prometidos.
Pode ser que seja apenas um processo natural, como os processos físico-químicos fundamentais. Quando alguns (ou muitos) elétrons são atraídos irresistivelmente por um núcleo formado por prótons e nêutrons, passam a formar um átomo; quando um ou vários átomos se unem permanentemente uns aos outros, formam moléculas; o aglomerado de moléculas forma matérias, corpos, ligas, artefatos, ... reconhecidos internacionalmente.
Nas Ciências Sociais, as ideias se estruturam em conceitos, teses, sínteses, definições, teorias, doutrinas, ... Os cientistas são guardiões das verdades científicas; nesse sentido, os cientistas são os sacerdotes da Ciência.
“É mais fácil desintegrar um átomo que remover um hábito.” Albert Einstein
E que diluir uma crença.
Porém, as instituições – como o dinheiro, por exemplo – só existem enquanto acreditamos nelas.
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ANOTAÇÕES GRAMATICAIS
ANOTAÇÕES GRAMATICAIS PARA USO PESSOAL
do Mario Tessari
Os especialistas em gramática assumem o papel de policiais e avocam para si o direito de disciplinarem as escritas dos usuários da Língua Portuguesa. Para sorte dos falantes, falta tempo para que eles policiem também a prosódia, a ortoépia e a ortofonia.
Os gramáticos, na sua maioria, categorizam todos os sinais impressos como ‘ortográficos’. Sabemos que a Ortografia disciplina a grafia correta das palavras, conforme um conjunto de regras estabelecidas pela gramática normativa; o hífen une elementos de palavras compostas e os sinais diacríticos (cedilha e acentos) e os pontos colocados sobre as letras ‘i’ e ‘j’ são sinais gráficos usados para indicar valores fonéticos específicos para determinadas letras.
No entanto, os sinais ‘de pontuação’ (vírgula, ponto, dois-pontos, ponto-e-vírgula, reticências, parênteses, travessão e aspas), criados para facilitar a leitura e o entendimento das ideias, são ferramentas da Análise Sintática, estudo das funções das palavras e das orações em uma frase.
A Ortografia estabelece regras ‘oficiais’ de como as palavras devem ser escritas, diferenciando ‘escritas populares’ de ‘escritas eruditas’. E não, regras de sintaxe ou o estilo literário correto.
Os professores de gramática são formados pelas academias científicas com a responsabilidade de professar a ‘pureza gramatical’ e as academias literárias escolhem seus membros dentre os que obedecem a padrões científicos, como a ortografia e o formato dos textos (prosa, poema, conto, novela, romance).
A ciência linguística analisa a funcionalidade da linguagem falada e/ou escrita, a evolução e a diversificação dos sistemas de representação do pensamento humano.
A PONTUAÇÃO NA PRÁTICA LITERÁRIA
Posso usar dois-pontos (:), ponto-e-vírgula (;) ou ponto e vírgula (. e ,). Mais provavelmente, usarei vírgula e ponto (, e .), nessa sequência. Nas frases, uso vírgula para separar ideias que complementam a oração principal, ponto-e-vírgula para incluir ideias divergentes ou paralelas, ponto para indicar que completei o enunciado e ponto-final para encerrar o assunto.
Ao afirmar que o ponto-e-vírgula (;) é “sinal de pontuação que indica pausa mais forte que a da vírgula e menos que a do ponto”, o dicionarista obrigaria o gago a colocar ponto-e-vírgula a cada ‘pausa gaguejada’, além de uma procissão de vírgulas, para as pausas ‘menos fortes’. O especialista deixa outra complicação: mensurar as pausas “mais forte que a da vírgula e menos que a do ponto”. Imagino que as pausas possam ser breves ou longas. Como seriam as pausas fracas ou fortes?
Mais preocupantes ainda são as afirmações que a vírgula é uma “ligeira pausa para respirar”. Provavelmente, esse autor seja um biólogo preocupado com nossa fisiologia respiratória.
RETICÊNCIAS
As reticências, além das funções técnico-linguísticas, podem ser usadas como recurso estilístico. Vai depender se as reticências são dúvidas da palavra… ou indecisões das ideias …
No caso, estou indicando indeterminação, hesitação, dissimulação, dúvida da palavra… ou a omissão de algo que deixo de escrever para que o leitor continue … a frase por conta dele. Também uso reticências para indicar uma ‘pausa emocional’ (aposiopese) ou uma insinuação.
Em Suçurê, aparecem reticências em:
“— Vejo que a aliança ainda está no dedo… Logo … para o povo daqui, a situação continua na mesma: só mistério.”
“— Mesmo assim, o Icobé vai ficar sozinho e não sabe lidar com o gado; a gente vai deixar tudo organizado, pra ele apenas atender alguma eventualidade. Por falar nisso, seria bom se você, Icobé, pudesse dar seu passeio de reconhecimento agora pela manhã porque cismo de saber que você saia por aí sozinho… Pode lhe acontecer algo e … – opinou Genuíno.
