SOCIALISMOS BRASILEIROS

fr. socialisme (1831) ‘doutrina de organização social que privilegia o coletivo em detrimento do indivíduo’ (Houaiss)

O Brasil é pátria do socialismo político que ilude e fanatiza para conquistar, aumentar e manter poderes; uma associação de companheiros atrelados por sigilos.

O Brasil é pátria do socialismo capitalista que copia as piores ideias neoliberais, negociando a regularização do mercado com suculentas doses de assistencialismo.

O Brasil é pátria do socialismo sindical das assembleias simbólicas e dos líderes embusteiros, que usam a representação para conquistar vantagens pessoais.

O Brasil é pátria do socialismo empresarial, parque de barganhas industriais, comerciais e/ou burocráticas, com obsolescência programada e sonegações espertas.

O Brasil é pátria do socialismo financeiro que distribui dinheiro para comprar quem se vende; prega a igualdade enquanto pratica o individualismo e constrói pirâmides de poder.

O Brasil é pátria do socialismo jurídico que alimenta o crime e cria empregos, tribunais e presídios; uma classe social privilegiada com orçamento próprio e altos salários.

O Brasil é pátria do socialismo esportivo de vitórias jurídicas e de conquistas financeiras; campo para lavagem de fortunas ilícitas e para disputas por vaidade.

O Brasil é pátria do socialismo religioso de crenças que criam deuses para iludir e templos para abrigar a fé dos incautos, na certeza da eterna impunidade.

O Brasil é pátria do socialismo orgiástico na busca coletiva dos prazeres extremos do abuso sexual, do consumo de drogas e da ração para obesidade.

O Brasil é pátria do socialismo rodoviário que privilegia a indústria automotiva e a comercialização de veículos usados, em detrimento do transporte coletivo.

O Brasil é pátria do socialismo medicamental das máfias brancas, dos trustes farmacêuticos, das epidemias inventadas e dos planos doentes.

O Brasil carece de:

Socialismo social (de cidadania igualitária)

Socialismo governamental (de administrações colegiadas)

Socialismo cultural (com socialização das ideias)

Socialismo educacional (de acesso à Educação)

Socialismo produtivo (pela valorização do trabalho)

Socialismo natural (de respeito à Natureza)

Socialismo comunitário (da convivência pacífica e ordeira)

Socialismo ético (da consciência e do respeito mútuo)

Socialismo saudável (saúdes social, psíquica e física)

Socialismo feliz (de bem-estar e de felicidade)

Pílula de curiosidade.

Optei por publicar algumas linhas do romance Jão que estou escrevendo, como forma de compartilhar meu trabalho.

Peregrino adentrou à cabana e depositou, sobre o banco, as coisas que carregava. Abriu a arca de madeira e pegou um livro bem usado.

— Aqui, nesse papel, tá escrita uma história…

Foi a primeira vez que Jão viu um livro. Nem imaginava que as palavras se escondiam ali. No entanto, só que foram abertas as páginas, as palavras começaram a voar pela boca do homem. Parecia que as palavras entravam pelos olhos e saiam pela boca. “Joãozinho e Maria …”

ALEGRIAS DE MARIA POETA

Nasceu de parto natural, sem alaridos;

porém, determinada, com olhos curiosos.

Em homenagem à virgem-mãe,

recebeu o nome Maria das Dores.

 

Durante a infância serena,

colheu olhares, dizeres e belezas;

cresceu sem medos e sem dores;

adorava brincar, cantar e sorrir:

se fez Maria das Alegrias.

 

As mãos aprenderam a semear…

flores, alimentos, amizades, …

em comunidade, fraternalmente.

 

Encontrou Geraldo ou se encontraram…

No Amor à Natureza cultivada a dois,

geraram Fernanda e Antônio,

formados em sociabilidade e nas Ciências.

 

Vendo a família encaminhada e

satisfeita com o trabalho comunitário,

encontrou espaço para dar asas à arte

que aguardava há anos para alçar voo.

