Nova Trento

Carta aos alunos da Escola Francisco Mazzola, em 17 de agosto de 2002

“Cada ser carrega em si o dom de ser capaz, de ser feliz.”    Almir Sater

O conhecimento nos leva à existência.

Antes de estar com vocês, eu não os conhecia e, provavelmente, vocês não me conheciam. Por isso, não existíamos um para o outro. Não podíamos pensar um no outro, porque não tínhamos uma idéia do outro ainda não conhecido. Há magia no ato de conhecer: o ato de conhecer dá existência a quem e ao que assumimos como conhecido. Só agora existimos um para o outro. Logo, a existência não é uma decisão individual; ela é uma construção coletiva.

Como quando conversamos, no início desta semana, vou analisar algumas palavras. Falamos em amizade e ela me transporta para a palavra comunhão: a união dos que têm objetivos comuns, crenças comuns; os mesmos ideais. E comunicação é o agir coletivo dos que comungam dos mesmos ideais. Já confusão quer dizer aquilo que se fundiu, se misturou, que perdeu a ordem; incapacidade de reconhecer diferenças, falta de clareza.

Precisamos estar em comunhão sem nos fundir com o outro, sem nos anular. O “nós” é constituído da união dos “eu”. Precisamos estar juntos, construir juntos, mas sem perder a nossa identidade. Jamais haverá um “nós” forte se não construirmos um “eu” sólido e solidário. A sociedade será tão ética e tão cooperativa quanto éticos e cooperativos forem seus sócios.

Falamos também na palavra competência: “qualidade de quem é capaz de apreciar e resolver certo assunto, fazer determinada coisa, …”  Uma das metas que a maioria de vocês estabeleceu, para esse ano, foi “passar de ano”. Vocês têm competência para “passar de ano”, porque são capazes de analisar e dar solução para todas as tarefas escolares.

O ano passa todo mês, toda semana, todo dia, toda hora, todo minuto, todo segundo… Por isso, a todo momento, precisamos fazer o que precisa ser feito, da melhor maneira que pudermos e com prazer. Só podemos ter interesse e sentir prazer por aquilo que conhecemos, a começar por nós mesmos. Conhecer a nós mesmos é tomar consciência de nossas capacidades, de nossas habilidades e principalmente do que queremos, do nosso projeto de vida. Conhecer a nós mesmos implica em tomar consciência de como e de quando sentimos alegria ou tristeza, de como e de quando aprendemos, de como nos vemos e de como somos vistos.

Somos estranhos de nós mesmos: não reconhecemos as nossas reais capacidades e acabamos nos subestimando, nos fazendo menores do que somos. Por isso, fazemos menos e vivemos menos.

Outra meta estabelecida “para a vida toda”, pela maioria, foi: ser feliz.

Felicidade não é um lugar no futuro. Em cada momento, em cada lugar e com cada pessoa, a felicidade é outra. As felicidades são muitas. E estão à nossa disposição. A felicidade é como a água de uma fonte: vai passando pelas nossas mãos. Só conseguimos aproveitar uma pequena porção da água; a maior parte vai embora. Quando estamos com muita sede, toda água é boa. Parece que nossa sede de felicidade é pequena, porque deixamos que a felicidade cotidiana escorra pelos nossos dedos, esperando por uma felicidade perfeita, que está à nossa espera, em algum lugar, no futuro. Precisamos aproveitar e viver a felicidade de agora, com as pessoas com quem estamos, senão essa chance se perde e não poderemos mais viver o momento que passou.

Amigo não é aquele que aceita o outro como o outro é. Amigo é aquele que, conhecendo o outro, valoriza as qualidades do amigo e que propõe, com ele, trabalhar para reduzir os defeitos e preencher as falhas. Amigos constroem, em conjunto, os conhecimentos, as habilidades e os valores necessários à felicidade.

Juntos, vamos construir as competências necessárias para uma vida feliz.

Mario Tessari

SER-VIL

ESCOLAS DE ENSINAR E APRENDIZAGENS PRAGMÁTICAS

As escolas de ensinar colocam muros ao redor dos prédios para proteger a verdade acadêmica e a ‘sabedoria consagrada’, do ‘perigo’ de serem entendidas e depreciadas por leigos. Essas escolas e os profissionais que nelas trabalham dependem de leis, de instituições organizadoras e de vigilantes que mantenham e que defendam o ‘ensino tradicional’.