— Boa ideia! Vou encilhar o Zaino e dar uma volta pela invernada. Mas não demoro… – concordou Icobé.”
“— Tem que ver… – ponderou o capataz. Eu devo me afastar por uns dias… O João não pode ficar solito por muito tempo…
— Si desse … fais tempo qui num falo c´a mana Maria Rosa… – choramingou o Silvino.”
“— Não sou eu que procuro antes de ser chamado. São eles que me perturbam com vozes estranhas…
— Estranhas, porém bem audíveis, claras, pois indicam quem é e o local exato em que estão …”
O USO DA VÍRGULA ANTES DO PRONOME RELATIVO ‘QUE’
- Os senadores que foram eleitos no último dia 15 tomarão posse no dia …
- É difícil encontrar os gatos que fogem de casa durante a noite.
- O povo cobra dos senadores, que foram eleitos democraticamente, a responsabilidade…
- Os gatos, que são venerados desde o tempo dos faraós, preferem viver livres, sem coleiras.
Nas duas primeiras frases, o pronome ‘que’ indica a delimitação dos sujeitos, através de oração subordinada restritiva, com função de adjunto adnominal da palavra antecedente, indispensável para expressar o sentido pretendido. Sem vírgula.
1a. Apenas os senadores que foram eleitos no último dia 15 tomarão posse no dia …
2a. É difícil encontrar apenas os gatos que fogem de casa durante a noite.
Nas duas últimas, o pronome relativo ‘que’ é usado para iniciar uma explicação (oração subordinada adjetiva explicativa); oração opcional que acrescenta uma informação complementar, que pode ser retirada sem prejuízo de entendimento; escrita ‘entre vírgulas’.
3a O povo cobra dos senadores[, os quais foram eleitos democraticamente,] a responsabilidade…
3b O povo cobra dos senadores a responsabilidade…
4a Os gatos[, os quais são venerados desde o tempo dos faraós,] preferem viver livres, sem coleiras.
4b – Os gatos preferem viver livres, sem coleiras.
USO DE LETRAS MAIÚSCULAS
Escrevo siglas em letras maiúsculas. Uso letra maiúsculas para iniciar nomes próprios, tecnicamente, substantivos próprios. Uma palavra composta é uma palavra composta e não duas palavras ‘amarradas’. Se uma palavra composta exercer a função de substantivo próprio, deverá ser grafada com letra inicial maiúscula: Serra-abaixo, Serra-acima, Baia-norte, Baia-sul, …
EXEMPLOS DE USO DE HÍFEN
Abelha-sem-ferrão é palavra composta (substantivo) que nomeia abelhas com uma característica específica: uma espécie de abelha. E abelha sem ferrão é locução substantiva usada no caso do animal ter perdido a ‘arma’.
Se for nome da espécie, deve ser escrito ‘uruçu-amarela’. Se determinada espécie de uruçu tiver indivíduos uns pretos e outros amarelos, haverá abelhas uruçu pretas e abelhas uruçu amarelas. Mirim-guaçu preta e mirim-guaçu amarela; manduri preta e manduri amarela; porque as espécies são denominadas mirim-guaçu e manduri, respectivamente.
É questionável que os meliponíneos não possuam ferrões; mas, com certeza, não ferroam. Logo, a locução deveria ser: abelha que não ferroa. Abelha-sem-ferrão ou abelha-da-terra = espécie de abelhas dos gêneros melípona, trigona, … Uma abelha do gênero Apis que deixou o ferrão em alguém será uma abelha sem ferrão. Se os chifres de um boi forem decepados, teremos um boi sem chifres. Os que já nascem mochos serão bois-sem-chifres.
Batata-doce é uma espécie vegetal; batata doce pode ser uma batata adoçada. Boca-de-leão: uma flor; boca de leão: a abertura inicial do tubo digestivo do ‘rei dos animais’. Copo-de-leite nomeia uma flor e ‘copo de leite’ é uma porção de leite que pode estar num copo ou em outra vasilha; a expressão se refere à quantidade do alimento. Ponto-e-vírgula nomeia um sinal de pontuação; ponto e vírgula são dois sinais de pontuação.
Mesmo depois da última Reforma Ortográfica, as palavras compostas que designam espécies animais ou vegetais continuarão sendo grafadas com hífen: bem-te-vi, copo-de-leite, boca-de-renda, porco-bravo, porco-do-mato, aroeira-folha-de-salso, uruçu-boi, formiga-açucareira, formiga-cabeça-de-vidro, …
SEO OU SEU
A palavra ‘seu’ é pronome possessivo.
