O prazer de aprender
nos leva a provar o gosto
de todas as dúvidas,
ao sabor da curiosidade.
Muitos consideram amargo
o gosto da dúvida,
porque sofrem
de medo do desconhecido.
Por preguiça de pensar,
preferem vegetar
na zona de conforto
da mediocridade.
Precisamos ir ao desconhecido
para provar o sabor
e saber o gosto dele,
para gostar ou não.
Precisamos provar,
para aprovar ou não aprovar
esse novo por conhecer
e o antigo que desconhecemos.
Precisamos selecionar alguns saberes
para construir caminhos
que nos levem ao desconhecido;
precisamos utilizar o velho
para gerar novidades;
precisamos repensar o já-pensado
e pensar o ainda-por-pensar.
Precisamos pensar
o velho de um jeito novo.
Pessoas acomodadas
se satisfazem
com ideias engessadas.
Pessoas insatisfeitas
conseguem satisfação
na procura de respostas
para as dúvidas.
Os satisfeitos vivem de mesmice;
são pessoas cansadas
que se alimentam
de pensamentos sintéticos.
Do livro POEMAS DE MARIO TESSARI QUE EU GOSTO – MARIA ELISA GHISI
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SER-VIL
Que faz um homem ser-vil?
O tempo, a ocasião ou a fome?
Ah! quantos escravos do homem,
da gula, do poder e ... do porvir!
O medo ronda, sem dormir.
Grana falta, inveja consome,
poucos matam ... somente fome.
Medíocres preferem servir...
Escravos servis da matéria,
instrumentos pagos com medo,
ameaças, gritos e socos...
A liberdade está em férias,
o belo ideal morre cedo...
Os mais decentes ficam loucos.
Poema escrito em 1971.
https://livrosdomariotessari.me/ipomeia-2/
MOMENTOS
A realidade da vida é construída por nosso olhar.
Se olharmos o mundo sempre na mesma perspectiva, veremos sempre as mesmas faces das mesmas coisas.
As coisas parecem ser como são vistas, no entanto, teremos novas imagens delas se mudarmos a direção do olhar.
A criança vê o mundo com olhos de novidade, com curiosidade: não se satisfaz com o que vê; explora o objeto e constrói o novo a cada olhar. Não algo inexistente que passa a existir, mas uma nova imagem gerada por um olhar diferente sobre as mesmas coisas.
A beleza e a tristeza, que nascem nos mesmos olhos, são frutos de diferentes formas de olhar.
O medo do novo limita o olhar, condenando a realidade a permanecer o que foi e impedindo que a vida continue; o medo do novo nos mata por dentro.
Poemas são representações de novos olhares sobre uma mesma realidade; são como que fotografias dos momentos que o poeta vive.
(Em parceria com Maria Elisa Ghisi, no livro MOMENTOS.)
TIRANIA DOS HORMÔNIOS
A galinha preta está chocando há semanas. Não há ovos debaixo dela, apenas pernas, dedos, unhas e palha. Se estivesse sobre ovos, estaria ainda mais determinada a proteger o ninho. Quando as outras galinhas atacam, foge das bicadas e se esconde chorando. Raramente se alimenta.
A fisiologia das aves depende de hormônios que comandam outros hormônios para: nascer, se desenvolver, crescer, amadurecer sexualmente, atrair parceiros sexuais, formar ovos, construir os ninhos, botar e chocar ovos, cuidar dos filhotes, … As galinhas não planejam seus ciclos de postura, nem seguem regras estabelecidas por um coletivo de galinhas. Dizemos que elas seguem as leis naturais.
O Sistema Endócrino também comanda a fisiologia dos mamíferos: a fome, a sede e o cio. Os hormônios gerados pelas glândulas determinam a ocorrência e a intensidade dos processos orgânicos, como digestão, crescimento, sexualidade e envelhecimento.
Vez em quando, uma matilha passa pela estrada atrás de uma cadela. Se ela para (pára), todo o séquito para. Os mais exaltados rosnam e distribuem dentadas. Se ela segue por outra estrada ou se ela retorna, os ‘fiéis seguidores’ acompanham. Algumas horas depois, a procissão passa em sentido inverso. Durante alguns dias, a cerimônia será repetida, com pequenas diferenças no conjunto de participantes ou no estado físico dos machos em progressiva exaustão.