Segundo o Dicionário Houaiss, tradição pode significar “ato ou efeito de transmitir ou entregar; transferência; herança cultural, legado de crenças …; conjunto de valores morais […] transmitidos de geração em geração; em certas religiões, conjunto de doutrinas essenciais ou dogmas […] aceitos por sua ortodoxia e autoridade […] na interpretação (dos fatos)”.

As escolas tradicionais exigem disciplina, frequência e notas mínimas nas provas e nas arguições. Como recompensa pelo sacrifício dos alunos, oferece ajudas financeiras, oportunidades de emprego e diplomas com promessas de maiores salários. Nesse sistema, quem obedecer e seguir estritamente as regras institucionais será considerado bom aluno, mesmo que as teorias acadêmicas possam ser aplicadas apenas em processos escolares e em classificações de intelectualidade.

As turmas do ‘ensino oficial’ são diminutas para proporcionar mais cargos de magistério. Uma turma de vinte energias será menos fecunda do que uma turma de quarenta energias. Porém, mais difícil de convencer e de dominar. Há ensinantes demais, muitos deles, descolados das realidades dos alunos e da comunidade. Nos concursos do magistério, os candidatos buscam boa remuneração e estabilidade funcional, com raríssimas exceções de vocação educadora altruísta.

Organizar o saber e a aprendizagem sobressai como virtude rara dentro e fora das paredes escolares. Sentimos prazer ao aprender; sorrimos de alegria a cada pequena aprendizagem. Podemos aprender sozinhos; na troca de experiências e de ideias, aprendemos mais, com maior rapidez e melhor qualidade. Os aprendizes buscam oportunidades de satisfazer as curiosidades e de resolver os problemas, naturais ou por eles mesmos propostos. Desnecessário cercar e exigir que estudem; estudam sem esforços e estimulam quem com eles convive a desenvolverem atitudes e habilidades.

Aprender resulta em maior e melhor contentamento do que o que sentimos ao sermos ensinados. Ao aprender, resolvemos problemas, satisfazemos necessidades e realizamos nossas potencialidades.

CURSO SALUTAR (para nossa saúde)

   Dor no braço? Qual deles? Importa saber qual braço? O nome da doença? Quando começa doer? Quando alivia? Por que?
Isso é um problema? Quem resolve esse problema? O médico? Os medicamentos? Anestesiar a dor ou descobrir e evitar a causa?
Como era aos vinte anos? Como começou? Qual a tendência? Como prevenir? Ou é melhor esperar o braço cair? O que fazer? Cirurgia? Consumir enganadores das doenças? Ou mudar as atitudes? Reconhecer o envelhecimento e os limites físicos e orgânicos? O que o corpo nos fala? Melhor calar as reclamações do corpo ou tomar consciência dos desgastes pelo excesso de trabalho, pelo estresse?
Quem nos aposenta? O Governo, as empresas ou nós é que devemos saber o momento de reduzir a carga, de fazer diferente, de fazer menos, nos aposentar aos poucos e, depois definitivamente? Vamos planejar a aposentadoria ou aguardamos os ‘prazos legais’? Depois de aposentados vamos viver nos aposentos ou vamos manter o corpo e a mente ativos?
Posso fazer sem ajuda ou vou pedir e contar com ajuda? Continuo ‘sabendo tudo’ ou será mais produtivo dialogar, ouvir pessoas? Ideias coletivas, trabalho em equipe? Heroísmo individual ou trabalho feito por muitas mãos, com humildade e vontade de cooperar?

O PREÇO DOS MORTOS

Como nossos antepassados se sentiam diante da morte e diante do corpo morto de um familiar? Como nos sentimos diante da morte de um amigo? O mesmo que sentimos na morte de um inimigo? Se uma pessoa morrer dentro de nossa casa, deixaremos o corpo ali até só sobrarem os ossos? As doenças que matam continuam ativas nos cadáveres? Há vida após a morte? Acreditamos em reencarnação? No mesmo corpo ou em outro corpo? Ou a alma vai pro céu e fica esperando que o corpo consiga subir pra lá também?

Sou um perguntador quase incansável… Respostas, explicações? Imagino algumas, registro poucas, … Tenho ideias sobre a morte: minha, da Elisa, de outras pessoas importantes para mim, de pessoas com quem mantenho parcerias, de vizinhos, de desconhecidos e de lixos humanos. Vivi algumas experiências de morte na família, de pessoa ao meu lado, de jovens muito jovens pra morrer, de pessoas que prolongam a morte e de outros que antecipam o fim das decepções e dos sofrimentos. Penso muito e tento racionalizar, aceitar que todos morrem. Mesmo assim, sei que essas preparações podem ser insuficientes para suportar a ‘hora derradeira’.

