A DIALÉTICA DA VIDA

A manhã, ao fornecer a luz,

rompe o repouso da noite;

desperta o aconchego do sono.

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A alegria da primavera

está impregnada de dor,

porque a flor que abre

e o ramo que cresce

precisam romper a si mesmos

para superar o corpo que foram

durante o tempo de recolhimento,

tempo de hibernação.

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O despertar da vida,

de aparente alegria,

traz em si

o rompimento do próprio ser

para que ele possa ser mais…

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A magia da vida está

em entender os ciclos vitais,

a alternância das estações,

a importância própria de cada momento,

que é único e necessário para o seguinte,

que não consegue ser mágico por si só,

por ser apenas um passo a mais

no caminho do todo indivisível

prazer de viver como pessoa feliz.

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A própria morte

traz dentro de si a vida,

pois, a saudade que nos invade

vem grávida da sabedoria de quem se foi,

da consciência de que tudo é efêmero

e de que precisamos viver intensamente

o momento presente,

valorizando as coisas simples e as pessoas,

porque, da vida, só lembraremos

da magia dos encontros humanos.

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A alegria e a dor são

partes de um todo perfeito,

que alterna sofrimento e prazer,

na construção da vida.

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A consciência dessa lógica

nos faz artífices do dia que nasce

e da primavera que floresce.

CÂNCER EM MAMA

Comandantes de instituições religiosas criam interdições (muitas vezes, incompreensíveis), que colocam névoas intelectuais entre as pessoas, dificultando a comunicação e criando o obscurantismo. Somos vítimas, “… seres humanos sacrificados a uma divindade ou em algum rito sagrado.”¹ Vivemos sob os constrangimentos morais dos “bons costumes” decorrentes de estratégias de dominação dos humildes por líderes ‘bondosos’, espertos e prepotentes.

Os dogmas e os mitos descrevem eventos metafísicos, criados por discursos da classe dominante e perpetuados pela oralidade plebeia ágrafa e subservil. As elites governantes inventam categorias sobrenaturais para justificar as transgressões às regras morais usadas para subjugar os súditos. Ou seja, controlam o povo com normas que se permitem burlar para dar plena vazão à corrupção, à devassidão, à libertinagem, à perversão e à exploração de seus semelhantes, como escravos ou fregueses de “determinada paróquia ou freguesia”¹.

Os semideuses da mitologia grega (satiros) e romana (faunos), como os demais semideuses em todos os impérios, leigos ou religiosos, permitiam a si o que proibiam aos comandados. Homens com cabeça de bode (que pensavam como um bode de alta potência sexual) que se permitiam a si mesmos (apenas a si mesmos…) dispensar o bom senso e, sem escrúpulos, liberar os instintos animalescos para praticar vícios e abusos.

A dominação masculina começa ao anexar as mulheres pela linguagem: a palavra ‘homens’ designando mulheres e homens, as fêmeas e os machos da espécie Homo Sapiens. Mitos e regras impostas por homens (masculinos, não-femininos) que, em casos extremos, transformam meninas, moças e mulheres em animais domésticos. O machismo permeia a cultura colonial europeia. (Desconheço os comportamentos de gênero nas demais culturas. E, como não conheci e nem convivi com sociedades matriarcais, fico curioso sobre os comportamentos do femealismo.)

Os tabus influenciam os costumes e, consequentemente, a linguagem.  O uso de eufemismos e de jargões camufla a realidade objetiva (camuflar = disfarçar, enganar), gerando escrúpulos infundados, inquietação mental, subserviência, constrangimento e interdição cultural ou religiosa. A hipocrisia imposta pela língua condena, por tabuísmo, palavras comuns, triviais e vulgares. Ou seja, demonializa objetos naturais e ações corriqueiras do nosso cotidiano.

Podemos tomar como exemplo o generalizado uso da expressão “câncer de mama”.

O tabu exige que, ao falarmos de mamas, usemos o ‘bom senso’, eufemismos, palavras não interditadas pela MORAL: ‘peito’ ou ‘seio’. “Deu o peito ao bebê.” “Tem o peito pequeno.” “Estava com o seio à mostra.” “Machucou o seio.”

Em anatomia, identificamos ‘peito’ como “porção anterior ou ventral do tórax”¹. Daí decorre o absurdo de afirmar que a mulher tem dois peitos. (E as porcas, então, teriam entre doze e dezesseis peitos???) Os rapazes também têm um único peito e duas mamas, em geral, pouco desenvolvidas.

No mesmo dicionário, podemos encontrar que ‘seio’ significa “parte do pescoço e do peito feminino que pode ficar descoberto”¹. (Os humanos machos e machos ‘humanos’ permitem essa sedução…) Ou “parte interna”¹, “cavidade”¹. Nas aulas de Anatomia, aprendi que o ‘seio’ de qualquer pessoa estava localizado sobre o osso esterno, entre as duas mamas. De homens e de mulheres.