 

Semeou, então, versos de paz e de vida:

musicou poesias e cantou sonhos;

defendeu as plantas e as aves;

se fez voz dos agricultores,

dos produtores de alimentos e

dos preservadores da Natureza,

das matas e das fontes de água.

 

Avessa à politicagem,

Maria das Alegrias prefere

viver entre os humildes,

valorizar a vida comunitária,

plantar e cultivar amizades,

estando sempre disponível

para ajudar e compartilhar.

 

Agricultora dedicada,

com mãos de fada,

desperta as sementes,

multiplica das plantas,

cultiva flores admiráveis.

 

A maioria das canções

nasceu durante o trabalho

nas lavouras ou na cozinha;

enquanto as suas mãos plantavam

e colhiam frutos doces e saudáveis

ou preparavam refeições deliciosas,

Maria das alegrias ia cantarolando:

“Eu sonho encontrar um lugar pra viver”,

“o mundo vai te ensinar a ser livre”,

“Jaguaruna … as dunas douradas …

um povo simples, trabalhador e cortês”,

“Aprendi na roça a plantar e a colher”,

“a vida na roça não tem depressão”,

“Mãe … quantas noites sem dormir…

perdoa se não fui a filha que você sonhou”,

“A paz e o amor só dependem de nós”.

 

As letras e as melodias

de Maria das Alegrias

se fizeram canções

na voz e na harmonia

de jovens cantores.

 

Maria das Alegrias

voou em discos de valor.

NOME DE ESTRADAS, RUAS , PONTES, TÚNEIS, …

Em rodovias, os políticos colocam

o nome de líderes paternalistas

para que possamos transitar sobre eles;

pisar, escarrar e jogar lixo neles.

 

Por alguma ironia vaginal,

os homens nomeiam túneis e pontes

em homenagem a mulheres

idôneas, dignas e castas,

para que sejam penetradas ou

para que possam passar por cima delas.

 

E, para evitar e/ou estar a salvo

de reações dos violentados,

estabeleceram em lei

que só podem ser usados,

nas placas de trânsito,

nomes de pessoas mortas.

 

São vinganças póstumas.

ENDEUSADORES DE DEUSES

Medicina é Ciência; culinária, não.

As duas são fundamentais para a saúde da vida humana.

Mas… por que uma é ciência e a outra não é?

Seria por causa do dinheiro?

Ou do monopólio assegurado por barganhas políticas?

Seria resultado do corporativismo médico favorecido pelo obscurantismo da pajelança clínica?

Ou da dificuldade de controlar e de proibir que o povo invente e use suas ciências livremente?

Quanto do nosso medo de morrer empodera os médicos (que, historicamente, são os primeiros a morrer)?

Como acreditamos naqueles que não salvam nem a si mesmos?

Ah! Culinária e nutrição são artes.

Medicina seria a arte de privilegiar uma elite?

Como deixamos de valorizar nossas sabedorias para honrar e cultuar o ‘saber científico’?

Por qual motivo deixamos de ver, analisar e perceber quais são os profissionais que cuidam da saúde e quais os que cultivam as doenças?

Há médicos e médicos… senhores dos medos.

Culinária não é ciência porque muitos sabem colher e preparar o que comem? Nutrição não é ciência porque todos nós sabemos comer?

“Arte = habilidade ou disposição dirigida para a execução de uma finalidade prática ou teórica, realizada de forma consciente, controlada e racional” Filosofia – Platão

ALEGRIAS HUMANAS

ALEGRIAS HUMANAS

Vida dura,
pagar as contas,
criar os filhos,
dois empregos,
voltar pra casa,
lavar a roupa,
cozinhar marmita,
dormir exaustos.

Melhores salários,
casa nova,
menos trabalho,
tempo pra TV,
descontração,
‘esquecer da Vida’,
alienação.