Assisti cenas chocantes de animais ‘irracionais’ diante da morte de um indivíduo do grupo: as reações do grupo às demonstrações de sofrimento do enfermo, do acidentado, do moribundo; a perplexidade e o estranhamento diante da paralisia de um seu semelhante. Será que eles pensam que o outro está morto? Será que eles guardam na memória esses momentos trágicos? Vi animais com medo de morrer e li análises sobre situações registradas. Por observação, sei que os animais têm intuição muito atuante diante de eventos climáticos e de catástrofes. Parece que eles sabem com antecedência quando haverá um terremoto, uma enxurrada, uma avalanche. O que sente uma ave ao presenciar a morte de outra? Alguma espécie de animal ‘irracional’ passa uma noite observando se seu semelhante morreu de fato?

Durante o Século XX, eram construídas casas com salas grandes o suficiente para caber o velório dos familiares, com espaço para caixão, cruz, castiçais, cadeiras e mesa com alimentos para os que ainda não morreram. Ironicamente, durante os anos sem morte na família, a sala do velório era usada como ‘sala de televisão’. Quando, eventualmente, morria um dos residentes, a televisão era retirada para entrar outra morte: o defunto. A televisão mata os diálogos entre os familiares e induz a morte do pensamento crítico.

Outra tradição era velar a pessoa por, pelo menos, vinte e quatro horas. Diziam que era para ‘observar se a pessoa estava morta, mesmo’, ou seja, ela poderia estar numa crise cataléptica. Preocupação baseada em relatos de exumações em que ‘o corpo estava fora de posição’, porque ‘tinha se revirado depois do enterro’.

Lembrando que as flores e as velas são usadas nos ‘guardamentos’ para disfarçar o cheiro do cadáver; catinga natural do ex-vivente e/ou, logo a seguir, indicativo do início de decomposição.

Além dessas crenças e heranças culturais, havia a hipocrisia regada a cachaça e a café. Com a morte, todos ‘se tornavam bons’. Pessoas que ignoravam ou até odiavam quem morreu compareciam ao velório e participavam do enterro. Os primeiros, na ilusão de recuperar os momentos que ‘perderam’ de conviver; os segundos, para terem certeza que o desafeto estava morto, mesmo. Enquanto vivos, temos algum poder, que pode delimitar o poder de outrem. A morte distribui poderes para amigos e para inimigos. Nos jogos de poder, os vazios são ocupados pelos que ainda não morreram. E, quando morrerem, também deixarão vazios.

Em alguns países, em algumas etnias e, em especial, em algumas classes sociais, os cadáveres são mantidos por dias em espaço público para dar tempo de ‘receberem todas as homenagens’. Atitudes similares a participar dos funerais para recuperar o tempo perdido ou o ‘amor’ de quem  morreu. Porque não homenagearam o defunto em vida? Para não dar a ele mais poderes; homenagens pressupõem prestígio, valor social. Podemos elogiar, enaltecer e glorificar os mortos, sem risco de cedermos poder e de ficarmos menos poderosos que eles.

Acredito que, já há milhares de anos, os animais (incluindo o sapiens insapiens) se afastavam dos cadáveres porque percebiam que as doenças poderiam ser transmitidas, mesmo após a morte; ou seja, bacilos, bactérias e vírus continuavam atacando. Mesmo o chorume e as ossadas podiam transmitir doenças infecciosas. Em algumas regiões, havia cemitérios separados (especiais) para leprosos. Talvez, também para outras doenças epidêmicas. A cremação resolve esse e outros problemas.

Em todas as épocas e em todos os continentes, alguns povos enterravam e outros cremavam seus mortos. Talvez, os povos nômades abandonassem os cadáveres e as possíveis doenças latentes; e evitassem, também, o trabalho de enterrar ou de cremar seus mortos. Os mais pobres, até hoje, recebem apenas ‘sete palmos de terra’ sobre o caixão.

Enterrar ou cremar tem custos financeiros: o preço dos caixões, dos túmulos, das lápides de mármore e das capelas. Muitas pessoas reservam dinheiro para a compra do terreno e para a construção do sepulcro ou elas mesmas constroem o jazigo em que querem que depositem o corpo delas; de simples sepulcros a mausoléus imponentes, como as pirâmides. Em alguns casos, os monumentos fúnebres superam as residências em valor e em investimentos; essas pessoas gastam mais com a morte do que para bem viver.

