DEUS SALVE O REI

dEUS salve o rEI

Minha postura é indigna? Seria uma questão política? Salvar a Nação?

Não. Não contem comigo para salvar a Pátria, o Rei, os ministros, os cortesões, os sábios, as concubinas, os sacerdotes, os conselheiros, os pajés, …

Estarei na plateia, rindo dos ridículos governantes.

Peço que me contestem nas divergências… mas… não vale a pena nos indispor por questões políticas.

Vivi sob a égide de uns quinze presidentes, outros tantos governadores e mais prefeitos (não, perfeitos). Pouco tempo perdi “salvando o mundo”. E foi tempo perdido.

Governos são como o clima, as estações, as eras, … Reclamo deles, ironizo seus feitos e efeitos, porém, me adapto às ETERNAS MUDANÇAS… que sempre se repetem.

E eu… procuro não me repetir; vivo ao alcance da minha aura… uma única vida.

VIVER BEM OU BEM VIVER?

Podemos analisar o significado de ‘viver’ por vários pontos de vista, tendências, ideologias ou filosofias.

Há quem considere que ganhar bastante dinheiro seja ‘viver bem’. Podemos questionar quanto dinheiro será suficiente para viver e para viver bem. Os pássaros não ganham (muito menos, acumulam) dinheiro. Os pássaros vivem mal? As pessoas ambiciosas vivem melhor? Os multibilionários vivem felicidade máxima?

A vida de cada um seria a soma de experiências individuais? Quem nasce, cresce e envelhece sem sair da aldeia tem uma única experiência, vive uma única vida? Quem busca e explora muitos habitats vive muitas vidas?

Uma pessoa que, numa empresa, repete uma rotina invariável durante trinta e cinco anos tem trinta e cinco anos de experiência ou tem a experiência de repetir durante trinta e cinco anos o mesmo dia de trabalho?

Quem aprendeu quando criança um ofício e nele trabalha sem evolução (uma rotina de jornadas exatamente iguais) terá uma vida monótona, improdutiva? Aprender e migrar para outras profissões oportuniza variadas experiências, como se vivesse muitas vidas?

Entre viver bem e bem viver há diferenças sutis. Prefiro bem viver ou viver o bem. Melhor ainda se o bem e o bom coexistirem: se praticarmos o bem será bom para todos. Ou eu seria ingênuo, complacente?

CONVIVÊNCIA AMOROSA

Perguntei para a irmã de minha mãe como eles estavam (Iolanda e Alcides, na fase dos 90 anos) e ela respondeu com uma frase que descreve uma vida a dois em total parceria: “Estamos abotoando a roupa um do outro.”

No que acreditamos?

A tendência é acreditarmos com maior convicção, com mais fé, nas verdades que descobrimos por nós mesmos; são as mais simples e as mais úteis para cuidarmos do nosso corpo e da nossa mente, para preparar e para aprimorar nosso espaço vital, nossa moradia e nossas relações afetivas.

A seleção do que sabemos e do que queremos para nós mesmos ajuda a construir nossa filosofia de vida, nossa tranquilidade, nosso bem-estar.

IMEDIATISMO

Insatisfeitos com a rapidez com que passam pela vida, os humanos inventam máquinas cada vez mais velozes para chegarem logo ao infinito. Essas ânsias desgastam, corroem e abreviam vivências.

As plantas, sem pés e sem pernas, se agarram no solo pelas raízes. Sem pressa, constroem florestas, dominam a natureza e contribuem para saúde de todos os seres vivos.

Os melhores caminhos são os que construímos por e para nós mesmos e não os caminhos que encontramos prontos ou aqueles que nos oferecem ‘de graça’. Nada é gratuito. A gratuidade é uma ilusão que compramos por alto preço.

SABEDORIA DA HUMILDADE

Conheço parcialmente, estudo, (re)conheço, valorizo, alimento e cuido de meu corpo. Confio nele (Fé na Vida) e procuro interagir de forma o mais consciente possível, analisando e mantendo meu viver dentro de limites cada vez mais estreitos; sem frustrações, mágoas ou tristezas.

As plantas e os animais guardam em seus corpos a sabedoria acumulada em dezenas de milhares de anos. A minha principal aprendizagem possível sempre será sobre o funcionamento dos seres vivos, como sobrevivem em meio aos comportamentos absurdos dos Sapiens Sapiens.

Cada ser vivo, do microscópico ao colossal, desenvolveu capacidades para bem aproveitar as condições naturais e para evitar os desequilíbrios da soberba, da arrogância e da estupidez de grande parte dos nossos conviventes na Planeta Terra.

DOS RITMOS VITAIS

Para quem vive no sítio, a vida é mais estável. E as necessidades são muito menores, menos exigentes. As árvores demoram anos, décadas e, algumas, séculos para crescer. A vida flui num ritmo amigo, que dá tempo de ver, de apreciar.

