PENSAR NO IMPENSAR

Nada lembramos do que vivemos

– inconscientemente –

nos primeiros anos de vida.

.

Da infância à adolescência,

agimos mais por impulso

que por raciocínio lógico.

.

Aos poucos, vamos tomando consciência

de nossos acertos e de nossos erros

e passamos a refletir antes de fazer,

acreditando que construímos o destino

com nossas escolhas, sem responsabilizar

o azar ou a sorte por fracassos ou sucessos.

.

Se planejarmos o que iremos fazer

e analisarmos o que fizemos,

poderemos reduzir o volume de erros

e viver sem tantas decepções.

.

À medida que envelhecemos,

passamos a pensar mais sobre

o cada vez menos que podemos fazer.

Substituímos espontaneidade e ingenuidade

por responsabilidade crítica.

MUDAR NA MUDANÇA

Podemos mudar de apartamento, casa, bairro, cidade, região, país, … Talvez, … de planeta…

Impulsionados por insatisfações, saturamentos, esgotamentos, tragédias, expulsões, aversões ou oportunidades.

Podemos deixar o indesejado, algo do que fomos, apelidos, relações, humilhações, perseguições, limitações espaciais ou emocionais.

Em busca de horizontes amplos, harmonia interna, familiar, social ou comunitária: melhores condições de vida.

Podemos mudar de residência e aproveitar para mudar de vida.

Ou, ingenuamente, carregar conosco idiossincrasias, ilusões, manias, comportamentos, …

Assumindo os mesmos papeis, repetindo hábitos prejudiciais, reconstruindo o desagradável…

Ou podemos aproveitar a mudança para mudar a nós mesmos, abandonando ‘verdades’, replantando esperanças e concretizando sonhos.

MENOS AMIGOS, MAIS AMIZADE

A certeza de que a vida é curta
aumenta com a idade.

Até os quatro anos,
nem sabemos que pensamos.
Até a adolescência,
carecemos de consciência moral.

As primeiras décadas
transcorrem sem economia de tempo,
pois, parece que seremos eternos.
No entanto, a meia-idade vem
nos avisar de que a manhã já se foi
e que a tarde se esvai:
o vigor físico cede lugar à debilidade.

Tomamos consciência de que
o aclive chegou ao fim e que a
‘melhor idade’ escorre cachoeira a baixo.
Se na juventude esbanjamos energia
e corremos atrás de aventuras,
na maturidade, passamos a escolher
com cuidado os encontros e as companhias.

DEUS, UM DELÍRIO… COLETIVO.

     Eu tenho opinião diferente das opiniões do Richard Dawkins e do Gilvas.
https://mail.google.com/mail/u/0/h/1k1ikw0z3w40a/?&th=16787f1e759d0133&v=c
Deus existe. Sempre um deus coletivo; nunca ouvi falar em deuses individuais; um deus para si mesmo.
Existem muitos ‘de eus’; milhares ‘de eus’. Cada vez que algumas dezenas de pessoas se congregam e se concretam numa ‘verdade’, cada vez que algumas dezenas de eus se sentem irresistivelmente atraídos por uma ideia, esse pensamento se torna ‘ideia fixa’ sobre espiritualidade, etnia, identidade de gênero, medo da morte, martírio, futebol, política, penitência, finanças, economia, estrelas, animais, nacionalismo ou liberdade utópica.
A comunidade adepta constrói um coletivo ‘de eus’ que passa a comandar as subjetividades; pessoas que acreditam em horóscopos, superstições, magias, bruxarias, simpatias, benzeduras, mau-olhado, sucesso, destino, riqueza e compensação celestial.
Para que uma ideia fixa ou uma crença se torne religião, basta que sejam eleitos guardiões. “Muitos são os chamados; poucos, os escolhidos.” O guardião tem a missão de guardar a verdade que foi divinizada, de proteger os crentes que, ao acreditarem cegamente, perdem o senso de realidade, de fiscalizar o cumprimento integral das obrigações dos fieis seguidores e de administrar os tabernáculos que guardam almas e segredos. Daí a existência de confessionários...
Tudo o que for sagrado deve estar protegido em sacrários. Surgem os templos para abrigar as ‘riquezas espirituais’ e um guardião dos guardiões para organizar a estrutura da igreja; uma hierarquia de guardiões.
Assim, nascem as religiões: na contínua e cada vez mais intensa convicção da verdade tornada absoluta para pessoas que se prendem indissoluvelmente a um agregado ‘de eus’; pessoas que, guiadas por um salvador, se ligam, se religam e se sustentam em procissão rumo ao paraíso e/ou ao lucro prometidos.
Pode ser que seja apenas um processo natural, como os processos físico-químicos fundamentais. Quando alguns (ou muitos) elétrons são atraídos irresistivelmente por um núcleo formado por prótons e nêutrons, passam a formar um átomo; quando um ou vários átomos se unem permanentemente uns aos outros, formam moléculas; o aglomerado de moléculas forma matérias, corpos, ligas, artefatos, ... reconhecidos internacionalmente.
Nas Ciências Sociais, as ideias se estruturam em conceitos, teses, sínteses, definições, teorias, doutrinas, ... Os cientistas são guardiões das verdades científicas; nesse sentido, os cientistas são os sacerdotes da Ciência.
“É mais fácil desintegrar um átomo que remover um hábito.” Albert Einstein
E que diluir uma crença.
Porém, as instituições – como o dinheiro, por exemplo – só existem enquanto acreditamos nelas.