Em geral, os familiares cuidam dos túmulos, capelas e mausoléus. Durante minha juventude, sob o comando da Nonna Luiza, lavei muita cruz e muito mármore. A água era levada sobre carroça puxada por bois, dentro de tambores de ferro; precisava economizar… Também, para ‘economizar, a família comprava ou confeccionava coroas de arame e lata. Assim, no mês de setembro, as coroas eram retiradas do cemitério, passavam por limpeza geral e pelas reformas necessárias, recebiam nova demão de tinta a óleo e voltavam para o cemitério na segunda quinzena de outubro. As cercas também eram consertadas e pintadas.

Mesmo assim, os ossos dos que-já-se-foram não descansavam em paz. Nos primeiros dias após o sepultamento, os tatus-rabo-mole removiam a terra e devoravam os ‘restos mortais’. As formigas saúvas atacavam em qualquer época, formando grandes depósitos de terra vermelha entre os túmulos. Esses animais também espalhavam doenças.

Durante a pandemia de COVID, foram proibidos os velórios e, na sequência, foram promulgadas leis que regulamentam as cerimônias fúnebres, sem ‘guardamentos noturnos’. Assim, são evitados muitos desgastes inúteis e reduzida a transmissão de doenças.

ESPÍRITOS

ENXERGAR O QUE VÊ

Quando compramos o direito de habitar o Sítio Itaguá, em 2005, havia uma ‘casa de madeira de lei’, assoalho de tábuas alternadas de canela-preta e de peroba-rosa; lindo de se ver! Toda a armação do telhado em peroba-rosa, com ‘tesouras’ encaixadas no capricho e telhado do tempo das sesmarias, de telhas-calhas feitas a mão. Com janelas e a porta da frente “fabricadas em marcenaria”, porém, as portas internas foram “feitas em casa”.

Casa construída em 1977, pelo Antônio Vieira e pela Helena Felisbino, irmã do Lauro, casado com Maria Jovina da Cruz.

A água potável descia da montanha, descansava numa caixa sobre uma torre de tijolos cimentados em cruz até a altura de três metros e meio, assentada sobre uma grande pedra firme. Descia dali por canos de PVC para abastecer a cozinha e o banheiro. A torre original, em tijolos irregulares ‘de quatro furos’, recebeu ao lado, colada a ela com massa de cimento, uma torre mais recente (2003?), de tijolos ‘com seis furos’, assentada em parte (só em parte…) sobre uma pedra menor, talvez colocada ali. Nunca entendemos o porquê dessa maracutaia.

Uma das dificuldades que enfrentávamos com a casa de madeira era o pretume sobre a tinta que cobria as tábuas das paredes. Renovamos a pintura e a situação piorou, até. As portas internas, maciças, estavam revesadas, além de vários problemas no banheiro. A ameaça de cupins também assustava. Por isso, dois anos depois, construímos uma casa totalmente em alvenaria e com janelas de vidros temperados, com exceção das portas internas.

Iniciamos reformando o capril construído pelo Gasparino de Souza Mateus, onde foi instalado um vaso sanitário para o uso dos construtores contratados. Com a inauguração da ‘casa nova’, em 2007, a velha caixa d’água passou a servir apenas para essa latrina e para a torneira do tanque ‘de fora’. A partir dessa data, durante dezessete anos, cuidamos dessa caixa d’água antiga e alta; alta para que, entre 1977 e 2003, a água chegasse com pressão à casa antiga, distante quinze metros.

Em 2024, percebemos que a torre ‘nova’ estava descolando da torre velha, ameaçando desabar com a caixa d’água. Inicialmente, pensamos que teria sido a força do vento. Depois, percebemos que a base havia se soltado da pequena pedra e afundava o lado oposto na terra.

Colocamos uma escorra provisória e, em seguida, colhemos um bambu-chinês bem maduro para garantir a sustentação. Estávamos nessa lida quando me ocorreu que as saídas de água em uso estavam dois metros abaixo; estávamos mantendo um ‘monstro’ desnecessário e perigoso. Então, deixamos a água escorrer, retiramos a torre em queda, cortamos a outra pela metade e, sobre ela, recolocamos a caixa d’água sobre essa base baixa.

