VÍTIMA DA HOSPITALIDADE

Quando menino, minha mãe me mandou levar alguma coisa para a casa de uma família de descendentes de alemães. Como minha mãe ganhava dinheiro costurando, deve ter sido para entregar algum vestido, camisa ou calça encomendada. Fui um pouco antes do meio-dia.

Eu conhecia ‘de longe’ a família de tons meio dourados, na pele e nos cabelos. As sardas – ilhas de pigmento mais adensado que, agora, o dicionário me conta que são ‘efélides’ ou lentigos’ – cobriam parte dos rostos, com maior concentração nas áreas mais expostas à luz solar, e cabelos entre louros e ruivos cobriam as cabeças. Os sotaques pronunciadamente germânicos completavam as nossas disparidades.

Ah! E eles costumavam almoçar cedo. E estavam almoçando. E minha timidez não encontrou palavras para me livrar do convite quase autoritário.

Mais uma diferença cultural. Os meninos De Negri se serviam do que escolhessem à mesa e nas quantidades desejadas; a mamãe loura serviu o prato de cada menino. Inclusive, o meu.

A bondosa mulher colocou diante de mim um pouco de arroz e diversas bolas de sangue brilhante, que ia tingindo o prato, o garfo e o arroz. Me senti encurralado. Meus pais nos disciplinaram a sermos muito corteses, afáveis, até. Entretanto, aquele sangue vermelho vivo trancava de náuseas a minha garganta.

Depois de um longo exercício mental – que eles tomaram como tempo em que eu rezava em silêncio… – garfei a primeira bola rubra, me concentrei, fechei os olhos e enchi a boca… com um gosto desconhecido, mais desconhecido ainda que o sabor que eu imaginava ser o de sangue cru. Ainda bem que era macia e meio adocicada… Mastiguei com os olhos fixos num retrato de família pendurado na parede em minha frente.

Não doeu. Mais uma, mais uma, mais uma, … Ufa!!! Sobrou o arroz com as beiradas ‘ensanguentadas’. Porém, nem deu tempo de avançar nos grãos; a mulher, contente ‘por eu ter gostado tanto das beterrabas’, depositou no meu prato mais uma farta remessa…

O GOSTO DO MAR

Antônio nasceu na serra, numa casa construída pela família, com a ajuda de outras pessoas dali. Logo que cresceu um pouco, ele também passou a ajudar as pessoas construírem suas casas. Fazia isso com prazer, porque seu corpo e seu espírito gostavam de atividade e de coisas novas, de coisas por aprender.

Da primeira vez, viu a casa como um todo e a construção como um trabalho só. Depois, percebeu que a casa está dividida em partes, que são construídas numa determinada sequência, durante determinado tempo. Assim, começou a pensar nas dimensões, na qualidade e no custo.

Antônio aprendia tudo sem esforço, porque entendia a razão de se construírem casas, porque sabia da necessidade de portas e de janelas e porque estava consciente da importância do alicerce. Mas, não aprendia apenas o que via.

Maria, moradora do lugar, teve oportunidade de viajar para o litoral e conheceu o mar. De volta, contou: O MAR É SALGADO. E todos, crianças e adultos, puseram-se a pensar: Porque o mar é salgado? Quem teria jogado sal no mar? Quanto sal foi necessário? Há quanto tempo isso ocorreu?

Ao ver Maria, todos se lembravam do mar e dessas questões todas. Ela se tornou um SÍMBOLO de O MAR É SALGADO. Não foi preciso decorar, aprenderam isso naturalmente. Mas, havia muita curiosidade e nasceram muitas dúvidas. Planejavam ir até a praia, procurar respostas para suas perguntas. Passaram ainda a provar as coisas para ver se havia mais coisas SALGADAS ou, até mesmo, com outros sabores.

Porém, passou-se muito tempo – gerações inteiras – e o conjunto de casas tornou-se uma cidade grande, onde as pessoas não se conheciam e as casas eram construídas por empresas e não mais por pessoas. As crianças não mais ajudavam construir casas e, delas, não mais sabiam distinguir as partes, o início e o tempo de construção. Também, não pensavam mais por que eram construídas, de onde veio o material e quem o produziu.

