VIVER BEM OU BEM VIVER?

Podemos analisar o significado de ‘viver’ por vários pontos de vista, tendências, ideologias ou filosofias.

Há quem considere que ganhar bastante dinheiro seja ‘viver bem’. Podemos questionar quanto dinheiro será suficiente para viver e para viver bem. Os pássaros não ganham (muito menos, acumulam) dinheiro. Os pássaros vivem mal? As pessoas ambiciosas vivem melhor? Os multibilionários vivem felicidade máxima?

A vida de cada um seria a soma de experiências individuais? Quem nasce, cresce e envelhece sem sair da aldeia tem uma única experiência, vive uma única vida? Quem busca e explora muitos habitats vive muitas vidas?

Uma pessoa que, numa empresa, repete uma rotina invariável durante trinta e cinco anos tem trinta e cinco anos de experiência ou tem a experiência de repetir durante trinta e cinco anos o mesmo dia de trabalho?

Quem aprendeu quando criança um ofício e nele trabalha sem evolução (uma rotina de jornadas exatamente iguais) terá uma vida monótona, improdutiva? Aprender e migrar para outras profissões oportuniza variadas experiências, como se vivesse muitas vidas?

Entre viver bem e bem viver há diferenças sutis. Prefiro bem viver ou viver o bem. Melhor ainda se o bem e o bom coexistirem: se praticarmos o bem será bom para todos. Ou eu seria ingênuo, complacente?

CONVIVÊNCIA AMOROSA

Perguntei para a irmã de minha mãe como eles estavam (Iolanda e Alcides, na fase dos 90 anos) e ela respondeu com uma frase que descreve uma vida a dois em total parceria: “Estamos abotoando a roupa um do outro.”

SABEDORIA DA HUMILDADE

Conheço parcialmente, estudo, (re)conheço, valorizo, alimento e cuido de meu corpo. Confio nele (Fé na Vida) e procuro interagir de forma o mais consciente possível, analisando e mantendo meu viver dentro de limites cada vez mais estreitos; sem frustrações, mágoas ou tristezas.

As plantas e os animais guardam em seus corpos a sabedoria acumulada em dezenas de milhares de anos. A minha principal aprendizagem possível sempre será sobre o funcionamento dos seres vivos, como sobrevivem em meio aos comportamentos absurdos dos Sapiens Sapiens.

Cada ser vivo, do microscópico ao colossal, desenvolveu capacidades para bem aproveitar as condições naturais e para evitar os desequilíbrios da soberba, da arrogância e da estupidez de grande parte dos nossos conviventes na Planeta Terra.

LISE OLIVEIRA

Leio bastante (pelos meus critérios e por meus interesses) autores de qualquer época e convivo com escritores há quase sessenta anos, dos quais recebi positivas influências. Talvez, minha opinião sobre textos e sobre escritores tenha algum valor…

A partir de 2020, tenho o privilégio de avizinhar com Lise Oliveira e de ler o que ela escreve. A elevada sensibilidade e a fluência com que registra as percepções da vida que flui dentro de si e ao derredor são qualidades literárias raras, raríssimas posso dizer. Numa nação em que poucas pessoas desenvolveram espaços mentais para receber e entender ideias, encontrei uma preciosidade intelectual, uma pessoa extremamente sensível, com uma mente aguda, ativa e racional.

Entre os diferenciais intelectuais da Lise está a leitura curiosa, a busca com criticidade dos conhecimentos existentes (com interesse de dar sentidos e significados complementares aos dos autores) para construção de novas ideias, instigadas por dúvidas producentes. Destaque: ela própria se motiva com o que lê e com o que escreve; o entusiasmo dela contagia todos os que com ela convivem.

As obras de Lise Oliveira oportunizam a apreciação da arte em elevado grau de sensibilidade e de podermos navegar em emoções únicas. Nas declamações, a artista se manifesta na sua totalidade: entonação (modulação) da voz, a musicalidade dada aos vocábulos e às frases, o uso dos silêncios comunicativos e do olhar que fala.