Com essa modificação, aproveito aprender sobre as dinâmicas existenciais. Ou, antes, sobre as dificuldades de ver o óbvio, de mudar na mudança. Durante dezessete anos, enfrentamos dificuldades por algo desnecessário, perigos e trabalhos que poderiam ter sido evitados desde aquela época. Trabalheira, acidentes, riscos.

PIOLHENTO

Em Ipoméia, os adultos contavam e repetiam a história da “Véia Pina” e do “Celestino Pancada” toda vez que uma criança insistisse em implicar com os colegas ou na prática de maldades sem nexo. A história era usada como fábula, com função moral de corrigir comportamentos.

Nos tempos atuais, seria preconceito com ela e boas reflexões sobre o nome dele: Celestino, porque ‘merecia o céu’ de tanta pancada que recebeu na vida? Piolhento, dizia ela.

Relatavam um evento fatídico que ficou impresso em nossas memórias. Nunca lembrei de perguntar quem de fato eram, se tiveram filhos, do que viviam. Nem mesmo o nome civil completo dos dois. Lembro apenas que a casa deles ficava na barranca da margem direita do Rio Preto, a meio caminho entre a vila e o moinho. Era uma faixa estreita de chão batido e varrido, com uma casa de madeira escurecida pelas intempéries durante muito tempo.

Diziam que ela vivia implicando com o marido, debicando, enticando e chamando de piolhento. Diziam que a vida conjugal deles sempre teria sido assim: ela depreciando o marido e ele suportando tudo calado.

Naquele dia, ela teria chamado e apontado para a algo invisível no meio do rio. Ele teria olhado o ponto apontado, com atenção, forçando as vistas. E ela, aproveitando a concentração dele no inexistente apontado, embalou carreira pra empurrar o marido pra morte. Ele, porém, escutou os passos acelerados dela e, no momento que seria empurrado, saiu de lado, deixando que a mulher passasse a toda e caísse na água profunda do rio.

Ela, mesmo submersa e se afogando, ainda punha as mãos pra fora da água e fazia o gesto de quem esmaga piolho entre as unhas dos polegares.

GRAMÁTICA PESSOAL

Gramática para uso pessoal de Mario Tessari.

Especialistas em gramática assumem o papel de policiais e avocam para si o direito de disciplinar as escritas dos usuários da Língua Portuguesa. Para sorte dos falantes, ainda há alguma liberdade na prosódia, na ortoépia e na ortofonia.

A maioria dos gramáticos categoriza todos os sinais impressos como ‘ortográficos’. A Ortografia disciplina a grafia ‘correta’ das ‘palavras’, usando as letras do alfabeto latino conforme um conjunto de regras estabelecidas pela gramática normativa. Algumas palavras recebem sinais gráficos complementares usados para indicar valores fonéticos específicos para determinadas letras: os acentos (agudo, grave ou circunflexo), o cedilha, o til e o trema; o hífen une elementos de palavras compostas.

No entanto, os sinais ‘de pontuação’ (vírgula, ponto, dois-pontos, ponto-e-vírgula, ponto de exclamação, ponto de interrogação, reticências, parênteses, aspas e travessão), criados para facilitar a leitura e o entendimento das ideias, são utensílios da Sintaxe (conjunto de regras da estrutura linguística) e da Análise Sintática (estudo das funções das palavras e das orações em uma frase).

Por exemplo, a vírgula pode substituir a conjunção ‘e’ na função de unir “vocábulos ou orações de mesmo valor sintático” [Dicionário Eletrônico Houaiss]. Ao invés de escrevermos: ‘Anna e Marcos e Tadeu estão lendo essa análise.’ e ‘José preparou a terra e plantou as sementes e adubou as plantas e colheu boa safra.’, podemos escrever ‘Anna, Marcos e Tadeu estão lendo essa análise.’ e ‘José preparou a terra, plantou as sementes, adubou as plantas e colheu boa safra.’, evitando, assim, a repetição excessiva da conjunção ‘e’.

A Ortografia estabelece regras ‘oficiais’ de como as palavras devem ser escritas, diferenciando ‘escritas populares’ de ‘escritas eruditas’. Porém, não prescreve padrões de sintaxe, de textos ou de estilos literários.

Os professores de gramática são formados por academias científicas com a responsabilidade de professar a ‘pureza gramatical’ e as academias literárias escolhem seus membros dentre os que obedecem a padrões eruditos, como a ortografia e o formato dos textos (prosa, poema, conto, novela, romance).