Por outro lado, deslembro de ter ouvido expressões como ‘espinho de pé’, ‘câncer de cabeça’, ‘câimbra de perna’, ‘dor de coluna’, ‘cólica de rim’, ‘cólica de útero’, ‘afta de boca’, … Em geral, ouço falar ‘espinho no pé’, ‘câncer na cabeça’, ‘câimbra na perna’, ‘dor na coluna’, ‘cólica nos rins’, ‘cólica no útero’, ‘afta na boca’.

Então, talvez, o mais correto (e menos dissimulado) seria dizer ‘câncer em uma mama’, ‘câncer nas mamas’ ou ‘câncer nas duas mamas’.

Mesmo assim, lamentável que as mamas só possam vir a público quando a mulher já está doente.

¹ Dicionário Eletrônico Houaiss

LIBERDADE INDIVIDUAL E ORDEM PÚBLICA

Há pessoas de todos os tipos…

E, ainda, serão inventados outros…

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Algumas pessoas conseguem viver

desestruturadas, soltas no espaço,

livres, originais, inéditas, sem limites.

A desordem organiza o mundo delas.

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No outro extremo, identificamos

pessoas agoniadas com a perfeição,

que surtam diante de qualquer

imprevisto que ameace a rotina.

Seguindo um trilho, vivem em paz.

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Há quem prefira conhecer

os seus próprios limites

e os limites morais e sociais,

para poder respeitar

e, sempre que for possível,

tentar ampliar seus espaços.

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A sociedade humana

e as coletividades nacionais

estabelecem padrões sociais

de ordem comunitária,

para relações afetivas e

para condutas morais.

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Cabe a cada um de nós escolher

entre seguir as leis e as normas

ou assumir a liberdade absoluta.

Recontagem de ÚLTIMA TRAVESSIA

Ouvi como anedota. Entretanto, o cenário, o tema e a insolência para com o homem humilde provocaram em mim uma reação ética e uma reflexão filosófica.

Um barqueiro ganhava seu sustento transportando pessoas para a outra margem do imenso rio. Não havia pontes. Era o único meio de transporte disponível. Em geral, transportava pessoas conhecidas, moradores das redondezas ou alguém que queria visitar algum familiar que morava além da outra margem.

Porém, num final de tarde, um homem com aspecto muito diferente dos ribeirinhos contratou uma travessia. As roupas e a pasta demonstravam ser uma pessoa da cidade. Mais que isso, cheio de si, parecia orgulhoso, cheio de si, semostrador.

Logo que a canoa saiu do embarcadouro, perguntou:

– Você conhece a Grécia?

– Grécia? Ela mora por aqui?

– Não, não. Não é uma mulher. A Grécia é um país distante e muito importante, porque foi lá que nasceu a Filosofia. Você deveria conhecer. Você não sabe o que está perdendo…

O humilde barqueiro baixou a cabeça. O objetivo dele era bem simples: levar pessoas de uma margem à outra.

– Você sabe Filosofia?

O barqueiro continuou remando, desinteressado dessa outra… possível … Seria outra nação? Seria uma mulher? Uma cidade?

Mesmo entendendo o silêncio e percebendo a inutilidade de lições, o homem explicou:

– A Filosofia investiga os princípios, os fundamentos e as essências da realidade imanente. Você não sabe o que está perdendo…

O barqueiro nem deu ouvidos; permaneceu atento à força da correnteza e aos movimentos arriscados do passageiro que podiam jogar água pra dentro da embarcação.

– Você sabe por que o avião consegue voar?

Pobre homem!!! Nem sabia da existência de aviões… Via muitos pássaros voarem… Até as folhas secas voam levadas pelo vento… Mas… avião… nem imaginava…

– Não. Não sei, não.

– Você não sabe o que está perdendo…

O barqueiro se sentiu mais pobre ainda… Nada possuía e ainda estava perdendo muita coisa…

– Você já leu Lucas Visentini?

– Lucas, eu conheço. Mas, ler o Lucas… Lá isso eu não sei.

– Você não sabe o que está perdendo…

O homem estava mesmo espezinhando o seu transportador.

– Qual a voltagem da energia elétrica por aqui?

O barqueiro ficou ainda mais confuso. Energia, ele até sabia o que era… Voltagem? Seria a volta de alguém? De dona Elétrica, talvez… Tem cada nome por aí…

– Nunca ouvi falar…

– Você não sabe o que está perdendo…

E assim, enquanto o barquinho singrava as turbulentas e agressivas águas do imenso rio, seguiu o desdenhoso interrogatório.

Além dos perigos naturais de se navegar a imensidão do rio em uma minúscula canoa, um iminente naufrágio ameaçava a vida de ambos, por causa da imprudência do passageiro.

No limite de sua paciência, o barqueiro perguntou agressivamente:

– O senhor sabe nadar?

– Nunca precisei aprender… – ironizou.

– Se continuar enchendo a igara de sabença e saracoteando sem parar, a canoa vai virar e o senhor vai perder tudo o que sabe. Até a própria vida…

PENSAR NO IMPENSAR

Nada lembramos do que vivemos

– inconscientemente –

nos primeiros anos de vida.

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Da infância à adolescência,

agimos mais por impulso

que por raciocínio lógico.

