URINA

HIGIENE DA CUECA

Nasci e cresci imerso na cultura brasileira: machista, reprodutiva, contraditória e simplista; às vezes, simplória e, em alguns aspectos, leviana.

Por procura ou por sorte, fui ouvindo vozes dissonantes, indicações de ingenuidades coletivas que se enraizavam em mim também. Sou cientista amador, movido por curiosidade, em busca de atitudes mais coerentes.

Lá pela terceira década de vida, um comentário, quase um murmúrio, despertou minha mente para as condições higiênicas de minhas cuecas.

Quando criança, habitante de um cafundó, minha mãe aproveitava panos velhos, restos de camisas ou sobras de retalhos para confeccionar uma roupa íntima elementar. Ainda menino, fui enviado ao seminário para aprender a ler e a escrever. Ela precisa fazer bonito. Afinal, o filho seria alfabetizado. Então, ela aprimorou o modelo, chegando a algo próximo de uma cueca samba-canção. Só passei a usar cuecas compradas em loja quando ganhei algum dinheiro e saí da vila para estudar e trabalhar em uma pequena cidade.

Paralelamente, a “privada” dos meus tempos na roça evoluiu, nos seminários, para “banheiro coletivo”; para banheiros de pensionatos e para um banheiro adaptado em minha primeira casa; de madeira, mas, “com banheiro”, se bem que ‘adaptado’. Nos seminários, só o nome de “banheiro”, pois, os banhos semanais dependiam das águas – às vezes, barrentas – dos rios.

E assim fui evoluindo… Mesmo que – hoje, percebo – ainda faltasse muito para poder me vangloriar da higiene pessoal. Aí, ouvi o cochicho a que me referi em alguns parágrafos atrás.

Desde menino, depois de urinar, toda vez, eu esperava as últimas gotas abandonarem a glande; me demorava… e as pessoas ironizavam esse tempo extra, insinuando malícias ou ironias. Por mais que cuidasse e usasse estratégias para evitar as gotas de urina restantes, a cueca, vez em quando, manifestava o odor de desasseio.

Perguntei para algumas mulheres como elas faziam para evitar que a calcinha ‘ficasse temperada de urina’. Estranharam a pergunta e demonstraram preocupação com meu comportamento e com minha masculinidade. Ora, usavam papel higiênico…

Pensei: nunca vi meninos, rapazes e homens usando papel absorvente para secar as gotas temporãs… Porém, mesmo que fosse ironizado, decidi experimentar a técnica sanitária.

Confesso que sofri zombarias e reprimendas. Afinal, estava violando o código do machismo, posto em risco a segurança dos ‘verdadeiramente homens’ e semeando dúvidas sobre minha opção sexual.

Outra decisão minha: sentar no vaso sanitário para urinar. Afinal, quem convive comigo merece encontrar o assento limpo e inodoro.

Na Década de 1980, quando passei a trabalhar para uma empresa em que os mictórios se estendiam ao longo de uma parede, às vezes, passava por humilhação, porque algum colega me via a higienizar a glande e o prepúcio e proclamava essa ‘pouca vergonha’ para debochados colegas e clientes na grande sala de trabalho.

Também sofria escárnios em estações rodoviárias e aeroportos. Os que viam secando os restos de urina riam com complacência, parecendo se apiedarem dos meus desvios ‘morais’. Entretanto, minhas cuecas ficavam quase livres de imundícies e eu sentia o orgulho de romper um preconceito. Por me sentir menos sujo e mais confortável, fiz desse cuidado um hábito.

No final do Século XX, embarcava mais uma vez para exercer meu trabalho no extremo-norte do país. Depois de encaminhar minha bagagem e meu embarque, fui aos ‘sanitários’, carregando a ‘bagagem de mão’.

Como sempre se faz, ao adentrar ao ambiente restrito, lancei um olhar estratégico para a parede em frente, onde se alinhavam os mictórios … e encontrei um rolo de papel higiênico ao lado ‘direito’ de cada urinol de louça.