Os linguistas analisam a funcionalidade da linguagem falada e/ou escrita, a evolução e a diversificação dos sistemas de representação do pensamento humano.

PARELALISMO SINTÁTICO

Eu dou importância relativa às regras gramaticais e, em alguns pontos, discordo de gramáticos, de acadêmicos, de editores e de críticos literários. Ao invés de perder tempo com arbitrariedades ‘legais’, estudo, analiso e sigo os princípios universais da Linguística, das lógicas estruturais das palavras, das frases e dos textos, conforme a finalidade a que se destinam.

Para meu uso pessoal, com o objetivo consciente de facilitar para o leitor o acesso direto e sem sofrimento às ideias que coloco em palavras, releio várias vezes o que escrevo, peço opinião de leitores exigentes, aguardo a ‘maturação’ dos textos e, só então, publico. Tento, desse modo, evitar ‘abortos literários’.

Um dos meus cuidados está no paralelismo sintático, como eu explico a seguir.

Analisando as frases:

  1. Estão convocados Maria e Paulo. Estão convocados a Maria e o Paulo.
  2. Ana e Ivo estudam a linguagem escrita. A Ana e o Ivo estudam a linguagem escrita.
  3. Cesar gosta de ler e de escrever.

Nos três casos, há aglutinação de orações ligadas pela conjunção ‘e’, conectivo que correlaciona dois termos na mesma oração ou duas orações de um mesmo período.

As orações ‘Está convocada Maria.’ e ‘Está convocado Paulo.’ foram sintetizadas em ‘Estão convocados Maria e Paulo.’ De forma análoga, ‘Está convocada a Maria.’ e ‘Está convocado o Paulo.’ foi reduzida a ‘Estão convocados a Maria e o Paulo.’ ‘Ana estuda a linguagem escrita.’ e ‘Ivo estuda a linguagem escrita.’ Então, ‘Ana e Ivo estudam a linguagem escrita.’

Cesar gosta de ler e, também, gosta de escrever. Numa só oração, ‘Cesar gosta de ler e de escrever’. Sem o ‘de’ (sem paralelismo sintático: ‘Cesar gosta de ler e escrever.’), pode ser que ‘Cesar gosta de ler e escrever virou consequência’. Ou que ‘Cesar gosta de ler e escrever ficou mais fácil para ele’.

Em ‘Estão convocados a Maria e o Paulo.’, a presença dos artigos definidos indica que as duas pessoas (ou personagens) são conhecidas (e reconhecidas) pelo escritor e pelo leitor. A ausência dos artigos ‘a’ e ‘o’ deixa em aberto a identidade dos sujeitos. Por outro lado, podemos usar artigos indefinidos: ‘Estão convocados uma Maria e um Paulo.’ São opções, por questão de necessidade, de escolha ou de estilo.

Porém, escrever ‘Estão convocados a Maria e Paulo.’ indicaria que o escritor alterna as regras conforme ‘sua vontade’; óbvio, se estiver consciente de como escreve… ‘Está convocada a Maria.’ e ‘Está convocado Paulo.’; um, determinado e o outro, não. Parece que a frase continuaria: ‘Está convocada a Maria e Paulo sabe disso.’

Você já viu escrito ou ouviu dizer “Gosto disso e aquilo.”? É normal ler ou ouvir “Gosto disso e daquilo.”, porque é a lógica linguística, a linguagem natural, sem afetação. Caso contrário, parece que a frase continuaria, como em “Gosto disso e aquilo me repugna.”

A PONTUAÇÃO NA PRÁTICA LITERÁRIA

Posso usar dois-pontos (:), ponto-e-vírgula (;) ou ponto e vírgula (. e ,). Na prática, uso vírgula e ponto (, e .), nessa sequência. Nas frases, uso vírgula para separar ideias que complementam a oração principal, ponto-e-vírgula para incluir ideias divergentes ou paralelas, ponto para indicar que completei o enunciado e ponto-final para encerrar o assunto.

Ao afirmar que o ponto-e-vírgula (;) é “sinal de pontuação que indica pausa mais forte que a da vírgula e menos que a do ponto”, o dicionarista obrigaria o gago a colocar ponto-e-vírgula a cada ‘pausa gaguejada’, além de uma procissão de vírgulas, para as pausas ‘menos fortes’. O especialista deixa outro desafio: mensurar as pausas (“mais forte que a da vírgula e menos que a do ponto”). Imagino que as pausas possam ser breves ou longas. Como seriam pausas fracas ou fortes?