Ouvi e vi o apelo de vacas em cio, as lutas dos canários e dos lagartos pela chance de gerar filhos, admirei os cantos de machos chamando as fêmeas na primavera, vi homens e mulheres se enfeitando para parecerem melhores reprodutores. A estatura, a ‘cor dos olhos’, a altivez e os contornos sensuais de seus corpos interferem na disputa por parceiros sexuais. Como ‘seres culturais’, os humanos usam, além dos dotes físicos, os poderes representados pelas riquezas acumuladas: a herdeira de uma fortuna ‘dá melhores frutos’ que uma moça pobre; o dono de um automóvel vistoso atrai mais que um pedestre.
Como diz Beatriz Cardoso Soares, “tudo muito natural”. Sim. É a natureza que faz as ofertas e as escolhas e não a pretensa ‘racionalidade dos animais superiores’. Os hormônios comandam os flertes, os namoros e os acasalamentos. Os feromônios humanos desencadeiam as atrações, as repulsões, a defensividade, a percepção de perigos, a agressividade e os desempenhos sensual e sexual.
Na época em que eu mantinha cabras leiteiras com a ilusória intenção de produzir queijos, um caprinocultor alertou que a catinga do bode desencadeia os ciclos reprodutivos das fêmeas e não o porte físico, a beleza aparente, a produtividade em carne ou em leite. Os feromônios – o bodum – excitava as cabras e o plantel e os lucros aumentavam. Porém, os feromônios (o bodum) diminuíam com o avançar da idade do bode. Ou as cabras se acostumavam demais com o cheiro ‘de sempre’; queriam alguma variação…
Tenho observado que os acasalamentos de humanos ‘ao primeiro cheiro’ ou por ‘atração sexual instantânea’ prosseguem enquanto a produção de hormônios estiver alta. Poeticamente, “amor à primeira vista”. Muitos consumam o casamento. Outros, apenas consomem. Depois, separação, divórcio e a busca por novos parceiros. Será essa a causa da explosão demográfica dos humanos?
Os sapiens sapiens pouco sabem ou nem querem saber que são escravos dos hormônios, que agem e reagem conforme os códigos fisiológicos produzidos pelas glândulas endócrinas; que vivem sob o arbítrio hormonal. Além de serem manipulados por esses ditadores poderosos, os humanos cultivam mais tiranos ainda: a ambição e a vaidade. Além de dominados pela natureza, passam a depender de vícios que eles mesmos criam através do que chamam, orgulhosamente, de Cultura.
Ou seja, os corpos recebem ordens das glândulas endócrinas e se esforçam para mergulhar nos abismos da ambição e da vaidade. Somos conduzidos por hormônios e buscamos, cada vez mais, a beleza atraente e a posse de riquezas e de poderes. Quanto mais somos ou temos, mais desejamos e mais conquistamos. Somos insaciáveis, desequilibrados.
A criação de hormônios e de feromônios sintéticos pode ser considerada mais um exemplo da estupidez humana. Perfumes hormoniosos. Insatisfeitos com o que conquistamos por atração natural, fabricamos e compramos drogas para controlar os processos naturais: para atrairmos, nos sentirmos atraídos e ainda mais ‘felizes’ e poderosos, quase onipotentes. Queremos ser tudo e dominar todos. Qual será o fim dessa escalada de despudor?
CURSO SALUTAR (para nossa saúde)
Dor no braço? Qual deles? Importa saber qual braço? O nome da doença? Quando começa doer? Quando alivia? Por que?
Isso é um problema? Quem resolve esse problema? O médico? Os medicamentos? Anestesiar a dor ou descobrir e evitar a causa?
Como era aos vinte anos? Como começou? Qual a tendência? Como prevenir? Ou é melhor esperar o braço cair? O que fazer? Cirurgia? Consumir enganadores das doenças? Ou mudar as atitudes? Reconhecer o envelhecimento e os limites físicos e orgânicos? O que o corpo nos fala? Melhor calar as reclamações do corpo ou tomar consciência dos desgastes pelo excesso de trabalho, pelo estresse?