Na escola, ensinavam outra lição invariável: O MAR É SALGADO. E, nas provas, perguntavam sempre: “Que gosto tem o mar?” e “Quem é salgado?” E, como ninguém conheceu Maria, a escola também ensinava que foi ela quem descobriu, em determinada data, que O MAR É SALGADO. Por isso, essas informações também faziam parte do estudo; parte da História do Lugar, que era preciso decorar e saber de cor.

As demais perguntas estavam proibidas e seria um sacrilégio alguém tentar separar o sal da água. Os conhecimentos do Livro Didático eram considerados suficientes. Para se estudar mais, bastava repetir várias vezes a mesma lição.

Foi então que, cansadas de decorebas, as crianças perderam o gosto pela escola e, não tendo interesse no sabor de um mar que não conheciam, não conseguiam aprovação, repetindo, além das lições, o ano letivo. A maioria desistia da escola, porque ela não tinha vida, tratando apenas de coisas sem uso no dia-a-dia.

Nessa escola, as crianças só aprendiam a verdade dos outros; ficavam alienadas.

Esse texto nasceu após a leitura da “SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO”, de SONIA M. P. KRUPPA. FPOLIS25SET95

CASAMENTO PERCENTUAL

Alice é 100% solteira? Pedro está 100% casado? Cristina pode ser 75% viúva? As separações conjugais podem ultrapassar o 100%? Ex-cônjuges que se odeiam podem estar separados 202%? Alguém pode estar minimamente casado? É horrível ser filho de pais solteiros? Os traidores traem o quê? Um homem apaixonado ama sua esposa? É possível estar completamente apaixonada sem jamais ficar casada?

Em que proporção eu estou casado? Em que proporção você está separada? Em que medida somos felizes? Beatriz pode ser aparentemente feliz? Ou feliz só nas aparências? Ou só para aparecer? Fazemos de conta que estamos casados? Ou nosso casamento é um faz-de-conta? Quais os elementos fundamentais do amor? É possível pesar a intensidade do amor?

Se o casamento for totalidade de sentimentos complementares ou recíprocos, a partir de que percentual sentimental poderemos nos considerar casados? Um casamento pode ser total ou, por mais que nos esforcemos, sempre será uma união parcial? Com mais de 90% ou podemos chegar a 98%? Quanto, infinitamente e decrescentemente, ainda restará para alcançar a totalidade?

Quantas dimensões pode ter um casamento? É possível estabelecer categorias casamentais? Vamos fazer um exercício de categorização? Quais os aspectos sexuais de um casamento? Quais os critérios para indicar as medidas mínimas de carícias, de carinhos e de ternuras? Como medir os dados sexuais de um casamento? Um casal que pode ser feliz sem praticar atividades sexuais? Qual o regime anual de relações sexuais? Prazer a dois? Ou cada um visita o seu motel? Em diferentes continentes?

Cada um tem seu lazer? Quais as diversões e os entretenimentos que vocês partilham? Cada um tem sua praia, seus passeios e suas viagens? Nadam juntos? Ou na mesma piscina, na mesma lagoa, no mesmo rio? Viajam juntos? Riem juntos e choram em comunhão?

Nós mantemos contabilidades individuais? Ou nada contabilizamos? Temos um orçamento participativo? Dividimos as despesas? Ou só acumulamos prejuízos? E os lucros? Será fácil tabular os dados financeiros das participações societárias conjugais?

Documentos garantem casamentos? Quais? Qualquer um? É possível se sentir casado sem ‘documento passado’? Ou estar casados só no papel? Ser casada pressupõe gerar filhos? É permitida a geração independente? O que garante um casamento é a existência contínua de filhos por criar? Os filhos unem ou separam os pais? Quem sabe netos, bisnetos e tataranetos?

Casais que residem no mesmo endereço estão casados 100%? Ou cada um tem seu chuveiro, seu fogão e seu quarto? Ou, no mesmo quarto, em camas separadas? Preparam as refeições em conjunto ou cada um se vira como pode? Ou cada qual vai a seu restaurante?

Banho a dois? Ou privacidade total? Cada qual com sua banheira? A toalha de rosto é usada pelo casal? Ou cada um seca o rosto e as mãos com pano próprio? Cada um tem o seu tubo de creme dental? Mesmo que seja da mesma marca?

