Preservação de traumas ou diluição do passado?

Cada um de nós, ao recordar fatos passados, olha, vê e reage de modo diferente. Podem ser olhares bem diversos (de trágicos a divertidos): olhar ascendente (do passado para o futuro), olhar descendente (o passado visto no momento presente), olhar horizontal (analisar e comparar os viventes durante o passado, durante o presente e imaginar como viverão no futuro), olhar subjetivo (do próprio vivente) ou olhar objetivo (visão de outro).

Por isso, diferentes aspectos podem ser vistos no mesmo fato. Depende de quem avalia e dos critérios de avaliação. O mesmo evento do passado pode ser visto e classificado como natural, normal, inusitado, estúpido, saudoso, afetuoso, aversivo, alegre, triste, ditoso ou traumático. Depende do ponto de vista de quem viveu o evento, de quem presenciou, de quem participou ou de quem ouve o relato.

As boas lembranças são rememoradas com prazer e com o impossível desejo de reviver aqueles momentos. Dos lutos, ressuscitam tristezas. Os traumas podem voltar e se instalarem maiores, se crescerem com o tempo.

Muitos os traumas, inúmeras as teorias e variadas as terapias. Alguns profissionais da cura indicam tratamento medicamentoso, outros indicam a hipnose, a regressão mental e a meditação. Cada qual com suas fés e com suas promessas. Assim, podemos acabar curados, intoxicados ou neuróticos. Podemos nos livrar dos pesadelos, nos viciar em drogas, nos perder nos labirintos das anamneses ou aprofundar a piedade de nós mesmos (depressão). Maior risco se, no presente, estivermos reinventando, verbalmente, o nosso passado e/ou o passado dos outros.

Além disso, podemos caminhar ao lado do analisado, confirmando suas percepções e seus traumas, ou nos pôr diante do caminhante, como um pequeno espelho que mostra uma fresta do passado sobre o largo campo do presente.

Na Nossa Escola, projeto pedagógico aqui ao lado em 2007, as pessoas falavam muito do tempo que passaram fome, que precisavam “comer bolinhos de terra”. Eu poderia me esforçar para sentir como eles se sentiram ao comer bolinhos de terra (empatia) e reforçar, nas mentes deles, os dramas que viveram. Preferi ajudá-los a viver intensamente esses lutos por uns momentos (resgatando e, logo, consumindo o passado), para, a seguir, desconstruir as lembranças ruins com boa dose de racionalidade; racionalidade que faltou aos nossos antepassados e que pode nos ajudar a evitar outras fomes e outras tragédias.

Mais que filhos da ontogenia (formação biológica e psicológica do indivíduo humano), os monstros pretéritos que nos perseguem são produzidos pela cultura, seja ela familiar, comunitária, social ou étnica. Pretérito, do Latim, praeter(tus): deixado de lado, omitido, passado, … No caso, monstros que podemos deixar de lado, omitir. Ou não. A maioria abandona o passado e vive o presente. Consciente ou inconsciente. Porém, acidentes, assaltos, roubos, tragédias, suicídios, estupros e traições podem perdurar no presente e invadir o futuro.

Para as pessoas que padecem com sombras do passado, o sofrimento psicológico é real, desgastante. Pode ser até letal. Exemplos: o assassinato dos pais pode provocar a vingança dos filhos; um suicídio pode levar a novos suicídios. Porém, podemos nos esforçar para ajudá-las a analisar a cultura em que estavam imersos, sob a luz de tendências atuais de ortotanásia e do direito que as pessoas têm viver do seu jeito ou de desistir da vida. Esse exercício psicológico pode diluir o sofrimento que foi inevitável no passado, mas que pode ser modificado a partir do presente.

Seria ilusório e pretencioso comparar traumas, alegrias, euforias e sofrimentos alheios. Muito mais ilusório e pretencioso comparar esses sentimentos. entre si (pessoas ou sentimentos) ou comparar nossas experiências com as experiências dos outros. Quem foi mais feliz? Quem sofreu mais? Os que perderam os pais quando criança? Os que nem conheceram o pai? Os que foram sobrecarregados com responsabilidades? Os que sofreram abusos? Os pobres? Difícil contabilizar… Depende de cada mente, de cada equação mental.

Ou seja, melhor ajudar a diluir as reminiscências do que favorecer a ressonância emocional. A diluição de pensamentos negativos proporciona mais benefícios que cultivar a dor.

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