Quem nos aposenta? O Governo, as empresas ou nós é que devemos saber o momento de reduzir a carga, de fazer diferente, de fazer menos, nos aposentar aos poucos e, depois definitivamente? Vamos planejar a aposentadoria ou aguardamos os ‘prazos legais’? Depois de aposentados vamos viver nos aposentos ou vamos manter o corpo e a mente ativos?
Posso fazer sem ajuda ou vou pedir e contar com ajuda? Continuo ‘sabendo tudo’ ou será mais produtivo dialogar, ouvir pessoas? Ideias coletivas, trabalho em equipe? Heroísmo individual ou trabalho feito por muitas mãos, com humildade e vontade de cooperar?
O PREÇO DOS MORTOS
Como nossos antepassados se sentiam diante da morte e diante do corpo morto de um familiar? Como nos sentimos diante da morte de um amigo? O mesmo que sentimos na morte de um inimigo? Se uma pessoa morrer dentro de nossa casa, deixaremos o corpo ali até só sobrarem os ossos? As doenças que matam continuam ativas nos cadáveres? Há vida após a morte? Acreditamos em reencarnação? No mesmo corpo ou em outro corpo? Ou a alma vai pro céu e fica esperando que o corpo consiga subir pra lá também?
Sou um perguntador quase incansável… Respostas, explicações? Imagino algumas, registro poucas, … Tenho ideias sobre a morte: minha, da Elisa, de outras pessoas importantes para mim, de pessoas com quem mantenho parcerias, de vizinhos, de desconhecidos e de lixos humanos. Vivi algumas experiências de morte na família, de pessoa ao meu lado, de jovens muito jovens pra morrer, de pessoas que prolongam a morte e de outros que antecipam o fim das decepções e dos sofrimentos. Penso muito e tento racionalizar, aceitar que todos morrem. Mesmo assim, sei que essas preparações podem ser insuficientes para suportar a ‘hora derradeira’.
Assisti cenas chocantes de animais ‘irracionais’ diante da morte de um indivíduo do grupo: as reações do grupo às demonstrações de sofrimento do enfermo, do acidentado, do moribundo; a perplexidade e o estranhamento diante da paralisia de um seu semelhante. Será que eles pensam que o outro está morto? Será que eles guardam na memória esses momentos trágicos? Vi animais com medo de morrer e li análises sobre situações registradas. Por observação, sei que os animais têm intuição muito atuante diante de eventos climáticos e de catástrofes. Parece que eles sabem com antecedência quando haverá um terremoto, uma enxurrada, uma avalanche. O que sente uma ave ao presenciar a morte de outra? Alguma espécie de animal ‘irracional’ passa uma noite observando se seu semelhante morreu de fato?
Durante o Século XX, eram construídas casas com salas grandes o suficiente para caber o velório dos familiares, com espaço para caixão, cruz, castiçais, cadeiras e mesa com alimentos para os que ainda não morreram. Ironicamente, durante os anos sem morte na família, a sala do velório era usada como ‘sala de televisão’. Quando, eventualmente, morria um dos residentes, a televisão era retirada para entrar outra morte: o defunto. A televisão mata os diálogos entre os familiares e induz a morte do pensamento crítico.
Outra tradição era velar a pessoa por, pelo menos, vinte e quatro horas. Diziam que era para ‘observar se a pessoa estava morta, mesmo’, ou seja, ela poderia estar numa crise cataléptica. Preocupação baseada em relatos de exumações em que ‘o corpo estava fora de posição’, porque ‘tinha se revirado depois do enterro’.
Lembrando que as flores e as velas são usadas nos ‘guardamentos’ para disfarçar o cheiro do cadáver; catinga natural do ex-vivente e/ou, logo a seguir, indicativo do início de decomposição.
Além dessas crenças e heranças culturais, havia a hipocrisia regada a cachaça e a café. Com a morte, todos ‘se tornavam bons’. Pessoas que ignoravam ou até odiavam quem morreu compareciam ao velório e participavam do enterro. Os primeiros, na ilusão de recuperar os momentos que ‘perderam’ de conviver; os segundos, para terem certeza que o desafeto estava morto, mesmo. Enquanto vivos, temos algum poder, que pode delimitar o poder de outrem. A morte distribui poderes para amigos e para inimigos. Nos jogos de poder, os vazios são ocupados pelos que ainda não morreram. E, quando morrerem, também deixarão vazios.
