REMISSÃO DE CULPA

Você pede desculpas.

Eu não tenho poderes para anular tuas culpas e, muito menos, poder para remir teus crimes. Não há como emendar bananeiras ou desfazer os cortes, os ferimentos e a morte de árvores; não consigo ressuscitar vegetais. Seria utópico (e é) se livrar das agressões apenas confessando as culpas.

Você veio reaver as armas do crime, sem trazer de volta os objetos que sumiram, destruídos ou jogados para o fundo do lago do esquecimento. Você não consegue devolver as horas de sono consumidas pela dúvida e pela insegurança decorrente da tua maldade ingênua. Você não consegue devolver a confiança em humanos; você não consegue remendar a paz dilacerada e, muito menos, restituir vida.

HIGIENE DA CUECA

   Nasci e cresci imerso na cultura brasileira: machista, reprodutiva, contraditória e simplista; às vezes, simplória e, até, leviana.
Por procura ou por sorte, fui ouvindo vozes dissonantes, indicações de ingenuidades coletivas que se enraizavam em mim também. Sou cientista amador, movido por curiosidade, em busca de atitudes mais coerentes.
   Lá pela terceira década de vida, um comentário, quase um murmúrio, despertou minha mente para as condições higiênicas de minhas cuecas.
   Quando criança, habitante de um cafundó, minha mãe aproveitava panos velhos, restos de camisas ou sobras de retalhos para confeccionar uma roupa íntima elementar. Ainda menino, fui enviado ao seminário para aprender a ler e a escrever. Ela precisa fazer bonito. Afinal, o filho seria alfabetizado. Então, ela aprimorou o modelo, chegando a algo próximo de uma cueca samba-canção. Só passei a usar cuecas compradas em loja quando ganhei algum dinheiro e saí da vila para estudar e trabalhar em uma pequena cidade.
   Paralelamente, a “privada” dos meus tempos na roça evoluiu, nos seminários, para “banheiro coletivo”; para banheiros de pensionatos e para um banheiro adaptado em minha primeira casa; de madeira, mas, “com banheiro”, se bem que ‘adaptado’. Nos seminários, só o nome de “banheiro”, pois, os banhos semanais dependiam das águas – às vezes, barrentas – dos rios.
   E assim fui evoluindo... Mesmo que – hoje, percebo – ainda faltasse muito para poder me vangloriar da higiene pessoal. Aí, ouvi o cochicho a que me referi em alguns parágrafos atrás.
   Desde menino, depois de urinar, toda vez, eu esperava as últimas gotas abandonarem a glande; me demorava... e as pessoas ironizavam esse tempo extra, insinuando malícias ou ironias. Por mais que cuidasse e usasse estratégias para evitar as gotas de urina restantes, a cueca, vez em quando, manifestava o odor de desasseio.
   Perguntei para algumas mulheres como elas faziam para evitar que a calcinha ‘ficasse temperada de urina’. Estranharam a pergunta e demonstraram preocupação com meu comportamento e com minha masculinidade. Ora, usavam papel higiênico...
Pensei: nunca vi meninos, rapazes e homens usando papel absorvente para secar as gotas temporãs... Porém, mesmo que fosse ironizado, decidi experimentar a técnica sanitária.
   Confesso que sofri zombarias e reprimendas. Afinal, estava violando o código do machismo, posto em risco a segurança dos ‘verdadeiramente homens’ e semeando dúvidas sobre minha opção sexual.
   Outra decisão minha: sentar no vaso sanitário para urinar. Afinal, quem convive comigo merece encontrar o assento limpo e inodoro.
   Na Década de 1980, quando passei a trabalhar para uma empresa em que os mictórios se estendiam ao longo de uma parede, às vezes, passava por humilhação, porque algum colega me via a higienizar a glande e o prepúcio e proclamava essa ‘pouca vergonha’ para debochados colegas e clientes na grande sala de trabalho.
   Também sofria escárnios em estações rodoviárias e aeroportos. Os que viam secando os restos de urina riam com complacência, parecendo se apiedarem dos meus desvios ‘morais’. Entretanto, minhas cuecas ficavam quase livres de imundícies e eu sentia o orgulho de romper um preconceito. Por me sentir menos sujo e mais confortável, fiz desse cuidado um hábito.
   No final do Século XX, embarcava mais uma vez para exercer meu trabalho no extremo-norte do país. Depois de encaminhar minha bagagem e meu embarque, fui aos ‘sanitários’, carregando a ‘bagagem de mão’.
   Como sempre se faz, ao adentrar ao ambiente restrito, lancei um olhar estratégico para a parede em frente, onde se alinhavam os mictórios ... e encontrei um rolo de papel higiênico ao lado ‘direito’ de cada urinol de louça.
   Aquela visão me deixou paralisado. E a estátua viva chorou... Inicialmente, um choro manso, lágrimas escorrendo silenciosamente... Os dois passageiros que lá estavam, ao sair, passaram por mim olhando o chão, compadecidos com meu pranto. Os que vinham entrando me olharam com assombro e um deles veio me consolar, pois, então, eu já me sacudia em soluços.
   Me emocionei porque via realizado um sonho evolutivo; um espaço público tinha sido preparado para atender a uma necessidade daqueles que desejavam privilegiar a higiene íntima em detrimento da glória machista de ‘jamais se comportar como mulher’.
   Tenho consciência de que aqueles rolos de papel higiênico foram colocados ali para atender mais da metade dos ‘homens’ que ali urinassem; que, sozinho, nada teria conseguido. Todavia, eu tinha sido um dos que lutaram em silêncio por aquele benefício. Vibrei de alegria por ter participado de um evento social evolutivo; de ter ouvido o Zeitgeist (“o espírito do tempo”) e contribuído para a higiene das cuecas.
                                              Sítio Itaguá, 08.09.2020