PROPAGANDA

A propaganda nada faz; ela é feita.

 

Ela é feita para difundir o que alguns seres humanos

julgam ser importante para os outros;

para que os outros pensem e ajam de acordo com o propalado.

Muitas vezes, que os outros façam aquilo que eles mesmos não fazem.

 

Podem ser propagadas ideias, teorias, práticas, comportamentos, exemplos, …

No entanto, mais importante do que identificar o que é propagado

é saber a intenção de quem propaga.

 

Ideias podem ser verdades, mentiras, meias-verdades ou meias-mentiras.

As mentiras absolutas são vulneráveis ao discernimento.

Mas, como identificar a parte que é verdade e a parte que é mentira?

 

Infelizmente, a propaganda tem sido instrumento de enganação,

de impor meias-verdades com o objetivo de tirar proveito

da ingenuidade popular, da boa-fé das pessoas.

Tirar vantagens sociais, econômicas ou políticas.

E, tem pressa, pois precisa chegar antes que o espírito desperte

e analise com criticidade as falsas bondades.

 

A propagação de princípios éticos

independe de urgência e foge de absolutismos;

ela se fortalece na diversidade de pensamentos.

 

Nos meios de comunicação, em geral,

a propaganda tem a função de enganar,

de criar necessidades inúteis,

de explorar os incautos.

 

A propaganda ‘profissionalizada’ se alimenta de mentes ingênuas;

porém, enfrenta resistências nas mentes críticas.

Por isso, os profissionais das agências de propaganda,

principalmente da propaganda política,

precisam manter o povo na ignorância,

precisam garantir um rebanho de ingênuos.

Simultaneamente, campo para semear ilusões

e vetor para propagação de ‘epidemias ideológicas’.

 

Assim, os falsos líderes e os ídolos ocos

são plantados e cultivados em massas acéfalas.

A população domesticada passa a executar,

fielmente, as ideias desses charlatões.

Executa inconscientemente, hipnotizada,

incapaz de pensar criticamente,

de tomar decisões, de fazer escolhas.

 

Como as pessoas não pensam por si mesmas,

são pensadas pelos outros.

 

20:06h – 09.03.2011

JOGOS SEXUAIS

Os rebanhos humanos seguem em busca de saciedade.
E, saciados, mantêm, na lembrança, a sensação do prazer
sentido ao saciar a fome, a vaidade e os desejos.

O prazer norteia a marcha dos rebanhos que buscam
alimentos para satisfazer o corpo,
emoções para satisfazer a libido,
poderes para satisfazer o orgulho ou
dinheiros para comprar alimentos, emoções e poderes.

Saciadas as necessidades naturais,
os humanos criam artificialmente novas necessidades
para obter repetidas oportunidades de sentir prazer,
comendo, acariciando, comprando, subjugando e dominando.

O saciamento de necessidades, de desejos e de vaidades,
entretanto, cobra altos preços. Nada é de graça.
Quem pode saciar uma necessidade aproveita o ensejo
para capitalizar espaços de dominação e cotas de poder.

Talvez, a necessidade de pertencimento
seja a força que une e comanda a massa humana
que segue atrás de bandeiras de luta
desenhadas com ingenuidade e/ou má-fé.