Aquela visão me deixou paralisado. E a estátua viva chorou… Inicialmente, um choro manso, lágrimas escorrendo silenciosamente… Os dois passageiros que lá estavam, ao sair, passaram por mim olhando o chão, compadecidos com meu pranto. Os que vinham entrando me olharam com assombro e um deles veio me consolar, pois, então, eu já me sacudia em soluços.

Me emocionei porque via realizado um sonho evolutivo; um espaço público tinha sido preparado para atender a uma necessidade daqueles que desejavam privilegiar a higiene íntima em detrimento da glória machista de ‘jamais se comportar como mulher’.

Tenho consciência de que aqueles rolos de papel higiênico foram colocados ali para atender mais da metade dos ‘homens’ que ali urinassem; que, sozinho, nada teria conseguido. Todavia, eu tinha sido um dos que lutaram em silêncio por aquele benefício. Vibrei de alegria por ter participado de um evento social evolutivo; de ter ouvido o Zeitgeist (“o espírito do tempo”) e contribuído para a higiene das cuecas.

Sítio Itaguá, 08.09.2020

VIVER BEM OU BEM VIVER?

Podemos analisar o significado de ‘viver’ por vários pontos de vista, tendências, ideologias ou filosofias.

Há quem considere que ganhar bastante dinheiro seja ‘viver bem’. Podemos questionar quanto dinheiro será suficiente para viver e para viver bem. Os pássaros não ganham (muito menos, acumulam) dinheiro. Os pássaros vivem mal? As pessoas ambiciosas vivem melhor? Os multibilionários vivem felicidade máxima?

A vida de cada um seria a soma de experiências individuais? Quem nasce, cresce e envelhece sem sair da aldeia tem uma única experiência, vive uma única vida? Quem busca e explora muitos habitats vive muitas vidas?

Uma pessoa que, numa empresa, repete uma rotina invariável durante trinta e cinco anos tem trinta e cinco anos de experiência ou tem a experiência de repetir durante trinta e cinco anos o mesmo dia de trabalho?

Quem aprendeu quando criança um ofício e nele trabalha sem evolução (uma rotina de jornadas exatamente iguais) terá uma vida monótona, improdutiva? Aprender e migrar para outras profissões oportuniza variadas experiências, como se vivesse muitas vidas?

Entre viver bem e bem viver há diferenças sutis. Prefiro bem viver ou viver o bem. Melhor ainda se o bem e o bom coexistirem: se praticarmos o bem será bom para todos. Ou eu seria ingênuo, complacente?

CONVIVÊNCIA AMOROSA

Perguntei para a irmã de minha mãe como eles estavam (Iolanda e Alcides, na fase dos 90 anos) e ela respondeu com uma frase que descreve uma vida a dois em total parceria: “Estamos abotoando a roupa um do outro.”

No que acreditamos?

A tendência é acreditarmos com maior convicção, com mais fé, nas verdades que descobrimos por nós mesmos; são as mais simples e as mais úteis para cuidarmos do nosso corpo e da nossa mente, para preparar e para aprimorar nosso espaço vital, nossa moradia e nossas relações afetivas.

A seleção do que sabemos e do que queremos para nós mesmos ajuda a construir nossa filosofia de vida, nossa tranquilidade, nosso bem-estar.

IMEDIATISMO

Insatisfeitos com a rapidez com que passam pela vida, os humanos inventam máquinas cada vez mais velozes para chegarem logo ao infinito. Essas ânsias desgastam, corroem e abreviam vivências.

As plantas, sem pés e sem pernas, se agarram no solo pelas raízes. Sem pressa, constroem florestas, dominam a natureza e contribuem para saúde de todos os seres vivos.

Os melhores caminhos são os que construímos por e para nós mesmos e não os caminhos que encontramos prontos ou aqueles que nos oferecem ‘de graça’. Nada é gratuito. A gratuidade é uma ilusão que compramos por alto preço.