Eu uso ‘seo’ para traduzir a pronúncia caipira de ‘senhor’. A fala coloquial abrevia as palavras, ‘comendo letras’, economizando tempo e voz, através de síncopes, pronunciando apenas as ‘essências’ da palavra. Maior / mor, senhor / seo, está / tá, estive / tive, … Logo, ‘seo’ é pronome de tratamento. Da mesma forma, uso Sinhá ou Siá, para designar senhora.
ETCÉTERA
Et cetera, do Latim = e outras coisas, e assim por diante, …
A abreviatura (etc.) já vem precedida do conetivo ‘e’ (et). Logo, não uso vírgula antes de ‘etc.’ Aliás, uso reticências ao invés de usar etcétera. Deixo o ‘et cetera’ para os romanos. Sou de época mais recente.
aprender praticar saber
Você sabe ler?
Sei, sim senhor.
Sei.
Mais ou menos.
Não sei, não.
Pergunta banalizada na boca
de quem julga saber;
de quem julga o saber.
Pergunta impensada;
resposta protocolar
cumprindo formalidade.
A maioria que aprendeu a ler
pratica apenas leituras rasas
de placas, de preços e de moedas.
A maioria lê o de sobrevivência
e o de interesse, o de lucro.
Mas, poucos praticam
analisar ideias escritas.
Leituras ativam memórias,
geram sentimentos,
traduzem o que foi escrito,
aceitam, acrescentam ou restringem,
mudam a cor dos significados.
Inventar ideias a partir de
ideias gravadas no papel…
Quem é que pratica?
Desafios físicos e aventuras
são jogos nas idades de vigor.
Quais as dinâmicas na velhice?
Quando o corpo pouco age e reage?
Feliz quem sabe aprender na velhice
a praticar jogos mentais e se encanta
com segredos que as letras revelam.
Mais feliz ainda quem exerce o desafio
de esconder ideias nas dobras das palavras.
Quem sabe proclamar, na velhice,
a sabedoria construída aos poucos?
Quem consegue manter a mente jovem?
DESEDUCAÇÃO
Lendo essas notícias,
fico ainda mais preocupado.
Colocar (ainda) mais professores em sala de aula é como colocar um segundo locutor na rádio, um segundo volante nos automóveis ou mais vendedores em lojas falidas.
Pouco resolve dar um carro para quem não sabe para onde ir e dar escola multimídia para aluno que não vê função na leitura/escrita/matematização.
Os filhos de pessoas que usam intensamente essas tecnologias ‘educacionais’ aprendem ler, escrever e calcular bem antes da ‘idade escolar’. Quando os pais e a família não alcançam os benefícios do letramento, de nada adiantará estender os períodos letivos ou entulhar a escola de ‘profissionais’. Essa é uma estratégia capitalista que amplia o mercado, ‘valoriza a profissão’ e atravanca a aprendizagem.
Precisamos mudar a Sociedade, os governos e o povo. Principalmente, o povo. E não fazer mais do que a realidade mostra ser um equívoco.
Fica muito difícil convencer alguém a andar a cavalo numa época em que sobram motocicletas e automóveis. As possibilidades e as formas de aprender mudaram; a ‘escola’ continua a mesma do tempo do lampião a gás. Ninguém aprende por decreto. Sobram ameaças e projetos mirabolantes.
Ampliar a hospitalização e a educação gera mais problemas para a saúde e para a aprendizagem. É preciso analisar quem lucra com a doença e com a ignorância.
Vamos mudar o Brasil?
ALEGRIAS HUMANAS
ALEGRIAS HUMANAS
Vida dura,
pagar as contas,
criar os filhos,
dois empregos,
voltar pra casa,
lavar a roupa,
cozinhar marmita,
dormir exaustos.
Melhores salários,
casa nova,
menos trabalho,
tempo pra TV,
descontração,
‘esquecer da Vida’,
alienação.
Acordar:
ligar a TV,
chegar pro almoço:
ligar a TV,
voltar do trabalho:
ligar a TV,
…
desligar da Vida.
Que tragédia!!!
TV quebrada,
sem diversão,
sem novela,
sem religião,
sem notícias…
Contar pro vizinho
desgraça da família:
TV não liga,
aparelho de plasma,
um dinheirão…
que não funciona.
Vizinho ocupado,
vendo na TV:
futebol manipulado,
corrupção política,
estupro eclesiástico,
propaganda enganosa.
Entrar no carro,
sair à toa,
ver paisagens,
(re)conhecer o mundo,
admirar a árvore,
assustar passarinho,
saudar pessoas…
Choque de realidade:
gente falante,
notícias humanas,
crianças correndo,
…
alegrias humanas.
Alegria humanas???
SABEDORIA ESCONDIDA
Até a década de 1960, a Educação no Brasil era privilégio dos filhos da elite social e de uns raros pobres determinados a estudar, que conseguiam superar as enormes dificuldades pessoais e romper as barreiras socialmente impostas.