E a roupa? Cada qual lava a sua? Ou cada qual tem sua lavanderia e sua máquina de lavar roupas? Se o cônjuge estiver no trabalho e a chuva ameaçar, o outro recolhe as vestes secas que estão estendidas nos varais? Ou os dois fingem não ver, nem a roupa nem a chuva?

Vocês usam o mesmo aparelho de telefone? O mesmo celular? O mesmo endereço na Internet? O mesmo Watsapp? Cada um tem o seu aparelho de TV, com senha encriptada?

Cada um tem seu automóvel? Cada qual tem dois ou três? Em garagens separadas? Pedalam na mesma bicicleta? Ou os dois andam a pé e utilizam o transporte coletivo?

Cada um tem sua religião e respeita a opção do outro? Ou os dois rezam na mesma fé? Ou os dois se atacam religiosamente? Quantos deuses cada um criou? Para quantos deles cada um reza? Ao divino Sexo? Ao divino Sucesso? Ao divino Poder? Ao divino Dinheiro? Ao divino Capital? Ou praticam egolatria?

O espectro casamental abrange que categorias? Sexual, sentimental, financeira, residencial, religiosa, profissional, …? Qual a participação de cada uma dessas categorias no mapa casamental?

Qual o percentual de envolvimento de cada um de nós?

OPINIÃO DE ESPECIALISTA

Todos nós temos opiniões. Os especialistas têm muito mais. E mais imponentes. Basta analisar as opiniões de juízes, de médicos e de vendedores. Para navegar a salvo desses impositores, precisamos ouvir e analisar com discernimento, sem sucumbir a argumentos cristalizados.

Como pretenso escritor, sei que exagero na insistência de que todos devem escrever, pois, me sinto vivendo plenamente a era da experiência e dos sentimentos.  Acredito que ser espontâneo, comunicativo e autor da própria história possa contribuir para que todos vivam melhor.

Sei que a tecnologia quer me livrar das tarefas repetitivas e/ou cansativas, como controlar as etapas da lavação de roupas na máquina, empurrar o cortador de grama, recolher as folhas caídas ou dirigir o automóvel.

Se, por um lado, isso pode me livrar dos encargos, por outro lado, posso ficar à mercê das ‘inteligências artificiais’. Todas as máquinas de lavar roupas disponíveis no mercado são ‘completas’, para ‘facilitar’ nosso trabalho. São todas inteligentes e automáticas.

Nós não usamos alvejantes, amaciantes e perfumantes. Entretanto, a máquina está programada para direcionar jatos d’água, na quantia e na velocidade projetada pelos especialistas, para os diferentes recipientes onde deveríamos depositar os produtos químicos. No nosso caso, só perda de tempo e exercício de paciência. Todos os dias… até a maldita máquina inteligente parar de vez… e comprarmos outra ainda mais inteligente que essa, que mude também a hora do computador da máquina para o horário de verão, que nem foi promulgado neste ano. Viramos escravos da máquina de lavar roupas; impedidos de lavar roupas do nosso jeito. Além do que, nossa máquina inteligente não informa em qual etapa se acha o processo de lavação. Isso tudo, para ‘nos ajudar’.

Os nutricionistas, os médicos e os psiquiatras condicionam o restabelecimento de nossa saúde a uma infinidade de exames laboratoriais, os advogados nos submetem à burocracia sufocante e os vendedores querem nos cobrir com negras liquidações. Com a autoridade de especialistas…

A maioria dos pais entrega os filhos às inteligências artificiais para que robotizem suas mentes. Alguns pais são ‘especialistas’ e impõem aos filhos as verdades ancestrais. Muitos pais dialogam com os filhos e interagem como seres sensíveis que têm mais experiência que os jovens. Pais e filhos podem pensar de forma diversa e até divergentes.

Um pai despretensioso de filhos normais. Sei que penso diferente que meus filhos e que eles têm opiniões mais diferentes ainda. Se perguntarem sobre minhas opiniões, serei solícito. No entanto, permito que façam suas escolhas. Dentre elas, lacrar todos os canais de comunicação.

Sou pai natural, genérico; sem especialização em paternidade.