Em alguns países, em algumas etnias e, em especial, em algumas classes sociais, os cadáveres são mantidos por dias em espaço público para dar tempo de ‘receberem todas as homenagens’. Atitudes similares a participar dos funerais para recuperar o tempo perdido ou o ‘amor’ de quem morreu. Porque não homenagearam o defunto em vida? Para não dar a ele mais poderes; homenagens pressupõem prestígio, valor social. Podemos elogiar, enaltecer e glorificar os mortos, sem risco de cedermos poder e de ficarmos menos poderosos que eles.
Acredito que, já há milhares de anos, os animais (incluindo o sapiens insapiens) se afastavam dos cadáveres porque percebiam que as doenças poderiam ser transmitidas, mesmo após a morte; ou seja, bacilos, bactérias e vírus continuavam atacando. Mesmo o chorume e as ossadas podiam transmitir doenças infecciosas. Em algumas regiões, havia cemitérios separados (especiais) para leprosos. Talvez, também para outras doenças epidêmicas. A cremação resolve esse e outros problemas.
Em todas as épocas e em todos os continentes, alguns povos enterravam e outros cremavam seus mortos. Talvez, os povos nômades abandonassem os cadáveres e as possíveis doenças latentes; e evitassem, também, o trabalho de enterrar ou de cremar seus mortos. Os mais pobres, até hoje, recebem apenas ‘sete palmos de terra’ sobre o caixão.
Enterrar ou cremar tem custos financeiros: o preço dos caixões, dos túmulos, das lápides de mármore e das capelas. Muitas pessoas reservam dinheiro para a compra do terreno e para a construção do sepulcro ou elas mesmas constroem o jazigo em que querem que depositem o corpo delas; de simples sepulcros a mausoléus imponentes, como as pirâmides. Em alguns casos, os monumentos fúnebres superam as residências em valor e em investimentos; essas pessoas gastam mais com a morte do que para bem viver.
Em geral, os familiares cuidam dos túmulos, capelas e mausoléus. Durante minha juventude, sob o comando da Nonna Luiza, lavei muita cruz e muito mármore. A água era levada sobre carroça puxada por bois, dentro de tambores de ferro; precisava economizar… Também, para ‘economizar, a família comprava ou confeccionava coroas de arame e lata. Assim, no mês de setembro, as coroas eram retiradas do cemitério, passavam por limpeza geral e pelas reformas necessárias, recebiam nova demão de tinta a óleo e voltavam para o cemitério na segunda quinzena de outubro. As cercas também eram consertadas e pintadas.
Mesmo assim, os ossos dos que-já-se-foram não descansavam em paz. Nos primeiros dias após o sepultamento, os tatus-rabo-mole removiam a terra e devoravam os ‘restos mortais’. As formigas saúvas atacavam em qualquer época, formando grandes depósitos de terra vermelha entre os túmulos. Esses animais também espalhavam doenças.
Durante a pandemia de COVID, foram proibidos os velórios e, na sequência, foram promulgadas leis que regulamentam as cerimônias fúnebres, sem ‘guardamentos noturnos’. Assim, são evitados muitos desgastes inúteis e reduzida a transmissão de doenças.
IRMÃOS NÃO-IRMÃOS
Sile soltava gritos de alegria e agitava os braços em direção ao pequeno pássaro de papel colorido que balançava pendurado por um fio. Com a mão direita, segurava um coelhinho de vinil verde claro com tons de branco nas covas das orelhas. De quando em quando, aquietava e, segurando o brinquedo com as duas mãos, mordiscava as orelhas de plástico para coçar as gengivas em que os primeiros dentes forçavam saída.
O berço ainda era seu mundo. Passava as horas se entretendo com tudo que se movesse ao alcance de seu olhar. Depois, na escuridão do sono, revia as cores dos brinquedos, as paredes, as frestas de céu e as árvores próximas da janela.