MAU-OLHADO

   Desde criança, ouvi pessoas dizerem que alguém havia colocado mau-olhado nas fronhas, nas dobras da roupa ou nos bolsos. Ouvia mulheres especulando quem teria feito aquele feitiço, quem teria praticado a bruxaria, com que intenção. E sempre citavam alguém da família, alguma vizinha, algum parente, como pessoa perigosa, que poderia fazer grande mal, podendo causar até a morte. Porém, jamais eu tinha visto o mau-olhado em si.
   No início da adolescência, talvez, com mais curiosidade e, sem dúvida, com alguma coragem, quando ouvia uma voz assustada falando que tinha encontrado um mau-olhado, procurava as provas reais do malefício. Deixava passar alguns minutos, observava com cuidado se a denunciante estava ocupada com outro assunto ou estava cuidando de seus afazeres e vasculhava todas as roupas que estivessem penduradas nos varais para secar.
   Demorei para encontrar ‘objetos perigosos’. Saía frustrado; entretanto, ainda mais curioso. Redobrei minha atenção, agucei os ouvidos e preparei os olhos para encontrar ‘o inimigo’. Mesmo assim, não encontrei ‘o monstro’ que poderia destruir a vida de uma pessoa da família ou até a mim mesmo.
   Como dizia Anna Maria, minha mãe, quando desisti de procurar, quando já tinha esquecido das ameaças, alguém me mostrou um mau-olhado. Então, entendi porque não conseguia encontrar os anteriores: eu procurava algo horrível, amedrontador à primeira vista.
   Para poder frequentar a escola (Curso Ginasial), passei meses hospedado na casa de uma família, para a qual prestava serviços. Levantava no final da madrugada para ajudar a filha da dona do botequim a fazer pastel, cavaquinho, bolinho de chuva, cueca-virada e sonho para serem vendidos aos passageiros do ônibus que passava logo após às seis horas.
   Durante uma daquelas empreitadas, a moça soltou um grito medonho, tirou e jogou o casaco através da porta, apesar do frio intenso e da geada sobre as plantas. Parei de sovar a massa e aguardei calado, pois, ela era bem temperamental e poderia reagir agressivamente. Ela era a filha da patroa, mas, queria mandar mais que a mãe.
   Mesmo com medo, ela se encolheu de frio e, em poucos minutos, me mandou buscar o casaco caído logo depois da porta. Obedeci, sem contestar. Quando ofereci a veste, ela, tremendo, se encostou mais ainda contra a parede, com olhos de pavor. E ordenou que eu tirasse o mau-olhado que estava no bolso direito do casaco, já gelado e úmido de sereno.
   Vacilei. Se era perigoso para ela, poderia ser perigoso para mim também. Todavia, tinha que obedecer...
   Abri lentamente o bolso indicado e nada vi de diferente. Apenas, na parte mais funda do bolso, havia um amontoado de fiapos e de finas fibras que tinham se desprendido do tecido. Virei o bolso pelo avesso e ia retirar os fragmentos quando ela gritou ainda mais assustada: “Não põe a mão. Tu tá loco?” 
   Eu, muitas vezes, havia retirado montinhos de pano no fundo dos meus bolsos... Nem por isso, fiquei louco ou senti algum quebranto. No entanto, precisava concordar com a patroazinha. Então, ela ficou mais indecisa que eu: vestir o agasalho com mau-olhado, suportar o frio ou assistir o extermínio de uma superstição. Seria uma vergonha ter mais medo que o adolescente quatro anos mais novo que ela... Foi vencida pelo frio ...
   Nos vinte anos seguintes, desperdicei meu tempo tentando convencer vítimas de quebranto de que aqueles restos de tecido lavado comprovavam, apenas, que as pessoas não costumavam virar a roupa pelo avesso na hora de lavar. Depois, aprendi a cuidar da minha vida, tão somente, e fiquei em silêncio diante de pessoas com medo de mau-olhado.