ENTIDADES DE RUA

O vocábulo ‘entidade’, designando estruturas sociais criadas por leis ou por estatutos, passou a dominar a linguagem dos meios de comunicação. De certa forma, uma palavra-ônibus que carrega o descompromisso das pessoas que virtualizam as instituições, como se fossem essências descoladas do mundo real: virtuais, etéreas, ideais, intangíveis e inatingíveis. Coisa do outro mundo. Espíritos puros despidos de qualquer vestígio de realidade existencial.

Essa, a primeira repugnância minha ao ouvir que “as entidades estão oferecendo abrigo aos moradores de rua”. Aí, um segundo sintoma de alienação; o de se esconder atrás de ‘termos politicamente corretos’, de fugir de supostos ‘preconceitos’, como usar as palavras pedintes, indigentes ou mendigos. Hipocrisia praticante.

Sim. Mesmo que “Graças aos deuses!!!”, enfim, um gesto humano de solidariedade. Louvável a compaixão para com os absolutamente pobres; para com os enjeitados pela sociedade de consumo. Partilhar o pão e oferecer abrigo. Alimentos que estão sobrando e hospedagem em prédios pouco usados ou, até, abandonados.

As igrejas e os clubes esportivos podem recolher os ‘moradores de rua’ nas noites geladas dos invernos sulinos. Entretanto, ‘ajudar os pobres’ tem um custo burocrático: dispor de banheiros e água potável em volume adequado ao contingente que se quer abrigar, instalar sistemas de proteção contra incêndios, garantir segurança, prevenir surtos de doenças contagiosas, tratar com dignidade os sem-teto e requerer alguns alvarás da prefeitura, dos bombeiros e da vigilância sanitária. As mesmas obrigações legais de outras ‘entidades’. Obrigações legais? Das organizações da sociedade civil? Iguais às dos governos municipais?

Moradores de rua, moradores de debaixo da ponte, moradores de viadutos, moradores de prédios abandonados, moradores de barrancas de rio, moradores de marquises, moradores de rodovias, moradores de parques, … não são responsabilidade do governo? O governo instala sistemas de prevenção a incêndios e garante segurança em ruas, pontes, viadutos, prédios abandonados, matas ciliares, marquises, rodovias e parques? O governo mantém banheiros funcionando e oferece água potável e alimentação para os que residem em locais públicos? Quais as ações de governo para evitar os surtos de fome e a propagação de doenças entre os desajustados? Os moradores em espaços públicos são tratados com dignidade pelo governo?

 

FIGURANTES POLÍTICOS

Em 1988, foi promulgada a Constituição Cidadã da (Nova ou Sexta) República Federativa do Brasil, assim denominada por apresentar avanços significativos nos direitos civis, individuais e sociais. Dentre eles, o direito de participar de conselhos de políticas públicas em que seriam analisados e debatidos projetos e ações dos governos municipais, estaduais e federais.

Os conselhos sociais deveriam ser espaços democráticos em que representantes das comunidades pudessem propor obras de interesse coletivo, fiscalizar gastos públicos e vetar abusos dos governantes. Porém, exceto os conselheiros tutelares (que recebem salários para executar funções administrativas, judiciais e/ou policiais), os conselheiros são meros fantoches preenchendo vagas em colegiados ‘pro forma’, constituídos apenas para cumprir formalidades legais que garantem verbas para os setores da Saúde, da Assistência Social, … Conselheiros ‘pegos a laço’ ou indicados pelos chefes políticos; conselhos deliberativos constituídos e acionados somente para preencher exigências burocráticas.

Participei de conselhos nas áreas de Cultura, de Educação e de Saúde. Profunda decepção. Muita encenação para colher assinaturas de títeres nas atas que preenchidas antecipadamente. No máximo, as autoridades liam ou falavam algo sobre os assuntos previamente deliberados pelas ‘esferas superiores’; nenhum espaço para reivindicações populares. Os conselheiros deveriam se resignar a ouvir explanações e a assinar atas pré-formatadas.

A criação e as ações efetivas de estâncias deliberativas a partir da base social poderiam contribuir para a melhoria do bem-estar da população, aliviar os quadros do funcionalismo público e reduzir os gastos governamentais. Entretanto, existe um abismo entre as comunidades de bairro e o primeiro degrau da hierarquia deliberativa oficial.