Porém, mais que as imagens, os sons despertavam nela viva curiosidade: vozes conhecidas, como as da mãe e do pai, barulhos que se repetiam diariamente e o gorjeio dos pássaros no quintal. Sentia prazer ao ouvir as cantigas de ninar e até fechava os olhos para escutar melhor.
Pela manhã, quase todos os dias, algumas vozes diferentes entravam pela janela, vindos sempre da mesma direção; menos harmoniosas e muito mais vibrantes que os gorjeios dos pássaros, quase uma gritaria. Um cantar individual, que, às vezes, recebia a companhia de outros cantares, os quais poderiam chegar a uma cantoria com muitos timbres simultâneos e desorganizados. Ouvia essas cantorias pela manhã, algumas durante a tarde e nenhuma durante a noite. Tinha ouvido também vozes semelhantes, porém, muito mais agudas e aceleradas, como se fossem alertas ou pedidos de socorro.
Ao ouvir esses cantares, ficava em silêncio, só escutando, procurando entender.
Do berço, Sile contemplava as paredes, as janelas e as portas sem poder de ir até elas. No entanto, quando conseguiu se manter sentada sem apoiar as costas, foi posta sobre uma manta estendida no assoalho. Então, sem as grades do berço, Sile viu espaços abertos. Aos poucos, começou a explorar a área: se espichou para alcançar um brinquedo que caíra para além do alcance do braço, deitou de bruços, apoiou as mãos no chão, arrastou as pernas, … por enfim, engatinhou.
Sile ampliava o mundo dela. Porém, as paisagens continuavam menores que seus interesses e o canto dos pássaros continuavam vindo de um lugar que não via. Sile se sentia atraída pelas cantorias; principalmente, por aquelas mais fortes, vindas sempre da mesma direção.
No dia em que foi levada no colo a passear pelo quintal, ouviu de perto uma melodia e conseguiu ver quem cantava: era bem parecido com o passarinho dependurado sobre o berço, mas… movia as asas e o bico.
Foram adiante e ela conheceu as galinhas. Soube que eram galinhas porque disseram que eram galinhas. Eram passarinhos muito grandes, que pareciam assustados com a presença dela. Naquele momento, Sile se apaixonou pelas galinhas.
Passaram-se os meses e Sile começou a andar com as próprias pernas. Primeiro, só até a cerca colocada na porta para impedir que ela fugisse para o quintal; depois, quando já conseguia equilibrar o corpo e andar sobre as irregularidades do pátio, até correu na vã ilusão de que poderia pegar os passarinhos.
Sile cresceu e, com liberdade para explorar o quintal, ia até a tela que prendia as galinhas e ficava falando com elas. No início, elas ficavam assustadas e respondiam com gritos muito diferentes dos gritos das pessoas. (Sile nem percebia que ela também só falava repetições de dizeres incompletos…) Esse passou a ser seu divertimento preferido: a casa das galinhas.
Num final de tarde, foi com a mãe recolher os ovos que estavam nos ninhos e lembrou que, na cozinha, havia muitos ovos semelhantes e quis saber se todos tinham sido levados dali. Daquele dia em diante, galinhas e ovos passaram a ter uma relação entre si.
Quando já corria com desenvoltura, pulava e até subia nas árvores, Sile cismou com uma galinha que passava o dia todo no ninho e, ao invés de cantar, parecia que chorava. Perguntou ao pai, que lhe disse que ela estava choca. O que seria estar choca? Por que ela chorava?
Parecia ser acontecimento muito importante, porque os pais prepararam com esmero um ninho dentro de uma gaiola, com palhas bem limpas e muitos ovos. Além de visitar várias vezes ao dia o cercado e a casa das galinhas, Sile passou a espiar por uma fresta a galinha choca, sempre muito silenciosa e compenetrada.
Passadas três semanas (Sile aprendera a contar os sábados que passavam…), ela encontrou a choca muito agitada, conversando uma conversa muito estranha e enfiando a cabeça pelo meio das penas, como quem mexe com algo dentro de uma gaveta.
Correu contar aos pais o que vira. Eles disseram que os pintinhos estavam nascendo. Pintinhos? Nunca tinha ouvido essa palavra… O que seriam pintinhos? Naquele dia, Sile soube e foi difícil exigir que se afastasse de perto deles; teve dificuldades para almoçar, para tomar banho e, principalmente, para dormir. Viveu dias de agitação.