A facilidade com que a poeta encontra palavras para expressar o que fervilha no seu cérebro contribuem para a construção de poemas admiráveis, verdadeiras joias literárias. A Lise manobra o léxico como se a Semântica fosse a cozinha em que ela prepara delícias culinárias; sempre se destacou pela escolha da melhor palavra para designar cada uma das suas percepções. E, a volta às salas de aula (talvez…?), contribuíram para a elevação da sintaxe ao mesmo nível de excelência da ortografia e da semântica. Então, os textos serão cada vez mais instigantes.

RESPONSABILIDADE CRÍTICA

Nada lembramos do que vivemos inconscientemente quando bebês. Durante a infância e a adolescência, agimos mais por impulso que por raciocínio lógico. Aos poucos, fomos tomando consciência de nossos acertos e de nossos erros. Passamos a pensar antes de fazer e a acreditar que nossas vivências são construídas por nossas escolhas e não por azar ou sorte.

À medida que envelhecemos, passamos a pensar mais sobre o cada vez menos que fazemos; substituímos ingenuidade e espontaneidade por responsabilidade crítica.

Se analisarmos o que formos fazer ou o que já fizemos, poderemos reduzir o volume de decepções e de fracassos, bem como, viver sem tantos sobressaltos e sofrimentos.

PROTAGONISMO DO LEITOR

“… o momento importa na relação do leitor com o livro. Houve mais de um livro que eu abri e comecei a ler, parando nas primeiras páginas ao perceber que aquele livro não era o certo para aquele meu momento, que havia outro livro que se encaixaria melhor ou talvez nenhum livro, talvez fosse o caso de dar um tempo na leitura de qualquer livro. Em quase todos os casos eu retomei a leitura quando eu já era outro e, dado que eu era outro, a leitura do mesmo livro foi outra.” Gilvan Tessari

MEDO DE MORRER

Há 9.000 anos (desde 7.000 a.c.), os sapiens consultam oráculos, constroem tabernáculos e seguem profetas que prometem salvação; tudo para fugir da finitude, da consciência de que nada vive para sempre. Temos medo da morte; não queremos morrer. Animais e plantas lutam para não morrer (“impulso primitivo, pulsão vital, quando em risco de morte”); os seres microscópicos, também. O homo sapiens sapiens continua buscando alívios para seus temores ‘mortais’. Preferimos fazer de conta que não sabemos.

CHORAR, FALAR, ESCREVER, SILENCIAR.

Talvez, eu tenha conversado com minha mãe durante os últimos meses em que estive no útero dela. Talvez. Talvez, minha mãe falasse comigo e, também, meu pai e outros familiares. Talvez, eu tenha sentido o ambiente externo, ouvido vozes, percebido afetos, … Talvez.

Acredito que chorei ao aspirar o primeiro ar. E que continuei chorando até compreender que falavam comigo e reagir com ‘grunhidos’, monossílabos copiados do que eu ouvia. Em seguida, pronunciei os primeiros dissílabos possíveis de interpretar e, depois de meses, aprendi as primeiras palavras.

Durante décadas, desenvolvi a oralidade, a leitura e a escrita, que foram muito úteis para minha sobrevivência, para conquistar autonomia, para escrever textos (e até livros), expondo meus pensamentos, meu modo de estar no mundo.

Continuo revelando minha vida interior, porém, escolhendo as palavras, revelando menos minhas análises, ouvindo as contestações, esperando bastante para interagir, limitando interlocutores e assuntos. Disponibilizo o que falo ou escrevo para quem quiser ouvir ou ler.

Irei silenciando aos poucos … até o silêncio final.

DEUS, UM DELÍRIO … COLETIVO

Eu tenho opinião diferente das opiniões do Richard Dawkins e do Gilvas.
https://mail.google.com/mail/u/0/h/1k1ikw0z3w40a/?&th=16787f1e759d0133&v=c
     Deus existe. Sempre um deus coletivo; nunca ouvi falar em deuses individuais; um deus para si mesmo.