Mais preocupantes ainda são as afirmações que a vírgula é uma “ligeira pausa para respirar”. Provavelmente, esses autores sejam biólogos preocupados com nossa fisiologia respiratória.

RETICÊNCIAS

As reticências, além das funções técnico-linguísticas, podem ser usadas como recurso estilístico. Vai depender se as reticências são dúvidas da palavra… ou indecisões das ideias …

No caso, estou indicando ceticismo, dissimulação, hesitação, indeterminação da palavra… ou a omissão de algo que deixo de escrever para que o leitor continue … a frase por conta dele. Ou seja, deixo o leitor decidir como continua a ideia.

Também uso reticências para indicar uma ‘pausa emocional’ (aposiopese) ou uma insinuação.

Nesses trechos de Suçurê, aparecem reticências em:

“— Vejo que a aliança ainda está no dedo… Logo … para o povo daqui, a situação continua na mesma: só mistério.” (P. 485)

“— Mesmo assim, o Icobé vai ficar sozinho e não sabe lidar com o gado; a gente vai deixar tudo organizado, pra ele apenas atender alguma eventualidade. Por falar nisso, seria bom se você, Icobé, pudesse dar seu passeio de reconhecimento agora pela manhã porque cismo de saber que você saia por aí sozinho… Pode lhe acontecer algo e … – opinou Genuíno.

— Boa ideia! Vou encilhar o Zaino e dar uma volta pela invernada. Mas não demoro… – concordou Icobé.” (P. 504)

“— Tem que ver… – ponderou o capataz. Eu devo me afastar por uns dias… O João não pode ficar solito por muito tempo…

— Si desse … fais tempo qui num falo c´a mana Maria Rosa … – choramingou o Silvino.” (P. 505)

“— Não sou eu que procuro antes de ser chamado. São eles que me perturbam com vozes estranhas…

— Estranhas, porém bem audíveis, claras, pois indicam quem é e o local exato em que estão …” (P. 605)

O USO DA VÍRGULA ANTES DO PRONOME RELATIVO ‘QUE’

1. Os senadores que foram eleitos no último dia 15 tomarão posse hoje.

2. É difícil encontrar os gatos que fogem de casa durante a noite.

3. O povo cobra dos senadores, que foram eleitos democraticamente, a responsabilidade política.

4. Os gatos, que são venerados desde o tempo dos faraós, preferem viver livres, sem coleiras.

Nas duas primeiras frases, o pronome ‘que’ indica a delimitação dos sujeitos, através de oração subordinada restritiva, com função de adjunto adnominal da palavra antecedente, indispensável para expressar o sentido pretendido. Sem vírgula; ligadas diretamente aos sujeitos das orações.

1a. Apenas os senadores que foram eleitos no último dia 15 tomarão posse hoje.

2a. É difícil encontrar apenas os gatos que fogem de casa durante a noite.

Nas duas últimas, o pronome relativo ‘que’ é usado para iniciar uma explicação (oração subordinada adjetiva explicativa); oração opcional que acrescenta uma informação complementar, com características dos sujeitos, que continuam os mesmos. Deve ser escrita ‘entre vírgulas’.

3a. O povo cobra dos senadores[, os quais foram eleitos democraticamente,] a responsabilidade política.

3b. O povo cobra dos senadores a responsabilidade política.

4a. Os gatos[, os quais são venerados desde o tempo dos faraós,] preferem viver livres, sem coleiras.

4b. Os gatos preferem viver livres, sem coleiras.

USO DE LETRAS MAIÚSCULAS

Escrevo siglas em letras maiúsculas. Uso letras maiúsculas para iniciar nomes próprios; tecnicamente, substantivos próprios. Escrevo Antônio (nome da pessoa) e os antônios (todas as pessoas de nome Antônio); o Brasil e os vários brasis; o Estado (substituto de substantivo próprio) e os estados (substantivo usado para designar nações em comum).

Uma palavra composta é um vocábulo resultante da junção de duas ou mais palavras. Se uma palavra composta exercer a função de substantivo próprio, deverá ser grafada com letra inicial maiúscula: Serra-abaixo, Serra-acima, Baia-norte, Baia-sul, …

EXEMPLOS DE USO DE HÍFEN

Abelha-sem-ferrão é palavra composta (substantivo) que nomeia abelhas com uma característica específica: uma espécie de abelha. E abelha sem ferrão é locução substantiva usada para designar a abelha que perdeu o ferrão.