Por detrás de slogans, palavras-ônibus e discursos
– hinos instantâneos e efêmeros –,
existe um emaranhado de correntes
que ovelhas e cordeiros ignoram ou fingem não ver.

Cidadania, democracia, direitos humanos, preconceito,
assédio sexual, racismo, desigualdade social, trabalho escravo, ...
os catecismos conseguem uniformizar a marcha do rebanho.
Cantando a mesma canção, ovelhas e cordeiros
se sentem seguros para caminharem na mesma direção.

Dentre as estratégias usadas pelo comportamento tribal,
está a cortina que encobre os jogos sexuais.

Robôs conduzidos por inteligência artificial
estão imunes a atrações sensuais,
hormônios provocadores, agressões físicas e assassinatos.
Seres humanos – por enquanto – ainda agem e reagem
por estímulos, excitações, provocações e artimanhas sensoriais.

É ingenuidade ou hipocrisia se esconder
atrás de ondas sociais ou de discursos superficiais
sem analisar as relações lógicas de causa-efeito
que ocorrem na fisiologia dos corpos.

As ondas moralistas se assemelham a religiões politeístas
com deuses virtuais instáveis e sacerdotes eventuais
que usam e dominam as ferramentas eletrônicas para subjugar
instintos, sentimentos, ciclos naturais e eventos biológicos.

Acondicionam os fenômenos reprodutivos
em fôrmas ideológicas anônimas e massacrantes:
trituram os grãos para formar uma massa
de aspecto aparente uniforme.

Usam a mídia e por ela são usados.

As árvores que expõe flores para as abelhas polinizarem
e que geram frutos com sementes férteis distribuídas pelas aves
devem ser submetidas às vontades humanas,
produzindo lucros para o mercado capitalista. 

Manipulam as videiras para produzir uvas sem sementes
durante todo o transcurso anual e em todas as regiões;
negam o convívio de casais de animais em primavera:
confinam, inseminam, engordam e abatem.

Escravizam animais e vegetais ao deus Consumo,
usando engenharias genéticas e transgenias.

As pessoas devem controlar seus hormônios e desejos,
fingindo desconhecer as reações naturais do próprio corpo,
como se as glândulas femininas não liberassem estrogênio
e as glândulas masculinas não liberassem testosterona;
esses odores devem ser abafados com perfumes potentes.

Porém, a indústria e o comércio podem livremente
explorar a moda baseada em atrativos sexuais e
obter lucros usando imagens e imaginações
dos próprios consumidores fanatizados, que são
o princípio e o fim dos processos consumidores.

A violência visível pode encobrir
a violência simbólica e a manipulação,
sejam elas conscientes, intencionais ou ingênuas.

Muitos buscam gozar prazeres e tirar vantagens
sem compensar as vítimas em ambos os lados da guerra.
Os espertos usam os mantras para ganhar palco
e para cobrar indenizações pelas reações alheias,
se fazendo de vítimas dos jogos sexuais de iniciativa própria.

Sítio Itaguá, das 03:08 às 04:10 horas do dia 01jan2017.

Em memória de Júlio Dias de Queiroz.

Bom ler seus escritos. Sempre aprendo e ficam aspirações de desvendar como faz para criar relatos que nos fazem sempre querer chegar ao parágrafo seguinte.

Viver. Morrer. Você divaga e navega nestas correntes difíceis de aceitar ou concordar com tantas indagações, sempre sem respostas convincentes. Mas, na verdade, até me convenceu de que nascemos tantas vezes que, talvez, até possamos continuar vivendo…

Basta ser um bom escritor … talvez, um bom filho … ou (quem sabe?) um bom amigo como o seu velho mestre que faleceu aos mais de noventa anos. Foi seu amigo, seu mestre e seu leitor.

Você teve a humildade e a gentileza filial de reconhecer o saldo positivo das cartas trocadas. Sugestões singelas que o inspiravam a pensar no futuro e no que passou e (o pior) nas duas implacáveis certezas: a existência do nascer e do morrer. Por tantas vezes e por tantas causas.

E, quanto mais vivemos, amigo Mario Tessari, mais fingimos não acreditar no fim.

É alta madrugada. Vamos ao descanso.