     Existem muitos ‘de eus’; milhares ‘de eus’. Cada vez que algumas dezenas de pessoas se congregam e se concretam numa ‘verdade’, cada vez que algumas dezenas de eus se sentem irresistivelmente atraídos por uma ideia, esse pensamento se torna ‘ideia fixa’ sobre espiritualidade, etnia, identidade de gênero, medo da morte, martírio, futebol, política, penitência, finanças, economia, estrelas, animais, nacionalismo ou liberdade utópica.
     A comunidade adepta constrói um coletivo ‘de eus’ que passa a comandar as subjetividades; pessoas que acreditam em horóscopos, superstições, magias, bruxarias, simpatias, benzeduras, mau-olhado, sucesso, destino, riqueza e compensação celestial.
     Para que uma ideia fixa ou uma crença se torne religião, basta que sejam eleitos guardiões. “Muitos são os chamados; poucos, os escolhidos.” O guardião tem a missão de guardar a verdade que foi divinizada, de proteger os crentes (que, ao acreditarem cegamente, perdem o senso de realidade), de fiscalizar o cumprimento integral das obrigações dos fiéis seguidores e de administrar os tabernáculos que guardam almas e segredos. Daí a existência de confessionários…
     Tudo o que for sagrado deve estar protegido em sacrários. Surgem os templos para abrigar as ‘riquezas espirituais’ e um guardião dos guardiões para organizar a estrutura da igreja; uma hierarquia de guardiões.
     Assim, nascem as religiões: na contínua e cada vez mais intensa convicção da verdade tornada absoluta para pessoas que se prendem indissoluvelmente a um agregado ‘de eus’; pessoas que, guiadas por um salvador, se ligam, se religam e se sustentam em procissão rumo ao paraíso e/ou ao lucro prometidos.
     Pode ser que seja apenas um processo natural, como os processos físico-químicos fundamentais. Quando alguns (ou muitos) elétrons são atraídos irresistivelmente por um núcleo formado por prótons e nêutrons, passam a formar um átomo; quando um ou vários átomos se unem permanentemente uns aos outros, formam moléculas; o aglomerado de moléculas forma matérias, corpos, ligas, artefatos, … reconhecidos internacionalmente.
     Nas Ciências Sociais, as ideias se estruturam em conceitos, teses, sínteses, definições, teorias, doutrinas, … Os cientistas são guardiões das verdades científicas; nesse sentido, os cientistas são os sacerdotes da Ciência.
     “É mais fácil desintegrar um átomo que remover um hábito.” Albert Einstein
     E que diluir uma crença.
     Porém, as instituições (como o dinheiro, por exemplo) só existem enquanto acreditamos nelas.

Notas:

  1. A Bíblia foi a primeira enciclopédia europeia da Humanidade, contendo tudo o que havia sido manuscrito, os textos eruditos, e o que se conseguiu reunir da tradição oral e da sabedoria popular.
  2. De fato, temos imensa dificuldade de assumirmos nossos ceticismos.

Ceticismo, “doutrina segundo a qual o espírito humano não pode atingir nenhuma certeza a respeito da verdade, o que resulta em um procedimento intelectual de dúvida permanente e na abdicação, por inata incapacidade, de uma compreensão metafísica, religiosa ou absoluta do real” Dicionário Houaiss

DEUS SALVE O REI

dEUS salve o rEI

Minha postura é indigna? Seria uma questão política? Salvar a Nação?

Não. Não contem comigo para salvar a Pátria, o Rei, os ministros, os cortesões, os sábios, as concubinas, os sacerdotes, os conselheiros, os pajés, …

Estarei na plateia, rindo dos ridículos governantes.

Peço que me contestem nas divergências… mas… não vale a pena nos indispor por questões políticas.

Vivi sob a égide de uns quinze presidentes, outros tantos governadores e mais prefeitos (não, perfeitos). Pouco tempo perdi “salvando o mundo”. E foi tempo perdido.

Governos são como o clima, as estações, as eras, … Reclamo deles, ironizo seus feitos e efeitos, porém, me adapto às ETERNAS MUDANÇAS… que sempre se repetem.

E eu… procuro não me repetir; vivo ao alcance da minha aura… uma única vida.