Porém, a partir da Revolução Militar de 64, o governo brasileiro assinou um convênio com os Estados Unidos, que previa ações estruturantes, dentre elas, a expansão do acesso à escola para todas as crianças e algumas oportunidades de formação técnica-profissional.
Para normatizar a implantação dessas mudanças educacionais, foi promulgada a LDB/1971 que extinguiu os cursos primário, ginasial e científico. Até então, a maioria deles estava sob a tutela de instituições particulares; na quase totalidade, oferecidos em escolas mantidas por congregações religiosas.
O governo revolucionário pretendia dominar a formação dos ‘novos brasileiros’, como pessoas e como cidadãos. Por isso, uma das primeiras medidas foi afastar as instituições e os métodos tradicionais; os novos cursos passavam a ser administrados pelos governos estaduais e, décadas depois, por parcerias entre os governos municipais, estaduais e federal.
De um modo geral, todas as orientações foram implantadas e persistiram, com alguns ajustes. No entanto, uma das opções pedagógicas teve duração efêmera, porque se mostrou equivocada e preconceituosa: formar turmas segundo o desempenho escolar e, para os iniciantes, segundo o desempenho escolar dos parentes mais velhos (irmãos, pais ou tios).
Na época, as proles eram abundantes e havia muitos jovens em idade escolar. Por isso, mesmo em pequenos povoados, foram formadas muitas turmas para cada série escolar. E, pelo critério elitista adotado, nas turmas ‘A’, estudavam os melhores alunos da região e/ou os ‘filhos das melhores famílias’, mesmo os que fossem pouco estudiosos. Na sequência decrescente de ‘capacidade intelectual’ e em ordem alfabética crescente, seguiam as demais turmas.
Em uma das escolas em que Maria Alfabetizadora trabalhou, as sextas séries do Ensino Fundamental alcançavam a letra ‘H’; a ‘6ª série H’ era a última e mais ‘fraquinha’, com apenas vinte alunos ‘repetentes’ ou candidatos à repetência. Dentre eles, o José Ignoto, que era considerado, pela equipe docente, ‘o mais fraco de todos’; por isso, recebeu o rótulo de incapaz de aprender e os professores estavam dispensados de tentar ensiná-lo, pois seria apenas desperdício de tempo e de dinheiro.
Porém, aconteceu de a avó do José Ignoto morrer de velhice.
Nas aldeias, os velórios eram eventos obrigatórios para toda a comunidade; o luto era coletivo. Por isso, naquele bairro operário, os colegas de turma do enlutado sempre visitavam o velório, como gesto de solidariedade e de espírito cristão.
Para cumprir a obrigação, a diretora da escola solicitou que Maria Alfabetizadora acompanhasse os alunos da ‘6ª série H’ e que representasse a escola na cerimônia, conduzindo, inclusive, as orações fúnebres. Afinal, a escola era autoridade cultural.
As crianças estavam acostumadas a caminhar até a cidade distante cinco quilômetros, para acompanhar os pais ou para, em excursão escolar, participar dos jogos estudantis, como atletas e/ou torcedores. Por isso, poderiam caminhar três quilômetros, sem maiores problemas. E, depois do compromisso, todos poderiam ir para suas casas, algumas delas até próximas do local.
Assim, a pequena procissão iniciou a caminhada em alegre algazarra: como se fossem fazer um piquenique. Isso até deixar a estrada principal e começar a subir a ladeira estreita. A partir daí, todos deveriam caminhar em silêncio respeitoso. Essa atitude favorecia a audição da cantilena fúnebre: uma voz juvenil conduzia as orações e parecia ser a voz do José Ignoto.
De fato: chegando cada vez mais perto, ia aumentando a certeza de que a autoridade eclesiástica, naquela cerimônia, era o ‘mais fraco dos alunos da turma’. E com que firmeza e com que convicção conduzia o culto!!! Maria Alfabetizadora tomou um choque de realidade. E as crianças também demonstraram surpresa, admiração e respeito.
Tendo participado de um bloco de orações e depois de passar ao lado do caixão persignando-se, a pequena procissão voltou para a estrada e para uma nova realidade: lá na casa dele, o José Ignoto era o mais letrado, lia com desenvoltura e conduzia o culto como um líder legitimado pela família.
Naquele final de tarde primaveril, os mitos e os preconceitos foram rompidos e a realidade mais cristalina inundou as mentes: o José Ignoto desempenhava na escola o papel de ‘pior aluno’, porém, em casa, livre das fôrmas e dos rótulos, era uma pessoa letrada, merecedora da admiração e da esperança da Família Ignoto.
Tessari, Mario. Maria Alfabetizadora. Jaguaruna, Edição do autor, 2014. (pg 42)