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Aos poucos, vamos tomando consciência

de nossos acertos e de nossos erros

e passamos a refletir antes de fazer,

acreditando que construímos o destino

com nossas escolhas, sem responsabilizar

o azar ou a sorte por fracassos ou sucessos.

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Se planejarmos o que iremos fazer

e analisarmos o que fizemos,

poderemos reduzir o volume de erros

e viver sem tantas decepções.

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À medida que envelhecemos,

passamos a pensar mais sobre

o cada vez menos que podemos fazer.

Substituímos espontaneidade e ingenuidade

por responsabilidade crítica.

MOSAICOS

Para Marlene Tessari
Sabedoria de quem une retalhos
para vestir pessoas ou
para pavimentar caminhos.

O poeta alinhava palavras desiguais
em frases estendidas sobre poemas-mosaicos.

Nossas realidades não surgem
como surpresas monolíticas ‘caídas do céu’
ou como criaturas fantásticas que emergem
das águas plácidas de lago desabitado.

Ao contrário:
cada um de nós compõe e recompõe
a realidade (em que imagina viver)
ao organizar e reorganizar fiapos do passado
com novidades que criamos por força de viver.
O tecido resultante dessa costura
sempre será híbrido: mosaico de fragmentos,
com lembranças, ilusões e propósitos.

A realidade individual que inventamos
para nos sentirmos ‘com os pés no chão’
mais parece taipa de pedras irregulares
ou parede de tijolos desiguais
do que estátua de bronze único,
de cor uniforme e aparência morta.

IDEIAS COLETIVAS

Por incrível que pareça, os problemas e as soluções didáticas continuam sendo os mesmos.

A maioria dos instrutores, treinadores, professores e facilitadores ainda continua “dando aula” para si mesma. Doam ou vendem, sem entregar, o ‘saber deles’, a sabedoria particular. Ou seja, a maioria se coloca como centro do processo. Mais que isso: se coloca como quem sabe.

Óbvio, as tecnologias estão cada vez mais diversificadas e mais aprimoradas. Todavia, a didática (pedagogia ou competência oratória) é muito mais um modo como os profissionais buscam, organizam e aplicam as tecnologias, os conteúdos, os fazeres, as pesquisas ou experiências do que a soma de genialidade, tecnologia disponível e sabedoria acumulada.

Existe um número estatístico que aponta para 16% de alunos ou professores realmente conscientes de suas funções e de suas responsabilidades. Dias atrás, troquei mensagens com o autor de um artigo publicado em Profissão Mestre, nas quais eu afirmo que essa era a parcela de pessoas (alunos e professores) que estavam na escola antes de 1967, ano da reforma do ensino que passou a considerar obrigatória a matrícula de todos os jovens de 7 a 14 anos. (Hoje, é dos 6 aos 17 anos) Atualmente, 16% dos alunos e dos professores continuam na escola por opção; os demais, por obrigação.

O som da própria voz é sedutor, encantador. Isto dificulta imensamente a ação do
pedagogo ou de qualquer um que se propõe a ensinar algo pelo canal da fala.
Penso que nossos movimentos também nos encantem; somos vaidosos e acometidos de narcisismos, permanentes ou temporários. Como vencer nosso umbigo e chegar aos outros? Como dosar nossa necessidade de expressão para que ela sirva ao intuito de ensinar?

O poder sempre é sedutor. Políticos, professores e sacerdotes recebem muito poder e – no mais das vezes – confundem a importância da atividade com a importância pessoal, provavelmente, bem menor. Por exemplo, um locutor de rádio ou de televisão acaba envolvido pelo poder da palavra … que nem é dele, é alheia, escrita pelos redatores, lida e logo esquecida. O poder é da média (mídia). Entretanto, muitos se iludem pensando que eles ‘são O Poder’.

Eu mesmo, ao escrever, preciso ter consciência de que as ideias são sempre obras coletivas, geradas no embate intelectual, e não individuais, como que espontâneas. Não. Nunca. Sem o desafio, nós dois – e todos os demais humanos – não pensaríamos, falaríamos e escreveríamos textos edificantes. Você é provocação. Eu sou provocação. Os fatos nos provocam e … no confronto das opiniões, construímos ‘grandes’ ideias. Por isso, os que não aceitam contradições nada criam. Para germinar, a criatividade precisa do diferente, do oposto, do inusitado, do ridículo, do incompleto… O inédito nasce da diversidade e da discordância.

PRIMEIRO DIA DE UM ANO

Pode ser que, distraídos pelos fogos de artifício ou pelas alegrias artificiais, tenhamos esquecido que hoje é Dia de Ação de Graça, dia de agir sem cobrar, de ajudar os outros sem pensar em si.

E, principalmente, dia de agradecer.

Agradecer a nós mesmos pelo que fizemos bem e agradecer a todos que nos ajudaram a acertar e/ou nos indicaram os perigos de errar.

Agradecer pelas dádivas que a Vida disponibilizou gratuitamente e pelas recompensas por termos trabalhado com planejamento, responsabilidade, persistência e abnegação.

Em especial, dia de agradecer que podemos iniciar mais um ano de boas ações.

05.09 / 01.01.2021