Vez em quando, aparecem divulgações de eventos com ‘vereadores mirins’ ou ‘deputados mirins’; ainda não li ou ouvi a expressão ‘senadores mirins’. Oferecem espaço a quem não tem poder; oferecem passeios para as crianças. Nunca são convidadas pessoas críticas que possam dizer umas verdades aos parlamentares; sempre crianças alegres, faceiras e ingênuas. Se os adultos tivessem oportunidade de avaliar e de afastar os maus legisladores, possivelmente, haveria menos gastos e melhores leis.


A ‘Defesa Civil’ é órgão de governo responsável pela proteção da população, que se mantém alheia, delegando a estâncias superiores a prevenção e os socorros pós-acidentes naturais. A quem serve a Defesa Civil: aos detentores de poder ou ao povo? Como se consolidou o alheamento e a omissão dos cidadãos? Com o distanciamento das esferas de governo da efetiva participação popular? Por que as pessoas negligenciam os cuidados básicos e aguardam passivamente que os políticos resolvam tudo? Além do que a Defesa Civil desenvolve poderes institucionais próprios que manipulam e entravam as ações de auxílio.

Procuro retirar o lixo da boca dos bueiros e abrir as valetas que margeiam a estrada. Pago alto preço por isso… É proibido; a Prefeitura está atenta a quem ‘mexe na estrada’. Não faz, nem deixa fazer. Preserva apenas o direito de exclusividade sobre a via pública, o que garante às autoridades mais poder e bons salários.


No Brasil, a Justiça é uma esfera governamental de poder que detecta e pune as violações das normais estatais; os delitos, as análises e as penas são propriedades do governo. Decreta que os cidadãos são incompetentes para se reconciliarem-se e para reconstruírem a harmonia nas relações interpessoais. Se nós dois nos descuidarmos, dirigirmos mal e amassarmos os para-lamas dos nossos automóveis um contra o outro, quem tomará conta do caso será a Justiça. Ela vai julgar, punir e cobrar os prejuízos, mesmo que eles sejam nossos.

E a (In)Justiça joga nos dois times: mantém equipes para acusar e para defender os infratores. Os promotores da Justiça promovem justiça? E os defensores públicos defendem o povo? Estranho!!! Seria como um clube que mantivesse todas as equipes do campeonato. Ao Judiciário, não basta ganhar dinheiro acusando e julgando os infratores; quer (e ganha) dinheiro também defendendo os ‘pobres’. Ou seja, os ricos podem pagar pela justiça; toda população paga compulsoriamente por aqueles ‘que não podem pagar’.


São muitas instituições públicas e muitos os beneficiados com os cargos públicos.

São muitas e variadas as fôrmas… preenchidas com a mesma massa. Mudam os formatos, as estruturas e as dimensões dos colegiados… compostos por pessoas atreladas aos mesmos mandatários, com características semelhantes e com vantagens recíprocas.

GALANTEIOS, IRONIAS E MACHISMO.

GALANTEIOS, IRONIAS E MACHISMO.

Alguns homens são especialistas em galanteios: gostosão, bonitona, mulherão, princesa, …

Habilidade de cortejar uma dama, namorador, elegante, espirituoso, esbelto, distinto, amável com as mulheres, sensual, delicadamente obsequioso, brincalhão, espirituoso, malicioso, engraçado, picante. Enfim: um galo. Os galanteios, atitudes com suas muitas galinhas. Legítimas ou alheias.

Quando os galanteios são destinados a pessoas do mesmo sexo, podem ser falsos elogios, ironias dissimuladas, estratégias de convivência com desafetos; ironia ou desdém. A ironia é uma figura de linguagem “por meio da qual se diz o contrário do que se quer dar a entender”; sarcasmo, zombaria, “riso amargo”.

Quando retribuímos os galanteios, por ingenuidade ou para manter a cordialidade social, entramos no jogo perigoso da dissimulação, sendo indulgentes ou fazendo que não vemos, para evitarmos envolvimento afetivo, fugindo da franqueza e da lealdade. Falsos amigos; relações defensivas. A conivência consolida e exacerba essas relações doentias.