Quando conseguiu aquietar, viu que os pintinhos eram muito diferentes uns dos outros; de cores diferentes, alguns eram menores, outros maiores, alguns mais quietos, outros muito agitados, um deles, muito curioso.
Foram dias acompanhando a nova família, os pequenos correndo pela gaiola, aprendendo a comer e, depois, correndo para debaixo da choca, chorando de frio. A choca falava com os filhos e eles pareciam entender. Sile se esforçava para compreender…
Os pintinhos cresceram bem rápido, as penugens foram cobertas por penas mais firmes e as cores foram diferenciando ainda mais um do outro. Sile olhava sem entender: só um se parecia com a mãe, que era preta. Tinha pinto branco, pinto carijó, pinto vermelho, pinto amarelo, pinto de duas cores, pinto de três cores, … Tinha até um sem penas no pescoço e um sem rabo, que o pai chamava de Suro, porque ele não tinha penas grandes no lugar do rabo. Ah! Um deles tinha penas até os pés. “Deveriam ser todos da cor da mãe”, pensava Sile. Perguntou ao pai e perguntou à mãe e eles disseram que era assim mesmo. Não podia ser; deveria haver uma explicação…
Passados seis meses, nenhum deles se parecia com o pintinho do primeiro dia; foram mudando de penas, de tamanho e até de comportamento. Uns ficaram grandões e briguentos; o pai disse que esses eram galos.
Bem mais devagar que os pintinhos, Sile também foi crescendo e, de certa forma, trocando de cor, pois sempre ganhava roupas novas de outras cores e de outros tipos. Começou a frequentar a escola e, depois de se acostumar no meio daquelas crianças, percebeu que elas eram muito diferentes uma da outra, mesmo que o uniforme fosse o mesmo.
Depois do jantar, revelou aos pais a descoberta. Disseram que cada um era parecido com o pai ou com a mãe dele; como não eram irmãos, normal que fossem diferentes. Tudo bem! Os pais deveriam saber mais que ela… Mas… os pintinhos eram irmãos e também eram diferentes um do outro… Os pais sorriram entre si e explicaram: nós escolhemos um ovo de cada galinha que vive no galinheiro e os pintinhos, que hoje já estão bem grandes, ficaram parecidos com a mãe deles. Ué! Então, a choca preta não era a mãe de todos eles?
Sile ficou indecisa e aquietou por uns dias. Observava os galináceos e observava os colegas de escola. Concluiu que não eram irmãos. Todavia, galináceos e crianças se comportavam como se fossem irmãos. Desistiu de interrogar os pais sobre essas grandes dúvidas.
Foi quando ela descobriu que um colega de sala era ‘filho de criação’. Então, pensou muito sobre filhos criados pelos pais e ‘filhos de criação’. Como seria isso? Ficou com vergonha de perguntar para os professores e nem pensava perguntar isso para os pais. Precisava resolver essa questão sem a ajuda de gente grande: uma família poderia ser formada de irmãos e de não-irmãos?
Quanto mais analisava, mais diferenças apareciam. Percebeu que mesmo irmãos poderiam ser bem diferentes entre si.
Você quer ajudar Sile a resolver esses enigmas?
Escrito das 18 às 20 horas do dia 17.04.2023 e reescrito em julho/23.
ESPÍRITOS
Nessa madrugada, acordei grávido e cansado: fiquei indeciso se gestava ou se descansava. Optei por aproveitar o amanhecer espirituoso.
***
Podem ser encontrados espíritos de várias espécies e em formatos diversos. Existem espíritos absolutamente sólidos e espíritos totalmente líquidos, porém, são poucos; em geral, são formados de misturas ou são derivados, ensopados e, até, em boa parte, pastosos.
Há espíritos voadores e espíritos rastejantes. Uns com ideias elevadas, sobrevoando as alturas; outros, pensando mesquinharias, se alimentando do lixo midiático. Existem espíritos migratórios e espíritos telepáticos, que transitam pela variação de pensamentos, procurando oportunidades para compartilhar utopias. Existem espíritos sem direção e espíritos bem dirigidos; enquanto uns atropelam e machucam as palavras, outros se movem com harmonia por entre os obstáculos mentais. Espíritos turistas perambulando pelas redes sociais, que gastam os dotes naturais e deixam lixos intelectuais.