Se for nome da espécie, deve ser escrito ‘uruçu-amarela’. Se determinada espécie de uruçu tiver indivíduos uns pretos e outros amarelos, haverá abelhas uruçu pretas e abelhas uruçu amarelas. Mirim-guaçu preta e mirim-guaçu amarela; manduri preta e manduri amarela; porque as espécies são denominadas mirim-guaçu e manduri, respectivamente.

É questionável que os meliponíneos não possuam ferrões; todavia, com certeza, não ferroam. Logo, a locução deveria ser: abelha que não ferroa. Abelha-sem-ferrão ou abelha-da-terra: espécie de abelhas dos gêneros melípona, trigona, … Uma abelha do gênero Apis que deixou o ferrão em alguém será uma ‘abelha sem ferrão’. Se os chifres de um boi forem decepados, teremos um ‘boi sem chifres’. Os que já nascem mochos serão bois-sem-chifres.

Batata-doce é uma espécie vegetal; batata doce pode ser uma batata adoçada. Boca-de-leão: uma flor; boca de leão: abertura inicial do tubo digestivo do ‘rei dos animais’. Copo-de-leite nomeia uma flor e ‘copo de leite’ é uma porção de leite que pode estar num copo ou em outra vasilha; a expressão se refere à quantidade do alimento. Ponto-e-vírgula nomeia um sinal de pontuação; ponto e vírgula são dois sinais de pontuação.

Mesmo depois da última Reforma Ortográfica, as palavras compostas que designam espécies animais ou vegetais continuam sendo grafadas com hífen: bem-te-vi, copo-de-leite, boca-de-renda, porco-bravo, porco-do-mato, aroeira-folha-de-salso, uruçu-boi, formiga-açucareira, formiga-cabeça-de-vidro, …

SEO OU SEU

A palavra ‘seu’ é pronome possessivo.

Eu uso ‘seo’ para traduzir a pronúncia caipira de ‘senhor’. A fala coloquial abrevia as palavras, ‘comendo letras’, economizando tempo e voz, através de síncopes, pronunciando apenas as ‘essências’ da palavra. Maior / mor, senhor / seo, está / tá, estive / tive, em boa hora / embora, … Logo, ‘seo’ – síncope da palavra senhor – é pronome de tratamento. Da mesma forma, ao transcrever falas, uso sinhá ou siá, para designar senhora. Quem escreve ‘seu’ José, deveria, também, escrever ‘sua’ Maria em vez de escrever ‘dona’ Maria.

ETCÉTERA

Et cetera, do Latim, significa “e outras coisas, e assim por diante, …”

A abreviatura (etc.) já vem precedida do conetivo ‘e’ (et). Logo, não uso vírgula antes de ‘etc’. Aliás, uso reticências ao invés de usar etcétera. Deixo o ‘et cetera’ para os romanos. Sou de época mais recente.

ASPAS

Uso aspas duplas para indicar trecho de outro autor ou de outro texto meu. Para destacar palavras ou expressões, uso aspas simples, caracteres em tipo itálico ou palavras em caixa-alta.

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APRENDER PRATICAR SABER

       APRENDER PRATICAR SABER

Você sabe ler?

Sei, sim senhor.

Sei.

Mais ou menos.

Não sei, não.

Pergunta banalizada na boca

de quem julga saber;

de quem julga o saber.

Pergunta impensada;

resposta protocolar

cumprindo formalidade.

A maioria que aprendeu a ler

pratica apenas leituras rasas

de placas, de preços e de moedas.

A maioria lê o de sobrevivência

e o de interesse, o de lucro.

Mas, poucos praticam

analisar ideias escritas.

Leituras ativam memórias,

geram sentimentos,

traduzem o que foi escrito,

aceitam, acrescentam ou restringem,

mudam a cor dos significados.

Inventar ideias a partir de

ideias gravadas no papel…

Quem é que pratica?

Desafios físicos e aventuras

são jogos nas idades de vigor.

Quais as dinâmicas na velhice?

Quando o corpo pouco age e reage?

Feliz quem sabe aprender na velhice

a praticar jogos mentais e se encanta

com segredos que as letras revelam.

Mais feliz ainda quem exerce o desafio

de esconder ideias nas dobras das palavras.

Quem sabe proclamar, na velhice,

a sabedoria construída aos poucos?

Quem consegue manter a mente jovem?