Acordar:
ligar a TV,
chegar pro almoço:
ligar a TV,
voltar do trabalho:
ligar a TV,

desligar da Vida.

Que tragédia!!!
TV quebrada,
sem diversão,
sem novela,
sem religião,
sem notícias…

Contar pro vizinho
desgraça da família:
TV não liga,
aparelho de plasma,
um dinheirão…
que não funciona.

Vizinho ocupado,
vendo na TV:
futebol manipulado,
corrupção política,
estupro eclesiástico,
propaganda enganosa.

Entrar no carro,
sair à toa,
ver paisagens,
(re)conhecer o mundo,
admirar a árvore,
assustar passarinho,
saudar pessoas…

Choque de realidade:
gente falante,
notícias humanas,
crianças correndo,

alegrias humanas.

Alegria humanas???

NONAGENÁRIO DE ANNA MARIA

Anna Maria vai desbravando calendários.

Até parece que o Antônio Houaiss antevia as bravuras da heroína quando listou os significados do verbete desbravar: “fazer perder a braveza; amansar; tornar culto, civilizado; polir; livrar (lugar de passagem) de obstruções; abrir, desimpedir, limpar; explorar (lugares desconhecidos); vencer (desafios, obstáculos etc.); pôr (terreno) em condições de ser cultivado; arrotear, lavrar”.

Seguindo o filão indicado pelo dicionarista, encontramos acepções para arrotear: “desmoitar, desbravar (terreno) para plantação; cultivar pela primeira vez; lavrar para o primeiro cultivo; dar educação a; instruir, civilizar”.

Características de Anna Maria, em menor ou maior grau.

Foi gerada e gestada na primavera de 1925, sem protagonismo inicial. Porém, nos primeiros meses de 1926, assumiu o comando do apartamento uterino.

Fugiu do ventre no dia 11 agosto de 1926. Corpo e mente cresceram nas selvas oestinas do Sul do Brasil. Queria ser professora, porém, o pai a protegeu do ‘perigo de cair na vida’. Pela tradição, deveria casar, cuidar da casa e da família, como uma ‘rainha do lar’. Para ‘cumprir a sina’, foi oferecida em casamento contra o filho de outro madeireiro, mas rejeitou a chance de enriquecer.

Aos 23 anos, às vésperas de ser nomeada ‘solteirona’, casou com um vizinho analfabeto e pobre, sem olhos azuis e, muito menos, fortuna. No entanto, tinha vontade de trabalhar, derrubou uns pinheiros, falquejou tábuas, casa, mesa, bancos, armários e cama. Anna Maria emendou panos, preparou alimentos e gerou filhos a cada 2 anos.

Até o dia 8 de março de 1962, quando foi enviuvada aos 35 anos de idade. Estava ‘grávida de 15 dias’, pois a caçula foi parida em 19 de novembro de 1962.

Recebeu oferta de casamento, podendo acrescentar mais 8 enteados aos 6 filhos dela, com a certeza de mais algumas crias naquele segundo casamento. Porém, analisando, com as crianças, as perspectivas de ‘muito barulho’ nos ‘4 dias que restavam de vida’, deixou o viúvo casar com ‘a outra’. Se bem que, depois de repetir, por 2 décadas, essa cantilena (Só tenho 4 dias de vida e ainda tenho de passar por tudo isso!), está completando 90 anos de batismo e de registro civil.

Para diferenciar da mãe Anna, foi Maria; quando os filhos superaram a altura dela, passou a Marieta; mudando de região, conseguiu ser Anna Maria; ao gastar ainda mais o tamanho, se contentou com Anninha; ao nascerem os netos, se autodenominou .

Anna Maria tem orgulho de ter dado estudo para os 6 filhos; todos ‘formados’ e ‘bem de vida’. Viveu muito… mas … considera pouco. Assim, insatisfeita, destemida e obstinada, caminha para a fronteira do centenário, em 2026.