Possivelmente, ao elogiar atributos físicos d(a)o colega de trabalho, ao chamar de ‘dama’ uma mulher [“a dama de vermelho”, da cornimúsic], ao usar os pronomes de tratamento senhor e senhora para ‘pessoas mais velhas’, ao homenagear uma mulher pobre e desvalida com o título honorífico ‘dona’ [mesmo que ela não tenha domínio nem sobre o próprio corpo e nenhuma posse, sendo ela mesma posse do marido],  estamos fingindo cortesias e respeito ou manifestando, dissimuladamente, desdém, menosprezo ou indiferença por atributos que invejamos. Assim, interpomos uma distância respeitável.

Respeito, do Grego, res pecto: coisa alheia. Reconhecimento que não temos o domínio, que não podemos controlar as ações ou os atos. Consciência de que devemos permanecer à parte, por atitude ética ou por reconhecimento de incapacidade física ou moral para solucionar os impasses. Decisão de manter a neutralidade.

O machismo – resquício do domínio dos animais machos pela força física – sobrevive entre humanos e se perpetua com a conivência das mulheres. Algumas mães incutem orgulho masculino nos filhos; se sentem realizadas por terem desenvolvido neles o sentimento de domínio, de liderança autoritária, de direito ao uso e ao abuso.

PERSUASIVIDADE

A propaganda nada faz; ela é feita.

Ela é feita para difundir o que alguns seres humanos
julgam ser importante para os outros;
para que os outros pensem e ajam de acordo com o propalado.
Muitas vezes, que os outros façam aquilo que eles mesmos não fazem.

Podem ser propagadas ideias, teorias, práticas, comportamentos, exemplos, ...
No entanto, mais importante do que identificar o que é propagado
é saber a intenção de quem propaga.

Ideias podem ser verdades, mentiras, meias-verdades ou meias-mentiras.
As mentiras absolutas são vulneráveis ao discernimento.
Mas, como identificar a parte que é verdade e a parte que é mentira?

Infelizmente, a propaganda tem sido instrumento de enganação,
de impor meias-verdades com o objetivo de tirar proveito
da ingenuidade popular, da boa-fé das pessoas para
tirar vantagens sociais, econômicas ou políticas.
E, tem pressa, pois precisa chegar antes que o espírito desperte
e analise com criticidade as falsas bondades.

A propagação de princípios éticos
independe de urgência e foge dos absolutismos;
ela se fortalece na diversidade de pensamentos.

Nos meios de comunicação, em geral,
a propaganda tem a função de enganar,
de criar necessidades inúteis, de explorar os incautos.

A propaganda ‘profissionalizada’ se alimenta de mentes ingênuas;
porém enfrenta resistências nas mentes críticas.
Por isso, os profissionais das agências de propaganda,
principalmente da propaganda política,
precisam manter o povo na ignorância,
precisam garantir um rebanho de ingênuos.
Simultaneamente, campo para semear ilusões
e vetor para propagação de ‘epidemias ideológicas’.

Assim, os falsos líderes e os ídolos ocos
são plantados e cultivados em massas acéfalas.
A população domesticada passa a executar,
fielmente, as ideias desses charlatões.
Executa inconscientemente, hipnotizada,
incapaz de pensar criticamente,
de tomar decisões, de fazer escolhas.

Como não pensam por si mesmas,
são pensadas pelos outros.

MINHA LISTA DE DESCONHECIDOS

Quando jovem, … (Quando mesmo que fui jovem? Quando deixei de ser jovem? Resta alguma jovialidade em mim?) Bem. Quando ainda imaginava ser jovem, eu enfrentava qualquer parada: serviço pesado, serviço difícil, festas, conflitos e campanhas eleitorais. Para muitos, fiz diferença, colaborei; para a maioria, fui paisagem, um rosto anônimo; para alguns, fui estorvo, um incomodador.

Como disse aquele monge ao completar 86 anos, comecei com a ilusão que poderia mudar o mundo e acabei mudando um pouco em mim mesmo.

Tive durante muito tempo a pretensão de elucidar dúvidas, desvendar mistérios, conquistar pessoas por convencimento e de manter relações amigáveis insistindo em explicações. Ah! Ajudar as pessoas no aprendizado do que eu considerava importante e que considerava seria muito importante para elas. Observava a forma como as pessoas dirigiam, criticava os desmatadores, orientava os esbanjadores, me preocupava com os telhados dos vizinhos, ria dos ridículos, … Enfim: cuidava da vida alheia.