Alguns espíritos são predadores: destroem vidas ao derredor; predam as vítimas impiedosamente. Espíritos carnívoros que expelem dejetos viscosos, fétidos e repulsivos.
Os predadores se alimentam de ideias roubadas e defecam ideias-esterco que são absorvidos e republicados por seus ‘seguidores’; transformam os venenos dos maus em alimento para outros espíritos maléficos.
Existem espíritos vegetais, que fixam raízes, e espíritos parasitas, que sugam os espíritos hospedeiros. Os espíritos sementívoros preparam as sementes para uma germinação facilitada. Catam e espalham ideias raras; as que caem em mentes sadias proliferam boas ideias. Muitas se perdem na aridez do egoísmo.
Há também espíritos que andam de cabeça em cabeça, polinizando ambientes. E, ainda, produzem o mel do conhecimento, para si e para os espíritos que produzem venenos.
Os espíritos cruzam-se entre si, gerando espíritos mestiços e subespécies espirituais. Porém, nem sempre, as gerações confirmam a genética espiritual. Muitas vezes, os espíritos-filhos contrariam os espíritos maternos e/ou paternos; saem tão diferentes dos espíritos-ancestrais que nem parecem ser filhos deles. Sempre há algum espirito espúrio na família. Felizmente, são exceções na espiritoteca dos genitores.
Os espíritos líquidos ou gasosos, ao encontrarem espíritos sólidos, contornam esses estorvos e seguem seus caminhos. Por pura bondade, ao passar por espíritos endurecidos, lapidam um pouco da estupidez empedernida. Os espíritos líquidos e os espíritos gasosos têm também esse poder: o de desgastar as ideias calcificadas nas múmias-vivas, enquanto eles seguem íntegros e enriquecidos. Como a água e o vento, passam pelas ‘pedras’ sem se desgastarem.
Espíritos belicosos espalham intrigas e guerras, espíritos sórdidos contaminam espíritos ingênuos, espíritos mesquinhos enriquecem de futilidades, espíritos insatisfeitos geram evoluções e revoluções, espíritos migratórios se adaptam a regiões exóticas e compartilham raízes culturais.
Escrito originalmente em 08outubro2015.
O QUE É ‘LIBERDADE’?
LIBERDADE NATURAL
Invejo as aves que
se abrigam apenas nas próprias penas
e não armazenam alimentos.
Nós – humanos –
dependemos de roupas e de abrigos,
temperamos a comida,
estocamos cereais e
temos de defender nossas ‘riquezas’.
Perdemos a liberdade natural.
ÁDVENA
A fruta estava madura, no ponto. A polpa estava deliciosa. E as sementes, muito semelhantes entre si, despertaram no homem a vontade de plantar, de ver as pequenas folhas emergirem, de admirar a planta tenra, de apreciar a folhagem juvenil e de saborear novos frutos, quem sabe?
Movido pelo impulso vital e revivendo sua infância na roça, contemplou as sementes e cedeu ao impulso de colocar algumas para germinar. Durante dias, aguardou a germinação dos óvulos, que iam rompendo os tegumentos até as radículas e a plúmulas surgirem dos embriões. A seguir, acalentou o desenvolvimento das plântulas.
Porém, ao derredor da morada humana, a terra e a Terra haviam sido dominadas e subjugadas por alvenarias e por asfaltos, sem um palmo de solo natural para receber árvores em crescimento.
Da janela, ele contemplava a rua quando percebeu um pequeno buraco ainda não cimentado após o conserto da calçada. Sorrateiro, a olhar para os lados temendo policiamento, ele cavou a terra e, em meio à esterilidade urbana, plantou uma das pequenas árvores.
A partir desse dia, sua função principal era vigiar e regar a árvore-criança com desejos de vicejamento. Temia que os cães satisfizessem as necessidades fisiológicas em cima e ao redor, que as formigas atacassem as folhas tenras, que algum funcionário público ou algum vizinho ‘limpasse’ a calçada. Fatal seria se um pneu esmagasse a vida em seu início.
