LISE OLIVEIRA

Leio bastante (pelos meus critérios e por meus interesses) autores de qualquer época e convivo com escritores há quase sessenta anos, dos quais recebi positivas influências. Talvez, minha opinião sobre textos e sobre escritores tenha algum valor…

A partir de 2020, tenho o privilégio de avizinhar com Lise Oliveira e de ler o que ela escreve. A elevada sensibilidade e a fluência com que registra as percepções da vida que flui dentro de si e ao derredor são qualidades literárias raras, raríssimas posso dizer. Numa nação em que poucas pessoas desenvolveram espaços mentais para receber e entender ideias, encontrei uma preciosidade intelectual, uma pessoa extremamente sensível, com uma mente aguda, ativa e racional.

Entre os diferenciais intelectuais da Lise está a leitura curiosa, a busca com criticidade dos conhecimentos existentes (com interesse de dar sentidos e significados complementares aos dos autores) para construção de novas ideias, instigadas por dúvidas producentes. Destaque: ela própria se motiva com o que lê e com o que escreve; o entusiasmo dela contagia todos os que com ela convivem.

As obras de Lise Oliveira oportunizam a apreciação da arte em elevado grau de sensibilidade e de podermos navegar em emoções únicas. Nas declamações, a artista se manifesta na sua totalidade: entonação (modulação) da voz, a musicalidade dada aos vocábulos e às frases, o uso dos silêncios comunicativos e do olhar que fala.

A facilidade com que a poeta encontra palavras para expressar o que fervilha no seu cérebro contribuem para a construção de poemas admiráveis, verdadeiras joias literárias. A Lise manobra o léxico como se a Semântica fosse a cozinha em que ela prepara delícias culinárias; sempre se destacou pela escolha da melhor palavra para designar cada uma das suas percepções. E, a volta às salas de aula (talvez…?), contribuíram para a elevação da sintaxe ao mesmo nível de excelência da ortografia e da semântica. Então, os textos serão cada vez mais instigantes.

MULHER

Dia 8 de março foi escolhido como o dia em que refletimos sobre a importância da mulher em todos os dias do ano.

Instintivamente, a mulher é vista com olhos de desejo. Talvez, falte o desejo de olhar a mulher integralmente, dotada de capacidades e de sentimentos que podem ser compartilhados; alguém com quem me completo, alguém que comigo se completa. Não é por acaso que as pessoas casam.

Mais que emancipação, a mulher busca participação, participação na vida. A mulher busca o direito de viver plenamente; não a vida dos outros, mas a vida com os outros. Busca o direito de rir com vontade e de chorar sem motivo. O direito à alegria, à dor, à segurança, à liberdade. E, principalmente, o direito ao espaço para se movimentar e para crescer.

Respeitar a mulher é acreditar sinceramente na sua capacidade de crescer. Crescer, não como um ser menor que precisa crescer, mas, como um ser que já é grande e cresce mais para que a Humanidade toda cresça.

Centro de Formação do Banco do Brasil, Bairro Estreito, Florianópolis SC, em 07.03.1997

MOSAICOS


Para Marlene Tessari, minha irmã:
sabedoria de quem une retalhos
para vestir pessoas ou
para pavimentar caminhos.


O poeta alinhava palavras desiguais
em frases estendidas sobre poemas-mosaicos.
Nossas realidades não surgem
como surpresas monolíticas ‘caídas do céu’
ou como criaturas fantásticas que emergem
das águas plácidas de lago desabitado.


Cada um de nós compõe e recompõe
a realidade (em que imagina viver)
ao organizar e reorganizar fiapos do passado
com novidades que criamos por força de viver.

O tecido resultante dessa costura
sempre será híbrido: mosaico de fragmentos
com lembranças, ilusões e propósitos.


A realidade individual que inventamos
para nos sentirmos ‘com os pés no chão’
mais parece taipa de pedras irregulares
ou parede de tijolos desiguais
do que estátua de bronze único,
de cor uniforme e aparência morta.