Aí, durante um desgosto mais amargo, tive a ideia de iniciar minha lista de desconhecidos. Quando uma pessoa de minha rede de relações se mostrava resistente ou incomodada com minhas opiniões, quando os parceiros sabotavam meus esforços, quando uma pessoa me traia, quando alguém me ofendia, … A lista cresceu, mesmo usando doses de benevolência e permitindo, em alguns casos, uma segunda chance.

Nessa minha lista de desconhecidos, coloquei arrogantes, brigões, vingativos, espertos, estúpidos, caloteiros, hipócritas, dissimulados e/ou fingidos. Reduzi contatos, deletei mágoas, evitei aborrecimentos, parei de querer mudar quem não quer mudar, deixei caídos os que me empurraram e economizei desprezos. Deixei de gastar minhas energias e de empatar o meu tempo com ex-conhecidos.

Para os desconhecidos convencionais, ainda dedico parte da minha atenção. Porém, quando encontro um desses desconhecidos contabilizados, concentro esforços em neutralidade planejada. Como diz a gíria: “passo reto”.

“Menos amigos, mais amizade.” Um poema que escrevi e procuro sempre reler.

DEUS, UM DELÍRIO… COLETIVO.

     Eu tenho opinião diferente das opiniões do Richard Dawkins e do Gilvas.
https://mail.google.com/mail/u/0/h/1k1ikw0z3w40a/?&th=16787f1e759d0133&v=c
Deus existe. Sempre um deus coletivo; nunca ouvi falar em deuses individuais; um deus para si mesmo.
Existem muitos ‘de eus’; milhares ‘de eus’. Cada vez que algumas dezenas de pessoas se congregam e se concretam numa ‘verdade’, cada vez que algumas dezenas de eus se sentem irresistivelmente atraídos por uma ideia, esse pensamento se torna ‘ideia fixa’ sobre espiritualidade, etnia, identidade de gênero, medo da morte, martírio, futebol, política, penitência, finanças, economia, estrelas, animais, nacionalismo ou liberdade utópica.
A comunidade adepta constrói um coletivo ‘de eus’ que passa a comandar as subjetividades; pessoas que acreditam em horóscopos, superstições, magias, bruxarias, simpatias, benzeduras, mau-olhado, sucesso, destino, riqueza e compensação celestial.
Para que uma ideia fixa ou uma crença se torne religião, basta que sejam eleitos guardiões. “Muitos são os chamados; poucos, os escolhidos.” O guardião tem a missão de guardar a verdade que foi divinizada, de proteger os crentes que, ao acreditarem cegamente, perdem o senso de realidade, de fiscalizar o cumprimento integral das obrigações dos fieis seguidores e de administrar os tabernáculos que guardam almas e segredos. Daí a existência de confessionários...
Tudo o que for sagrado deve estar protegido em sacrários. Surgem os templos para abrigar as ‘riquezas espirituais’ e um guardião dos guardiões para organizar a estrutura da igreja; uma hierarquia de guardiões.
Assim, nascem as religiões: na contínua e cada vez mais intensa convicção da verdade tornada absoluta para pessoas que se prendem indissoluvelmente a um agregado ‘de eus’; pessoas que, guiadas por um salvador, se ligam, se religam e se sustentam em procissão rumo ao paraíso e/ou ao lucro prometidos.
Pode ser que seja apenas um processo natural, como os processos físico-químicos fundamentais. Quando alguns (ou muitos) elétrons são atraídos irresistivelmente por um núcleo formado por prótons e nêutrons, passam a formar um átomo; quando um ou vários átomos se unem permanentemente uns aos outros, formam moléculas; o aglomerado de moléculas forma matérias, corpos, ligas, artefatos, ... reconhecidos internacionalmente.
Nas Ciências Sociais, as ideias se estruturam em conceitos, teses, sínteses, definições, teorias, doutrinas, ... Os cientistas são guardiões das verdades científicas; nesse sentido, os cientistas são os sacerdotes da Ciência.
“É mais fácil desintegrar um átomo que remover um hábito.” Albert Einstein
E que diluir uma crença.
Porém, as instituições – como o dinheiro, por exemplo – só existem enquanto acreditamos nelas.