Vencidos todos esses ‘inimigos’, ele e a árvore comemoraram a preservação da vida. Aos poucos, o arbusto solitário passou a ser ponto de referência, para a família e para os vizinhos. Todos amavam e defendiam a arvoreta, dos perigos da poluição, dos vândalos, das bicicletas e dos pisões. Confiavam que a vida venceria a esterilidade.
Iniciava um longo período de cultivo para que a árvore crescesse livre e sadia. Mesmo com toda a atenção e o carinho do homem, havia dificuldades. Enegrecidas pela fuligem oleosa dos motores e pela poeira dos pneus, as folhas tentavam respirar o gás carbônico liberado pelos pulmões dos estressados que corriam atrás de prazeres imediatos e totais. Poderiam assim contribuir para a redução do ‘efeito estufa’ E as pessoas poderiam sentar à sombra refrescante.
Os cães depositavam líquidos e sais alimentares. Entretanto, os excrementos liberavam odores desagradáveis. A árvore precisava de calor para seu metabolismo; porém, o sol escaldante cozinhava suas raízes sob as lajes de concreto.
Para viver, as plantas se renovam, soltando as folhas caducas e produzindo ramos e folhas novas, uma ressureição cotidiana e contínua. Então, as pessoas esqueciam ‘do grande amor pela Natureza’ e maldiziam as folhas caídas, elementos estranhos naquela perfeição urbana. Desconheciam (ou já tinham esquecido) que as folhas mortas podem virar alimento para as plantas vivas. As pessoas preferiam controlar a harmonia visual.
E mesmo os frutos incomodavam; os humanos preferiam devorar guloseimas açucaradas e bebidas energéticas, turbinadas. Por isso, os frutos amadureciam e caiam ao pé da árvore solitária, atraindo moscas. Havia também, o risco de quem passasse escorregar, cair, se sujar, sofrer fraturas. E as sementes, inconscientes da indignação do povo, começavam a germinar nas gretas das pedras e dos blocos de concreto, ameaçando entupir os bueiros e causar transtornos. A germinação das novas sementes preocupava os humanos que teriam de trabalhar muito trabalho para vigiar, cuidar, arrancar, limpar.
A árvore espalhava ‘problemas’ ao derredor. Então, as intrigas cresceram em volume e acidez contra quem encontrou, cuidou e plantou a semente. Acionados os ‘órgãos públicos’, a ‘Justiça’ montou o competente processo jurídico e os políticos ‘da oposição’ aproveitaram o alarido da mídia para fomentar a campanha eleitoral. Diversas polícias precisariam agir.
A árvore tinha ganho aversão comunitária e precisava ser erradicada, porque desassossegava a urbe. Nada mais incômodo que a ‘vida selvagem’ ocupando os exíguos e caríssimos espaços civilizados, sobrecarregando os serviços públicos e atrapalhando ‘a mobilidade urbana’.
Por mais lógico e simples que fosse arrancar uma árvore, fez-se uma guerra, com os ‘defensores da Natureza’ agredindo a todos que pretendessem ‘limpar a cidade’. Ecologistas que jamais haviam plantado uma semente invadiram as redes sociais e as ruas para vociferar contra os ‘agressores da Vida’. Paradoxalmente, ambos os lados da contenda gritavam ameaças de mortes. Todos tinham razão e ninguém tomava uma gota de senso de realidade.
Foram mobilizados os tribunais supremos e os exércitos policiais. Os julgamentos, transmitidos em tempo real, entretinham a multidão esquecida de seus afazeres e de seus problemas pessoais. Então, não mais a árvore e, muito menos, a semente, eram o foco do problema. A importância da árvore passou a ser as funções sociais que ela sustentava: os tribunais, as câmaras, as assembleias, as ONGs, os influenciadores, os jornalistas e os sindicatos.
Apesar de todos os transtornos para a perfeição urbana, a árvore teria de permanecer incomodando, porque um vegetal perdido na aridez urbana conseguia manter, em equilíbrio dinâmico, uma rede de descontentamentos úteis e lucrativos para os dois lados da contenda. As ‘graves consequências’ de um louco que fez germinar as sementes de uma fruta saborosa mantinham as pessoas vivas e orgulhosas de suas importâncias.