Fraterno Abraço

Pedro Paulo Pamplona Vieira Peixoto

A VIDA DE JÚLIO DE QUEIROZ

Nascer e morrer são conceitos subjetivos.

Quando nasceu Júlio Dias de Queiroz? No momento em que saiu do ventre da mãe? Ou a vida biológica começou bem antes, no dia da concepção?

Objetivamente, podemos datar os ritos de passagem: para a família, nasceu no dia do parto; para a Nação, no dia do registro civil; para a Igreja, no dia do batismo; para a Academia Catarinense de Letras, no dia da entronação na cadeira 10.

Para a mente do Júlio, a vida psicológica se efetiva a partir das memórias mais antigas; talvez, lá pelos quatro anos civis. Para mim, Júlio Dias de Queiroz nasceu na véspera de Natal de 1981, quando recebi a carta dele, escrita cinco dias antes. Foi aí que ele passou a existir pra mim. O mestre tinha encontrado três poemas de minha autoria no Varal Literário da Praça XV, que impressionaram “pela intensidade e pela precisão de linguagem”. Por se sentir identificado comigo, propôs “conversar sobre a poesia, sobre o mundo e sobre a gente.

Durante 34 anos, trocamos cartas e mensagens. E recebi alguns bons puxões de orelha: “Estou fora do linguajar moderno, mas não empregaria “usufruir” para dizer “fruir” ou “gozar”. […] Você é bom demais para cair (três vezes) no linguajar dos ‘cocôs’.

No dia 24 de janeiro de 2016, o Júlio manifestou seu estado de espírito: “Mario, do pouco do que tenho – e não estou sendo falsamente modesto – tenho a obrigação de dividi-lo antes da partida para a outra dimensão do existir, que está muito próxima.

Agora, ouvi dizer que ele morreu… Deve ser mais uma das brincadeiras dele, pois, ultimamente, ele vivia dialogando ludicamente com a morte; se tornaram amigos, se entendiam perfeitamente. Talvez, tenham combinado dar uma volta, fazer um passeio ou mesmo uma viagem mais longa.

Depois que ele comemorou o aniversário de noventa anos, foi aos poucos se retraindo, ficando lacônico, trocando nossas conversas por silêncios misteriosos. Talvez, estivesse realizando um dos últimos desejos: “viver o meu morrer”.

Ficaram alguns assuntos pendentes… Ele cobrava meus romances e eu ia mostrar pra ele os rascunhos de Suçurê; o outro está apenas concebido e inicia a gestação… Também ele, nunca me mostrou o livro que estava escrevendo depois dos noventa… Espero que tenha deixado os manuscritos com a Salma ou com o Celestino…

Levando em conta os silêncios dele – ultimamente –, pra mim vai fazer pouca diferença, pois posso conversar com os livros que ele escreveu, ler a lista de obras indicadas por ele e escrever sempre mais e melhor.

Vai ser bastante difícil o Júlio Dias de Queiroz morrer dentro de mim; ele será eterno…

E pra você? Você acredita no que estão dizendo por aí: que ele morreu? Ou dará vida e continuidade às brilhantes ideias dele?

MENOS AMIGOS, MAIS AMIZADE

                 MENOS AMIGOS, MAIS AMIZADE

A certeza de que a vida é curta aumenta com a idade.

Até os quatro anos, nem sabemos que pensamos.

Até a adolescência, carecemos de consciência moral.

As primeiras décadas transcorrem sem economia de tempo,

pois parece que seremos eternos.

No entanto, a meia-idade vem nos avisar de que a manhã já se foi

e que a tarde se esvai: o vigor físico cede lugar à debilidade.

Tomamos consciência de que o aclive chegou ao fim

e que a ‘melhor idade’ escorre cachoeira a baixo.

Se na juventude esbanjamos energia e corremos atrás de aventuras,

na maturidade, passamos a escolher com cuidado os encontros e as companhias.

E, à medida que a vida avança, os calendários encolhem,

indicando a necessidade de escolhas cada vez mais criteriosas.

Quando nos resta a velhice, passamos a ser avarentos dos nossos últimos tempos.

Já não perdemos tempo com ilusões;

estamos mais preparados para lidar com as mentiras e com propagandas enganosas.

Preferimos refeições leves e roupas mais confortáveis,

independente da moda e da mídia.

Na velhice, contamos com menos amigos, mas com melhor amizade.