SABEDORIA DA HUMILDADE

Conheço parcialmente, estudo, (re)conheço, valorizo, alimento e cuido de meu corpo. Confio nele (Fé na Vida) e procuro interagir de forma o mais consciente possível, analisando e mantendo meu viver dentro de limites cada vez mais estreitos; sem frustrações, mágoas ou tristezas.

As plantas e os animais guardam em seus corpos a sabedoria acumulada em dezenas de milhares de anos. A minha principal aprendizagem possível sempre será sobre o funcionamento dos seres vivos, como sobrevivem em meio aos comportamentos absurdos dos Sapiens Sapiens.

Cada ser vivo, do microscópico ao colossal, desenvolveu capacidades para bem aproveitar as condições naturais e para evitar os desequilíbrios da soberba, da arrogância e da estupidez de grande parte dos nossos conviventes na Planeta Terra.

DOS RITMOS VITAIS

Para quem vive no sítio, a vida é mais estável. E as necessidades são muito menores, menos exigentes. As árvores demoram anos, décadas e, algumas, séculos para crescer. A vida flui num ritmo amigo, que dá tempo de ver, de apreciar.

A vida urbana exige pressa, quase urgência. Tudo é obrigação agendada, com horário marcado, com segundos cronometrados, dramaticamente transitórios. Carros passam empurrados pela pressão do violento ritmo urbano, atropelando pedestres, outros veículos, muros, postes, … As pessoas passam umas pelas outras e passam pela vida sem tempo para apreciar a vida … correm engolindo migalhas aqui e ali.

Essa comparação entre o rural e o urbano aparece no valor que é dado aos seres vivos e aos objetos. Na roça, os animais são companhia para os humanos do nascimento até a morte, as ferramentas são usadas até gastarem, as residências caem de velhas; pouco reformadas, raramente demolidas. Tudo é permanente … até demais.

Na cidade, ao contrário, tudo é descartável: amores, cães, gatos, papagaios, carros, residências, escritórios, fábricas, estradas, … vidas… O progresso pede passagem e atropela ‘o antigo’; árvores dão lugar a estradas, a casas, a edifícios, a fábricas, a shoppings, … E os animais ‘de estimação’ são jogados na rua em cima dos nossos sentimentos humanos.

Tudo pode ser comprado, usado a exaustão e, logo que não dê lucros (mesmo que estéticos), é jogado fora. Há lixão ecológico, aterro sanitário (enterro da saúde) e a tecla delete. Assim, nos livramos do que usamos … enquanto rendia companhia, conforto, prazeres, …

Para que vamos guardar nossos valores … se ali na esquina tem uma fila de outros que podem ser comprados, degustados, desgastados, consumidos e … expurgados?

Por favor, após ler, delete minha ideia, há outra esperando na fila.

Publicado na Folha Regional de Jaguaruna, em 2008.

MULHER

Dia 8 de março foi escolhido como o dia em que refletimos sobre a importância da mulher em todos os dias do ano.

Instintivamente, a mulher é vista com olhos de desejo. Talvez, falte o desejo de olhar a mulher integralmente, dotada de capacidades e de sentimentos que podem ser compartilhados; alguém com quem me completo, alguém que comigo se completa. Não é por acaso que as pessoas casam.

Mais que emancipação, a mulher busca participação, participação na vida. A mulher busca o direito de viver plenamente; não a vida dos outros, mas a vida com os outros. Busca o direito de rir com vontade e de chorar sem motivo. O direito à alegria, à dor, à segurança, à liberdade. E, principalmente, o direito ao espaço para se movimentar e para crescer.

Respeitar a mulher é acreditar sinceramente na sua capacidade de crescer. Crescer, não como um ser menor que precisa crescer, mas, como um ser que já é grande e cresce mais para que a Humanidade toda cresça.

Centro de Formação do Banco do Brasil, Bairro Estreito, Florianópolis SC, em 07.03.1997