INTERESSES INTER-ESSES

Conhecer uma pessoa não é obra do acaso. Posso encontrar algumas ou várias pessoas, todos os dias, sem estabelecer, com elas, conhecimento; posso vagar pela multidão, sem fazer “novos conhecidos”.

O conhecimento se dá quando as pessoas se fazem presentes: se apresentam ou são apresentadas porque estão (ao menos uma delas) interessadas por conhecer. O apresentador não é dono do conhecido e nem o único que o conhece; foi um dos muitos que poderiam ter apresentado.

A partir desse contato, a pessoa passa a ser ‘uma conhecida’ a ser reconhecida em novos encontros. As relações se estabelecem re-conhecendo o já conhecido e conhecendo um pouco mais.

O aluno busca algo que não pode ser “dado”. O professor pode apresentar assuntos, temas, informações históricas e/ou científicas, técnicas, regras, valores morais ou culturais; pode despertar a consciência da importância das habilidades intelectuais para o desempenho social e das técnicas para o desempenho profissional; pode despertar o interesse do aprendiz pelo conteúdo programático. No entanto, o professor não é doador de interesse, de consciência ou de conteúdo.

Se o professor e o conteúdo passarem imutáveis pela sala de aula, não houve evolução; apenas repetição. Processo ensino-aprendizagem é relação dinâmica entre elementos em desenvolvimento: o conteúdo, o aluno, o professor e os saberes de ambos.

O professor não é o dono do aluno e/ou do conhecimento; o professor apresenta um ao outro, porque já conhece o suficiente dos dois. (Ao menos, se espera que conheça.)

Inter-esses, podem acontecer (se tornarem realidade, se realizar) conhecimentos; interesse é relação desejada. Aluno, objetos a conhecer e professor são inter-locutores e devem dialogar entre si. A troca de informações entre esses locutores estabelece conhecimentos, objetivo fundamental da educação.

JOGOS SEXUAIS

Os rebanhos humanos seguem em busca de saciedade.
E, saciados, mantêm, na lembrança, a sensação do prazer
sentido ao saciar a fome, a vaidade e os desejos.

O prazer norteia a marcha dos rebanhos que buscam
alimentos para satisfazer o corpo,
emoções para satisfazer a libido,
poderes para satisfazer o orgulho ou
dinheiros para comprar alimentos, emoções e poderes.

Saciadas as necessidades naturais,
os humanos criam artificialmente novas necessidades
para obter repetidas oportunidades de sentir prazer,
comendo, acariciando, comprando, subjugando e dominando.

O saciamento de necessidades, de desejos e de vaidades,
entretanto, cobra altos preços. Nada é de graça.
Quem pode saciar uma necessidade aproveita o ensejo
para capitalizar espaços de dominação e cotas de poder.

Talvez, a necessidade de pertencimento
seja a força que une e comanda a massa humana
que segue atrás de bandeiras de luta
desenhadas com ingenuidade e/ou má-fé.

Por detrás de slogans, palavras-ônibus e discursos
– hinos instantâneos e efêmeros –,
existe um emaranhado de correntes
que ovelhas e cordeiros ignoram ou fingem não ver.

Cidadania, democracia, direitos humanos, preconceito,
assédio sexual, racismo, desigualdade social, trabalho escravo, ...
os catecismos conseguem uniformizar a marcha do rebanho.
Cantando a mesma canção, ovelhas e cordeiros
se sentem seguros para caminharem na mesma direção.

Dentre as estratégias usadas pelo comportamento tribal,
está a cortina que encobre os jogos sexuais.

Robôs conduzidos por inteligência artificial
estão imunes a atrações sensuais,
hormônios provocadores, agressões físicas e assassinatos.
Seres humanos – por enquanto – ainda agem e reagem
por estímulos, excitações, provocações e artimanhas sensoriais.

É ingenuidade ou hipocrisia se esconder
atrás de ondas sociais ou de discursos superficiais
sem analisar as relações lógicas de causa-efeito
que ocorrem na fisiologia dos corpos.

As ondas moralistas se assemelham a religiões politeístas
com deuses virtuais instáveis e sacerdotes eventuais
que usam e dominam as ferramentas eletrônicas para subjugar
instintos, sentimentos, ciclos naturais e eventos biológicos.

Acondicionam os fenômenos reprodutivos
em fôrmas ideológicas anônimas e massacrantes:
trituram os grãos para formar uma massa
de aspecto aparente uniforme.

Usam a mídia e por ela são usados.

As árvores que expõe flores para as abelhas polinizarem
e que geram frutos com sementes férteis distribuídas pelas aves
devem ser submetidas às vontades humanas,
produzindo lucros para o mercado capitalista. 

Manipulam as videiras para produzir uvas sem sementes
durante todo o transcurso anual e em todas as regiões;
negam o convívio de casais de animais em primavera:
confinam, inseminam, engordam e abatem.

Escravizam animais e vegetais ao deus Consumo,
usando engenharias genéticas e transgenias.

As pessoas devem controlar seus hormônios e desejos,
fingindo desconhecer as reações naturais do próprio corpo,
como se as glândulas femininas não liberassem estrogênio
e as glândulas masculinas não liberassem testosterona;
esses odores devem ser abafados com perfumes potentes.

Porém, a indústria e o comércio podem livremente
explorar a moda baseada em atrativos sexuais e
obter lucros usando imagens e imaginações
dos próprios consumidores fanatizados, que são
o princípio e o fim dos processos consumidores.

A violência visível pode encobrir
a violência simbólica e a manipulação,
sejam elas conscientes, intencionais ou ingênuas.

Muitos buscam gozar prazeres e tirar vantagens
sem compensar as vítimas em ambos os lados da guerra.
Os espertos usam os mantras para ganhar palco
e para cobrar indenizações pelas reações alheias,
se fazendo de vítimas dos jogos sexuais de iniciativa própria.

Sítio Itaguá, das 03:08 às 04:10 horas do dia 01jan2017.