DOS RITMOS VITAIS

Para quem vive no sítio, a vida é mais estável. E as necessidades são muito menores, menos exigentes. As árvores demoram anos, décadas e, algumas, séculos para crescer. A vida flui num ritmo amigo, que dá tempo de ver, de apreciar.

A vida urbana exige pressa, quase urgência. Tudo é obrigação agendada, com horário marcado, com segundos cronometrados, dramaticamente transitórios. Carros passam empurrados pela pressão do violento ritmo urbano, atropelando pedestres, outros veículos, muros, postes, … As pessoas passam umas pelas outras e passam pela vida sem tempo para apreciar a vida … correm engolindo migalhas aqui e ali.

Essa comparação entre o rural e o urbano aparece no valor que é dado aos seres vivos e aos objetos. Na roça, os animais são companhia para os humanos do nascimento até a morte, as ferramentas são usadas até gastarem, as residências caem de velhas; pouco reformadas, raramente demolidas. Tudo é permanente … até demais.

Na cidade, ao contrário, tudo é descartável: amores, cães, gatos, papagaios, carros, residências, escritórios, fábricas, estradas, … vidas… O progresso pede passagem e atropela ‘o antigo’; árvores dão lugar a estradas, a casas, a edifícios, a fábricas, a shoppings, … E os animais ‘de estimação’ são jogados na rua em cima dos nossos sentimentos humanos.

Tudo pode ser comprado, usado a exaustão e, logo que não dê lucros (mesmo que estéticos), é jogado fora. Há lixão ecológico, aterro sanitário (enterro da saúde) e a tecla delete. Assim, nos livramos do que usamos … enquanto rendia companhia, conforto, prazeres, …

Para que vamos guardar nossos valores … se ali na esquina tem uma fila de outros que podem ser comprados, degustados, desgastados, consumidos e … expurgados?

Por favor, após ler, delete minha ideia, há outra esperando na fila.

Publicado na Folha Regional de Jaguaruna, em 2008.

LISE OLIVEIRA

Leio bastante (pelos meus critérios e por meus interesses) autores de qualquer época e convivo com escritores há quase sessenta anos, dos quais recebi positivas influências. Talvez, minha opinião sobre textos e sobre escritores tenha algum valor…

A partir de 2020, tenho o privilégio de avizinhar com Lise Oliveira e de ler o que ela escreve. A elevada sensibilidade e a fluência com que registra as percepções da vida que flui dentro de si e ao derredor são qualidades literárias raras, raríssimas posso dizer. Numa nação em que poucas pessoas desenvolveram espaços mentais para receber e entender ideias, encontrei uma preciosidade intelectual, uma pessoa extremamente sensível, com uma mente aguda, ativa e racional.

Entre os diferenciais intelectuais da Lise está a leitura curiosa, a busca com criticidade dos conhecimentos existentes (com interesse de dar sentidos e significados complementares aos dos autores) para construção de novas ideias, instigadas por dúvidas producentes. Destaque: ela própria se motiva com o que lê e com o que escreve; o entusiasmo dela contagia todos os que com ela convivem.

As obras de Lise Oliveira oportunizam a apreciação da arte em elevado grau de sensibilidade e de podermos navegar em emoções únicas. Nas declamações, a artista se manifesta na sua totalidade: entonação (modulação) da voz, a musicalidade dada aos vocábulos e às frases, o uso dos silêncios comunicativos e do olhar que fala.

A facilidade com que a poeta encontra palavras para expressar o que fervilha no seu cérebro contribuem para a construção de poemas admiráveis, verdadeiras joias literárias. A Lise manobra o léxico como se a Semântica fosse a cozinha em que ela prepara delícias culinárias; sempre se destacou pela escolha da melhor palavra para designar cada uma das suas percepções. E, a volta às salas de aula (talvez…?), contribuíram para a elevação da sintaxe ao mesmo nível de excelência da ortografia e da semântica. Então, os textos serão cada vez mais instigantes.