A vida urbana exige pressa, quase urgência. Tudo é obrigação agendada, com horário marcado, com segundos cronometrados, dramaticamente transitórios. Carros passam empurrados pela pressão do violento ritmo urbano, atropelando pedestres, outros veículos, muros, postes, … As pessoas passam umas pelas outras e passam pela vida sem tempo para apreciar a vida … correm engolindo migalhas aqui e ali.

Essa comparação entre o rural e o urbano aparece no valor que é dado aos seres vivos e aos objetos. Na roça, os animais são companhia para os humanos do nascimento até a morte, as ferramentas são usadas até gastarem, as residências caem de velhas; pouco reformadas, raramente demolidas. Tudo é permanente … até demais.

Na cidade, ao contrário, tudo é descartável: amores, cães, gatos, papagaios, carros, residências, escritórios, fábricas, estradas, … vidas… O progresso pede passagem e atropela ‘o antigo’; árvores dão lugar a estradas, a casas, a edifícios, a fábricas, a shoppings, … E os animais ‘de estimação’ são jogados na rua em cima dos nossos sentimentos humanos.

Tudo pode ser comprado, usado a exaustão e, logo que não dê lucros (mesmo que estéticos), é jogado fora. Há lixão ecológico, aterro sanitário (enterro da saúde) e a tecla delete. Assim, nos livramos do que usamos … enquanto rendia companhia, conforto, prazeres, …

Para que vamos guardar nossos valores … se ali na esquina tem uma fila de outros que podem ser comprados, degustados, desgastados, consumidos e … expurgados?

Por favor, após ler, delete minha ideia, há outra esperando na fila.

Publicado na Folha Regional de Jaguaruna, em 2008.

LISE OLIVEIRA

Leio bastante (pelos meus critérios e por meus interesses) autores de qualquer época e convivo com escritores há quase sessenta anos, dos quais recebi positivas influências. Talvez, minha opinião sobre textos e sobre escritores tenha algum valor…

A partir de 2020, tenho o privilégio de avizinhar com Lise Oliveira e de ler o que ela escreve. A elevada sensibilidade e a fluência com que registra as percepções da vida que flui dentro de si e ao derredor são qualidades literárias raras, raríssimas posso dizer. Numa nação em que poucas pessoas desenvolveram espaços mentais para receber e entender ideias, encontrei uma preciosidade intelectual, uma pessoa extremamente sensível, com uma mente aguda, ativa e racional.

Entre os diferenciais intelectuais da Lise está a leitura curiosa, a busca com criticidade dos conhecimentos existentes (com interesse de dar sentidos e significados complementares aos dos autores) para construção de novas ideias, instigadas por dúvidas producentes. Destaque: ela própria se motiva com o que lê e com o que escreve; o entusiasmo dela contagia todos os que com ela convivem.

As obras de Lise Oliveira oportunizam a apreciação da arte em elevado grau de sensibilidade e de podermos navegar em emoções únicas. Nas declamações, a artista se manifesta na sua totalidade: entonação (modulação) da voz, a musicalidade dada aos vocábulos e às frases, o uso dos silêncios comunicativos e do olhar que fala.

A facilidade com que a poeta encontra palavras para expressar o que fervilha no seu cérebro contribuem para a construção de poemas admiráveis, verdadeiras joias literárias. A Lise manobra o léxico como se a Semântica fosse a cozinha em que ela prepara delícias culinárias; sempre se destacou pela escolha da melhor palavra para designar cada uma das suas percepções. E, a volta às salas de aula (talvez…?), contribuíram para a elevação da sintaxe ao mesmo nível de excelência da ortografia e da semântica. Então, os textos serão cada vez mais instigantes.

MULHER

Dia 8 de março foi escolhido como o dia em que refletimos sobre a importância da mulher em todos os dias do ano.

Instintivamente, a mulher é vista com olhos de desejo. Talvez, falte o desejo de olhar a mulher integralmente, dotada de capacidades e de sentimentos que podem ser compartilhados; alguém com quem me completo, alguém que comigo se completa. Não é por acaso que as pessoas casam.

Mais que emancipação, a mulher busca participação, participação na vida. A mulher busca o direito de viver plenamente; não a vida dos outros, mas a vida com os outros. Busca o direito de rir com vontade e de chorar sem motivo. O direito à alegria, à dor, à segurança, à liberdade. E, principalmente, o direito ao espaço para se movimentar e para crescer.

Respeitar a mulher é acreditar sinceramente na sua capacidade de crescer. Crescer, não como um ser menor que precisa crescer, mas, como um ser que já é grande e cresce mais para que a Humanidade toda cresça.

Centro de Formação do Banco do Brasil, Bairro Estreito, Florianópolis SC, em 07.03.1997